Em outubro de 2008, quando estava morando na França, notei dois nódulos na extremidade do meu testículo esquerdo, indolores e assintomáticos, descobertos pela velha mania masculina de “coçar o saco”. Levei muita sorte, pois na maioria dos casos o tumor cresce no interior (miolo) do testículo e é mais complicado diagnosticar o problema antecipadamente.
Quando o tumor é interno, sem a possibilidade de senti-lo apalpando, o volume do testículo cresce aos poucos, porém sem dor e sintomas adversos. O silêncio da doença é o maior perigo, pois quando tardiamente descoberto há mais possibilidades de se instalar a metástase, processo que leva o câncer para outras regiões do corpo.
Fiquei mais um mês e pouco mastigando o problema, pois o meu plano de saúde gringo só cobria emergências, achei que era alguma reação adversa da Finasterida (remédio que eu tomava para prevenir a calvície) e enfim parti para o Brasil. Se você usa Finasterida, fique tranquilo: todos os médicos a excluíram como causa do problema.
Primeira consulta: o histórico de vida
Logo que cheguei ao Brasil, a primeira coisa que eu fiz foi agendar uma consulta com um urologista do interior de São Paulo. Ainda sem saber do que se tratava, estava otimista em relação ao problema, afinal eu nunca tinha tomado nenhum anabolizante ou derivado (os principais causadores do câncer de testículo). Pedi uma sugestão de um urologista para um amigo e fui a caminho da consulta.
Logo que cheguei ao consultório, o médico me pediu um histórico de vida em forma de questionário. Fumante? Só na balada. Casos de câncer na família? Avô no estômago. Bebe? Socialmente. Entre outras perguntas menos relevantes. Arriei as calças, deitei na maca, então o médico apalpou meus dois testículos de forma brusca para sentir a rigidez do nódulo, geralmente nódulos mais moles e macios são fibroses ou bolinhas de gorduras, entre outras coisas.
No meu caso, era um nódulo mais duro, até então sem diagnóstico de maligno ou benigno. Depois de constatar as características superficiais dos tumores, o médico me pediu quatro exames. Três de sangue conhecidos como marcadores e um ultrassom. Os de sangue eram: DHL (desidrogenase láctica DHL, beta HCG e alfafetoproteína) e o ultrassom era da bolsa escrotal.
Exames feitos: todos os resultados normais e o ultrassom também normal. O médico pede então que eu retorne depois de três meses para ver como o tumor/nódulo iria evoluir.
Segunda consulta: o médico indeciso
Depois de três meses de espera, sem sentir absolutamente nada, nenhum sintoma desagradável e agora morando em São Paulo, retorno ao médico que consultei no interior para refazer toda a rotina anterior, exame de apalpar, três de sangue e um ultrassom.
Os resultados dos marcadores de sangue mais uma vez normais dentro dos valores referências, e o exame de ultrassom levemente alterado. A dimensão dos tumores tinha crescido de forma tímida, porém tinha crescido e não regredido.
O urologista colocou a decisão em minhas mãos. Me disse que eu teria que decidir se espero por mais três meses ou se faço uma cirurgia para extrair o testículo esquerdo. Ele me pediu então para fazer mais uma vez os benditos exames citados anteriormente e dessa vez um dos exames de sangue estava um pouco anormal. O restante igual.
Fui para a terceira consulta em outro urologista. Ele me pediu um breve histórico, assim como o médico anterior, e todos os exames que foram feitos previamente.
Após uma breve análise e uma apalpada, a resposta foi curta e grossa: “Você tem o testículo direito em perfeito estado, você poderá ter filhos normalmente só com ele. Se fosse alguém da minha família, eu tiraria esse testículo esquerdo pois, do modo como ele está, tenho minhas dúvidas se trabalha com eficiência para o seu organismo. Em relação à estética fique tranquilo, vou colocar uma prótese de silicone no lugar do testículo extraído. Isto se ele for maligno. Se for benigno, vamos retirar os nódulos e recolocá-lo.”
Marquei a operação no dia seguinte à consulta. O processo chamado de Orquitomia (retirada do testículo) é uma cirurgia rápida, tanto na na extração como na recuperação. Anestesia geral, extração do testículo esquerdo e biópsia superficial pelo patologista feita no local.
O tumor infelizmente era maligno e já tinha contaminado outras partes localizadas, como o cordão espermático. O câncer inutilizou por completo o meu testículo esquerdo, com necrose (estado de morte de um tecido ou parte dele) em mais de 65% da sua extensão. O testículo esquerdo foi extraído por inteiro – em seu lugar, colocaram uma prótese de silicone.
Recuperei-me completamente. Em uma semana já estava trabalhando.
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O resto do relato pode ser visto no link que coloquei acima.