A mão de Urgith
Inspirei profundamente o ar gelado. Tinha ele um quê de algo inexplicável. Algo de nefasto, ou talvez excitante? O que sabia é que eu já experimentara aquela sensação diversas vezes. É o sentimento incompreensível, inebriante, que nos consome todo de dentro para fora, faz-nos brotar o fanatismo, o compulsivo prazer pela morte. Sim, pois era isto que eu sentia. Era o sentimento único de que a mão de Urgith mais uma vez pousaria sobre a terra.
De minha cadeira, relanceei meus dois companheiros de sala, dispostos no canto oposto do cômodo circular, escorados à parede. Uma vela, colocada em um suporte no centro do aposento, iluminava suas faces amortalhadas, fazendo-os de certa forma me espreitarem de seus locais de perpétuo descanso. Suas órbitas oculares continham a escuridão da noite e pareciam não ter fim, serpenteando profundamente por faces enfaixadas, como cavernas sombrias. Logo, teriam os dois corpos franzinos e mumificados, meus companheiros mais obedientes, uma nova chance de errar sobre as terras.
Da janela de minha singela torre, olhei para o ocaso no horizonte, que já cedia seu lugar para a noite. A própria lua surgia tímida, menos brilhante do que o normal. Também ela sentia-se intimidada pela presença funesta que pairava pesadamente sobre os antigos e misteriosos Campos da Glória. Nestes, uma centena de soldados pululava, um batalhão de formigas, simples pontos enegrecidos que marchavam em minha direção. Num gesto compulsivo e automático, reabri a carta que mantinha sobre minha escrivaninha de madeira, já amassada e encardida de tantos pegares. Eis o que ela dizia:
"Matteo Valorcrest,
Alertamos de que seria o último aviso. Você insultou-nos repetidamente com suas respostas, mesmo seus crimes sendo merecedores de uma pena de morte. Sua prática é execrável, e estaremos marchando contra você mais uma vez.
Se ainda possuir algum resquício de honra e sabedoria, hasteará a bandeira branca, e rezará para que os deuses tenham misericórdia de sua infeliz alma.
Fenbala, cavaleira da Guarda Real de Carlin."
A carta ainda não falhava em ser cômica, mesmo após várias releituras. Não pude me conter, permiti-me uma sonora risada, esta devido à tamanha ridiculice do conteúdo do escrito. Hastear-lhes a bandeira branca! Antes levantaria eu a bandeira negra, de muito superior gosto e elegância. O batalhão, formado por soldados de Carlin, já estava agora praticamente às portas de minha pequena moradia provisória. A hora de agir chegara, enfim. Levantei-me rapidamente, sacudindo a poeira de minha túnica, provinda de décadas de abandono da torre, para mais uma vez repelir a oposição.
À um comando, meus dois serviçais ergueram-se novamente, com o auxílio do maior de todos os deuses, o senhor dos mortos. Era uma sensação engraçada, a de estar em seu comando. Minhas mãos eram seus movimentos; minha vontade, sua direção. Elas eram como sinistras marionetes, e agora seguiam seu mestre, ladeando-o meio trôpegas enquanto descíamos os degraus rangedores daquela torre esquecida. Em poucos minutos, estava eu à céu aberto, diante de um batalhão de uma centena de carlinianos, este constituído em sua maioria por mulheres, que até mesmo realizavam todo o comando. Uma tradição peculiar, a daquele povo.
Eis que, então, sucedeu-se um episódio memorável. Um exército de infantaria contra um único, simples necromante, e seus dois asseclas. E, ainda assim, eles tinham medo. Eu o sentia invadindo-os, contorcendo suas faces, que agora apresentavam expressões distorcidas de pavor. Medo de mim, e do que eu poderia fazer. Porque agora os mortos dançavam aos montes nos Campos da Glória, campos estes que já foram terrivelmente assolados com guerras e batalhas no passado. O que restava dos caídos de outrora erguia-se novamente das terras, mancos, rotos e putrefatos, de tal modo desfigurados que mal lembravam seres humanóides, quando não eram apenas ossos velhos. Os mortos nasceram da terra, interceptando os soldados carlinianos com suas armas apodrecidas e enferrujadas, quando não com as próprias presas e mãos, fitando-os com suas faces congeladas em expressões de dor e medo.
O próprio vento mudara, tornara-se mais sórdido, quase gélido. As árvores daquela planície balançavam-se sinistramente, seus galhos contorcendo-se como os corpos sem vida que marchavam por ali. O clima mudou, para combinar com o espetáculo, protagonizado sob um céu de um negro raramente visto naquela região. A lua desaparecera sob pesadas nuvens cinzentas.
Neste cenário, fui também eu participar da diversão. Os soldados estavam ilhados pelos mortos vivos, havendo no mínimo três para cada um deles. Suas tochas, varinhas e encantamentos de luz formavam uma ilha luminosa naquele oceano umbroso, mas não era o suficiente. Ao meu comando, cada vez mais os mortos vivos os pressionavam, fazendo-os retraírem-se para junto de si. Corri para o furor da batalha, em meio a ruídos metálicos de armas interceptando-se, gemidos inumanos produzidos pelos corpos que ainda possuíam resquícios de cordas vocais, e gritos dos próprios soldados atacantes. Gritavam de pavor, pois não estavam acostumados a lidar com aquilo. Eram mais habilidosos que os mortos, estes lentos em seus movimentos, mas para cada um que caía, haviam três para tomar-lhe o lugar.
Muitos carlinianos desertaram, fugindo de medo, e eu mesmo ajudei a destruir aqueles que permaneceram. Caíram muitos perante minhas múmias e meus encantamentos, peritos em drenar a força vital dos viventes. Ao fim, restava apenas um décimo do exército completamente desordenado, enquanto haviam ainda pelo menos cinquenta mortos vivos. Entre os soldados restantes, eu notei um paladino incansável, disparando flechas a torto e a direto e utilizando encantamentos sacros de luz amarelada para liquidar os que se aproximavam demais. Um tipinho detestável, com aquela expressão obstinada de herói em seu rosto. Com este, eu lidaria pessoalmente.
No fim, restou apenas ele, como eu imaginara. Retirei o encantamento dos corpos, fazendo-os caírem ao chão, como as cascas vazias que eram, exceto minhas duas múmias. O paladino olhou-me com uma expressão acusatória e superior, como o juíz que dita a sentença à um pobre condenado. Em seguida, flechou minhas duas múmias diretamente no coração, ou onde eles deveriam estar.
— Cairá perante meu arco, vil necromante! — Disse-me ele, com voz altiva.
Não aguentei, novamente explodi em uma gargalhada ruidosa. "Vil necromante"? Era piegas demais, até mesmo para aquele tipo de gente. À um comando, minhas duas múmias avançaram sobre ele, as flechas em seus peitos um mero incômodo; não cairiam apenas com isso. Um segundo depois, derrubaram-o no chão e assomaram sobre seu corpo. O arco era apenas um pedaço de madeira, inútil na posição em que ele se encontrava. Imediatamente, soube com toda a certeza do universo que ele preparava um outro encantamento, uma explosão sagrada à fim de liquidar meus asseclas, por isso apresentei-lhe minha mão direita, espalmada.
— Se tentar qualquer coisa, morrerá neste instante sem nem saber o que lhe aconteceu. — Não houve nenhuma explosão sagrada. — Agora, devo transformá-lo em um zumbi? Ou poderia esperar até que apodreça um pouco mais, quem sabe se saia melhor como um esqueleto. — A face de meu inimigo transfigurou-se comicamente em uma expressão apavorada.
Instrui minhas duas múmias a pegarem armas quaisquer do chão, a fim de acabar logo com aquilo. Fora uma brincadeira divertida, mas já cansara-me dela. Em seguida, sem mais palavras, os carrascos brandiam dois machados cegos e enferrujados, que iam diretamente de encontro ao pescoço do paladino. E tudo se encerraria ali.
Mas, numa perversão do destino, as duas armas jamais cumpriram seu objetivo. Pararam a dois centímetros de rasgarem a carne daquele miserável, tirando-lhe a vida. Ao invés disso, vinham em minha direção, brandidas por dois corpos hostis, que há um segundo eram de minha propriedade. Pela primeira vez aquela noite, o frio toque do medo apertou meu coração, atingindo-o em cheio. Tentei, em vão, impor novamente minha vontade às múmias, porém elas estavam sendo controladas por alguma força mágica superior à minha própria. Enlouquecido, andei para trás, tentando pensar na fonte daquela misteriosa magia.
Foi ai que vi o paladino levantando-se, seu rosto transfigurado, apresentava agora uma expressão de escárnio. Não, não aquilo. Ele não poderia ser. Com meu débil andar, acabei tropeçando em alguma saliência qualquer e desabei de costas sobre o chão, ainda atônito com a virada dos acontecimentos. As múmias pararam sobre mim de maneira semelhante a como haviam feito antes. A pessoa que aproximou-se era de tal modo diferente da de poucos instantes atrás que julguei que tivesse enlouquecido. Sua expressão ainda era altiva, porém mórbida, atroz. A expressão de um necromante. Num instante, compreendi; tratava-se de um paladino corrompido.
— Matteo Valorcrest. — Disse ele meu nome, em voz apática. — Quem diria, um necromante amador. — A troça irritou-me.
— Gostou de minha performance? — Continuou, provavelmente referindo-se à peça que encenara a todo momento na campina.
— É pior do que eu. — Eu disse-lhe. — É um herege da pior espécie, um vira casacas. Um homem de poderes sacros, que no entanto se utiliza de necromancia. Você insulta e cospe na face de todos os deuses com sua mera existência.
Ele limitou-se a rir zombeteiramente. As múmias assomavam sobre mim, e eu soube imediatamente que aquela seria minha última visão. Quando o machado desceu, quase pude vislumbrar a mão, a enorme mão, putrefata e mais negra que a escuridão de uma caverna, fechando-se sobre mim, sufocando-me. A lâmina cega encontrou meu pescoço, sem a força suficiente para me matar. Meu sangue espirrou para todos os lados, encharcando as bandagens de meus carrascos. A dor estava além de qualquer descrição.
A mão tornou-se mais clara. Quando o machado novamente caiu, ela envolveu-me de fato, gelada e hostil como uma nevasca. Levava minha alma, para eternamente repousar nas profundezas negras, onde ela, e aquele à quem pertencia, reinavam.