Elfos ao Caos
Eras atrás, nos primórdios de Tibia, antes mesmo de Banor e a raça humana serem criados, uma grande guerra pela sobrevivência devastou o mundo.
Assim que os deuses descobriram sua capacidade de criar vida, uma batalha pela supremacia das raças iniciou e se espelhou por todos os confins do ainda jovem Tibia. As divindades, motivadas pelos seus princípios e características, exploravam ao máximo suas habilidades criativas recém-descobertas. Raças dos mais variados tipos eram criadas a cada momento.
Foi dessa maneira que a disputa entre os deuses pelo poder e supremacia tomou um novo rumo na história.
As divindades já não lutavam entre si diretamente. Suas criações é que passaram a batalhar pelos princípios dos seus criadores, buscando assim dominar a tudo que existia, cada uma ao seu modo.
As criaturas vivas que habitavam as terras tornaram-se inconscientemente pequenas peças de um jogo de poder.
As criações dos deuses Crunor, Nornur, Batesh, Fardos e Uman buscavam seu espaço no imenso mundo, mas eram as criaturas de Brog, filho de Zathroth, O Destruidor que dominavam a superfície.
Os orcs, sua principal criação, comandavam o mundo de norte a sul e as criações dos filhos de Fardos e Uman não conseguiam conter a maré de destruição e caos causada pela investida deles.
Nesse período muitas raças surgiram e desapareceram sem deixar descendentes. Rios de sangue se viam por todos os lados, pilhas de corpos amontoados preenchiam aquele cenário atormentador.
Brog conduziu seus filhos sobre todos os seres vivos mais frágeis e assim postava-se como o criador supremo, dizimando tudo que pudesse impedir seu avanço.
Com o tempo, os dragões, que também surgiram de Brog, começaram a exigir o devido reconhecimento como a raça suprema. Garsharak, o primeiro e mais forte cuspidor de fogo, reuniu aliados e devastou grande parte dos exércitos órquicos e seus aliados ciclopes e trolls.
Batalha após batalha, a contagem de mortos aumentava exponencialmente, o solo coberto por corpos aterrorizava os deuses bondosos.
Fardos e Uman cessaram suas criações e planejaram criar um novo deus para cuidar dos mortos, porém Zathroth com toda a sua maldade corrompeu o plano e deu origem a Urgith, O Mestre dos Mortos-Vivos. O novo deus reviveu todos os falecidos e os transformou em criaturas sem vontade própria que se alimentavam de toda a vida de Tibia.
Já não bastasse toda a destruição causada pelos dragões e orcs, mais uma raça passou a sugar as forças da mãe-terra e ameaçar tudo que era belo e bom.
Vendo que tudo que criaram estava sendo consumido pela fome dos mortos-vivos de Urgith, os deuses Fardos e Uman, resolveram mais uma vez criar raças capazes de combater frente a frente com as tropas do mal.
Só que dessa vez seria diferente. As novas criaturas teriam consciência de sua existência e também livre arbítrio para defender seus propósitos.
O Criador e O Sábio tinham esperança deque assim haveria uma chance de que a Era do Caos acabasse e a harmonia voltasse ao mundo.
Unindo esforços inimagináveis até mesmo para um deus, deram vida aos pais daquelas que hoje chamamos de Raças Anciãs.
Uma dessas raças foi a dos elfos. Seres altos, de orelhas pontudas, cabelos longos, em sua maioria loiros, magros e frágeis comparados com orcs. Alimentavam-se do que a natureza os disponibilizava, por isso tinham grande respeito pela flora tibiana. Viviam em comunidades a beira de rios e perto de árvores sagradas.
Uma dessas comunidades vivia nas planícies do norte e lá levava uma vida comum e simples, cultuando a natureza, cultivando macieiras e cereais. Um grupo ainda intocado pela guerra.
Acontece que a devastação causada pelo caos estava cada vez mais perto.
Numa certa tarde quarenta elfos estavam sentados em volta de uma grande árvore cultuando o deus Crunor e agradecendo pela fertilidade da terra.
— Agradecemos a ti, generoso Crunor, por proporcionar-nos aquilo que nos é necessário na medida certa. — Dizia Lydae, Lobo Branco no idioma élfico antigo, um jovem elfo de cabelos brancos, enquanto levava um cesto com maçãs de róseas cores até o altar.
Todos os outros elfos se levantaram e fizeram uma fila atrás dele, carregando oferendas ao deus Crunor.
Flores, pedras preciosas, frutas dos mais variados tipos eram dispostas em torno de uma grande pedra azulada, acomodada no centro do altar. Com inscrições reluzentes gravadas como que por obra divina, aquele ornamento representava a Semente Criadora plantada por Crunor.
Distraídos com as oferendas, os elfos não percebem quando um grupo com cinco esqueletos e dois fantasmas saiu detrás dos arbustos e atacou os devotos em seu sagrado local.
Mesmo estando sem armas os elfos venceram sumonando lobos e arremessando bolas de energia, nunca viram nenhuma criatura daquelas tão perto de seu refúgio. Assustado Lydae correu para o centro da comunidade a fim de alertar a todos sobre o ocorrido.
— Throlian! Venha comigo, fomos atacados por uns seres estranhos. — Disse Lydae puxando o velho pela mão.
Lydae sempre fora o mais aventureiro dentre a nova geração. Desde pequeno escalava as árvores mais altas. Nadava na parte mais profunda do rio. Deixava sua pobre mãe de cabelos em pé com suas peripécias constantes. Mesmo já adulto, tinha mais energia que qualquer outro. Os demais elfos comentavam que era mais raro vê-lo sentado descansando do que encontrar uma gema púrpura.
—Acalme-se pequeno Lydae, já não tenho tanto vigor pra correr apressado por aí. — Disse Throlian seguindo lentamente.
Depois de uns poucos minutos de caminhada os dois chegaram onde o ataque havia acontecido.
— Sábio Mestre, por favor, nos diga o que são essas coisas. — Disse um elfo de cabelos escuros e rosto enrugado, apontado para a ossada dos esqueletos.
O velho elfo se agachou perante os restos dos seres derrotados, pegou um osso na mão, olhou atentamente, levou até o nariz e cheirou-o por alguns instantes.
Apesar de tentar evitar transparecer a tensão que o afligia, o semblante de Throlian demonstrava com clareza o medo para com o inesperado.
— Pensei que esse dia nunca chegaria, por favor Lydae, me ajude aqui. — Disse Throlian tentando se levantar. — Esses são os servos de Urgith, os responsáveis pela destruição do sul. O inferno bate a nossa porta. Vamos ouvir o que os deuses têm a nos dizer. Tragam os metais sagrados e preparem o ritual.
Dois elfos correram em direção do local onde os metais sagrados estavam escondidos. Fazia anos desde que os deuses haviam falado com eles pela última vez. Todos estavam ansiosos pelas palavras dos criadores.
— Muito bem, agora se afastem. — Disse Throlian posicionando os metais calculadamente em volta dele, formando um triângulo de três lados iguais.
Throlian era o mais velho da aldeia. Lydae dizia que ele já havia nascido com trezentos e cinquenta anos. Mas a verdade era que, há muitas décadas, ele era o líder espiritual, conselheiro e Arcano Supremo da comunidade. Extremamente habilidoso com a magia e com as palavras.
Manteve todos unidos por muitos invernos castigantes.
Nem mesmo a idade avançada impedia que ele continuasse ativo nas suas atividades para com seus irmãos.
Para iniciar o ritual, o velho elfo disse algumas palavras numa língua mais antiga que a élfica, enquanto os sacerdotes entoavam os cânticos antigos. Mais de uma centena presenciou a cena.
Os metais passaram a emitir um brilho esverdeado, então um feixe de luz saiu de cada pedra indo em direção à testa de Throlian, que pairou no ar e entrou em transe.
Depois de alguns minutos de silêncio o Sábio Mestre, enquanto ainda levitava, começou a falar, com uma voz grave e rouca: — Meus amados servos, por bastante tempo estiveram em segurança nesse reduto pacífico, mas além dessas terras a morte avança em vossa direção. — Throlian falava em nome de um deus. — Eu, Fardos, peço-lhes que unam-se com as outras tribos élficas, montem uma resistência afim de enfrentar os servos de Zathroth, espalhem suas sementes por onde passarem, encham o mundo de vida, avancem sobre o caos e repovoem as terras devastadas. Essa é a minha vontade e a única chance de sobreviverem. — Ordenou o deus Fardos usando a voz do elfo.
A luz emitida pelos metais sagrados foi suspensa e Throlian caiu desacordado no chão.
Naquele tempo os deuses se manifestavam de forma mais direta, às vezes até desciam ao Tibia e lutavam ombro a ombro com seus súditos.
Na manhã seguinte, partiram todos que estavam aptos a seguir as ordens do deus Fardos.
A chuva maltratou o ambiente com ventos exaltados. Ela caía desgovernada sobre toda a extensão da floresta e dos campos além dela, acompanhando eles até que chegassem à Terra Desolada. Muito além de seu refugio, aquele solo negro misturado com a água vinda do céu se transformou num emaranhado de lama pegajosa e infectante.
Naquele local inóspito uma sensação de medo passou por todo o grupo, alguns tinham até uma impressão de estarem sendo espionados.
Throlian e Lydae seguiam a frente do grupo, conversando sobre o ocorrido no altar de Crunor, quando avistaram uma fumaça enegrecida subindo os céus ao horizonte atrás de uma montanha, na direção da colônia élfica que buscavam encontrar.
O grupo seguiu com passos rápidos em direção a fumaça.
— Tem certeza que é uma boa idéia irmos até lá? — Perguntou Lydae a Throlian.
— Não saberemos o que iremos encontrar se não formos até lá. — Respondeu Throlian.
Lydae silenciou e seguiu calado acompanhado Throlian.
Depois de horas caminhando eles avistaram um acampamento. Por todo lado havia corpos de elfos menores e mais robustos, e também ossadas de esqueletos e restos de fantasmas. O fogo que consumiu aquele lugar já havia se apagado e nenhuma alma viva parecia habitar aquela vila.
— Fiquem atentos e não façam muito barulho. — Disse Lydae conduzindo o grupo para o meio do acampamento. — Vamos sair daqui, espero que a tribo de Aelrad tenha tido mais sorte.
Os barulhos ouvidos indicaram que eles não estavam sozinhos ali. Cercados por todos os lados os elfos perceberam que haviam caído em uma armadilha. Não restava outra escolha a não ser lutar.
Os servos de Urgith partiram na direção dos elfos a fim de acabar com mais uma ameaça ao domínio do caos. A comitiva élfica empunhou suas adagas e seus arcos.
Um esqueleto avançou contra Lydae, que desviou girando o corpo e chutando as costelas do esqueleto, que caiu ao chão e se despedaçou.
Rajadas de flechas foram disparadas dos arcos élficos, a maioria passava por entre os ossos das criaturas de Urgith sem causar efeito.
— Teremos que partir para o corpo a corpo. — Gritou um elfo de cabelos curtos e encaracolados atacando um esqueleto com a haste de madeira do arco.
Os outros seguiram o exemplo, despedaçando os esqueletos que não paravam de surgir.
De repente uma grande foice foi vista atrás dos esqueletos, estes se abaixaram para a sua passagem. Avançou uma figura maligna coberta por trapos. Aquele era o ceifador. Ele ergueu sua foice e atacou os elfos com muita velocidade partindo alguns ao meio.
Lydae ficou apavorado com a força daquela criatura e atirou inúmeras flechas contra ela. O ceifador, por sua vez, não era muito afetado e avançou contra Throlian que fugia aos tropeços até que se atrapalhou com os próprios pés velhos e caiu. A criatura seguia avançando, Throlian começou a pronunciar algumas palavras em uma língua estranha.
O ceifador ergueu sua foice e golpeou. Throlian gritou de dor. Sua perna esquerda fora cortada na altura dos joelhos. Numa segunda tentativa o ceifador acertou o ombro direito do velho elfo.
Onde estava seu deus agora, pensava ele enquanto tentava finalizar a conjuração.
Agonizando de dor Throlian terminou de pronunciar todas as palavras, suas mãos começaram a faiscar e então uma grande rajada de energia foi disparada em direção ao ceifador. Todos ficaram imobilizados esperando o resultado daquela magia desesperada.
Lydae correu em direção ao Sábio Mestre disparando flechas duplas contra os esqueletos que apareciam em seu caminho. As suturas feitas com folhas e ramos ungidos em licor de carvalho não foram suficientes para estancar os sangramentos.
O ceifador caído após o ataque foi estraçalhado por nove lâminas élficas que concluíram o trabalho.
O restante dos esqueletos foi facilmente abatido.
Após o embate, Lydae e o resto que sobrou do grupo élfico cavaram ali mesmo dezenas de sepulturas para os mortos em batalha, uma especial para Throlian que se sacrificou para protegê-los. Em sua lápide o epitáfio dizia:
“Morto... serei árvore,
serei tronco, serei fronde
Vida que nunca expira
Minhas raízes enlaçadas
às pedras de meu berço
serão as cordas de uma lira”
Ao fim das preces, começaram a ponderar sobre o injusto pedido feito por Fardos.
— Devemos voltar para onde viemos, esta guerra não é nossa, e sim dos deuses, todos nós vivíamos em harmonia e felicidade até que eles interferiram em nossa vida. — Disse Lydae para o resto do grupo. – Eles nos deram a capacidade de escolher nosso próprio destino e eu escolho não mais participar dessa barbárie.
O ar frio da manhã entrava em seus pulmões, e suas mãos tremiam pelo esgotamento físico. Os olhos azuis procuravam um horizonte harmonioso, uma esperança de sobreviver.
— Que assim seja então, bravo Lobo Branco. — Disse o elfo de cabelos curtos e cacheados. — Os deuses nos enviaram a um mundo hostil e tenebroso. Mas meu coração me diz que nosso destino é em meio à fertilidade da vida.
Com algumas tábuas e cipós montaram três jangadas. Navegaram o rio que escoava pelo vale a fim de encontrar melhor sorte longe daquelas terras. Tudo que se via além das margens era cinza e negro até que chegassem aos limites da Floresta Intocada.
Dela fizeram seu novo lar. Decidiram não fazer mais parte das tramas dos deuses naqueles tempos de aflição, iriam aguardar em silêncio nas profundezas das florestas, desenvolvendo-se intelectual e magicamente, mesmo tendo perdido a maioria dos segredos mágicos com a morte de Throlian.
Somente dessa forma, fugindo dá morte que esta raça conseguiu sobreiver até os nossos dias.
Os deuses por sua vez não desistiram de criar uma criatura perfeita para combater as tropas de Urgith, todas as anteriores eram facilmente esmagadas ou tinham o mesmo destino dos elfos.
Mudar este cenário de dor e destruição foi a motivação para a criação de outra raça.
Provavelmente nós, os humanos, nunca teríamos existido se a necessidade de reconstruir o Tibia não tivesse surgido.
“A Era do Caos acabou quando nós chegamos, homens fortes, inteligentes e corajosos.”