Inferno de Sísifo
Quando acordou, os imbecis ainda estavam lá. Ainda estavam lá, zombando dele, achando que eram mais inteligentes. Achando que eram mais homens. Achando que eram mais humanos. Se vestiu e começou o dia.
Um verdadeiro show de humor, passear por aquele pátio cinzento e sem vida, com os imbecis fingindo serem mais que imbecis. Aqueles olhares de ódio. Aquele riso incontido, aquela piada segura a força por de trás da boca, todos, todos, me olhando assim. Quem eles acham que são para se sentir tão superiores a mim?
O balofo do Grazele, retardado que fica comendo o dia inteiro. Sempre come dois salgados por recreio, no mínimo, além do lanche que traz de casa. Aquela bola gorda vai explodir antes de sair da escola. Fica olhando para mim, com aquela papa nojenta se balançando, os olhinhos de porco brilhando de felicidade. Deve ter comido um café da manhã bom, aquela baleia.
Ai vem o metidinho a escritor, pseudo-socialista-amante-da-erva-e-do-cheguevara, o Eduardo, o Dudu, presidente do grêmio. Faz aquele ar de “eu sei mais que todo mundo, inclusive você” misturado com o “como eu sou inteligente e sofredor, a vida é uma merda” que conquista tanto as garotas. O imbecil pseudo-suicida, ou o pseudo-mor como eu gosto de chamá-lo, sozinho, rindo, deu um risinho zombeteiro quando eu passei, cumprimentando-o com um aceno. O que ele acha que é para não responde meu cumprimento?
Agora, abraçado com duas garotas com shorts minúsculos revelando o útero com cara de burras ao extremo e com o corpo avantajado, vejo o Tadeu-comeu, como é chamado pelos colegas pelas saco e pelas vadias do colégio. O mastodonte loiro e bombado faz um som, ininteligível para mim, talvez na língua dos babuínos. Deve ser alguma troça porque as meninas riram histericamente, me lançando olhares lascivos e idiotas. O que elas têm na cabeça, além de muita porra acumulada? Quanto ao homem cro-magnon, esse eu sei que perdeu os neurônios para as bombas que ele toma na academia. Retardado.
Odeio essa escola. Odeio ter de vir aqui todo santo dia da minha semana, odeio ter de sorrir para esses imbecis, fingindo me achar no mesmo nível deles. Odeio ter de conversar com eles. Qual é o ponto de tudo isso? Os alunos são ou babacas que se acham melhor que todo mundo, ou depressivos que continuam achando que são melhores do que eu. Balofos, bombados, depressivos. Todos nessa vidinha de merda.
Sem falar nos professores. Mentecaptos, bolsas de bosta, pensando que estão fazendo algo demais. Repetem a mesma merda todos os anos, e acham que isso é ensinar. Falam, falam, falam e não dizem nada. Presunçosos, se acham superiores ao resto dos alunos, que se acham superiores a mim. Por quê? Por que eu tenho de vir aqui, para sofrer? Isso é pior que o castigo de Sísifo!
Agora paro com minhas divagações sobre esses inúteis, porque a mal comida da vice diretora está vindo falar comigo. Gorda, branquela nojenta, que faz nada o dia inteiro, sentada na sala da diretoria. Talvez seja a mãe do balofo do Grazele, ri comigo mesmo. Devem ser. O gene da gordice com certeza estava presente em ambos. Como ela continuava me falando, com aquele sorriso besta na boca enorme, comecei a prestar atenção no que ela dizia.
- A reunião vai começar dentro de cinco minutos, Sr. Diretor.
Por Miguel Calças-Justas