Vitória
- Vitória...
Levantou novamente o copo e pôs-se a tomar mais um gole daquela bebida amarga. Em instantes sua mente estaria aliviada de seu peso pelos poderes mágicos daquela bebida. "Que ridículo..." pensou.
Mas mesmo assim, ali estava ele sentado sozinho naquele banco duro e imundo à meia-luz da chama de uma vela que estava por acabar. Tomou mais um gole, rangeu os dentes e, colocando os cotovelos sobre a mesa, pôs-se a cantarolar uma canção obscena qualquer. E a mulher não saía de seus pensamentos.
Claro, ele já deveria saber disso. O álcool já não agia mais tão rapidamente com ele, como antes. De fato, agora estava começando a demorar mais, e isso só o frustrava cada vez mais. Para tentar contornar isso, deixou-se provar mais do que o álcool tinha a oferecer. Quando deu por conta de si, seu prazer havia se transformado em vício, e nada mais importava exceto esquecer aquele rosto pálido e deixar-se entregar aos prazeres da bebida. Aos prazeres e seus terrores...
Seus amigos haviam parado de andar com ele, disseram que não era mais o Raposão que conheciam desde que colocara a primeira gota, na boca, de... "como era o nome daquilo mesmo?" Já não importava mais, tinha conhecido outras coisas mais agradáveis, ou elas tinham conhecido ele primeiro, já não sabia mais dizer. Deu uma risada.
"Conhecer? Ela não me conhecia. Ah, não conhecia."
"E nem você a ela. Senão, você não teria sofrido tanto."
"Besteira!"
Olhou para o braço esperando achar o relógio, mas ele não estava mais lá. Tinha esquecido em casa novamente. Puxou a carteira, pagou a bebida e tentou se levantar do banco. Com um impulso para frente, ele lançou seu corpo mas seus pés ficaram.
Tombou com o banco por cima dele.
O outro homem, xingando e aos berros, pôs-se a tentar colocá-lo em pé. "Não me ajude, eu sei me virar, não me pegue."
Puxou o corpo para longe das mãos do velho, e começou a rolar pelo chão, parou de costas à uma parede.
- Eu falei que não era pra tu ter misturado, Raposão, eu avisei!
"Claro, eles sempre avisaram, se tivesse escutado, ela não teria feito a pilantragem que fez com ele."
- Vá se... - E as palavras pareciam ter lhe escapado da boca. Agora tinha esquecido o dom da fala. A única voz que ouvia em sua cabeça era a do homem, nervoso à sua frente. Mas agora conseguia sentir os pés. Num súbito acesso de, o que ele não sabia dizer o que era a princípio mas depois compreendeu ser loucura, levantou e saiu correndo do recinto.
As ruas estavam escuras e nem as luzes dos altos postes de ferro parecia iluminar o caminho à sua frente. A bebida era forte, como jamais havia provado antes, mas ao contrário do que achara, no fundo se assemelhava a todas as outras.
Pegou o caminho conhecido que dobrava a rua e ia em direção ao parque. Parou três vezes, para se levantar após três tombos. Na segunda vez havia cortado a mão numa garrafa quebrada. Que ironia, uma garrafa de álcool!
Prosseguiu até chegar numa rua bem apertada, e caracteristicamente parecida com as outras da pequena cidade. Parou em frente à uma casinha de muros verdes e bem modesta. Pegou fôlego nos pulmões e berrou:
- Vit... Vitória!
Fez isso por um minuto até um vizinho abrir a janela do prédio adjacente e jogar uma lata em sua direção.
- Cala a boca, cretino! Deixa os outros dormirem em paz!
- Júlio, cadê Vitória? - mal aguentava falar.
- Saiu com o namorado.
Aquelas palavras cortaram ele como a lâmina que havia machucado a mão.
- Que hora que é?
- A hora de você criar vergonha na cara e ir dormir vagabundo! - e fechou a janela com um baque seco.
Então, ele se sentou ali mesmo na soleira da porta, sem eira nem beira, abandonado ao relento, pelos amigos, por Vitória e pela bebida.
Subitamente dera-se por conta do que estava fazendo com sua vida. Rapidamente, o pensamento foi afastado pelo álcool. Sua cabeça agora era como um saco furado, que era preenchido constantemente com a racionalidade, e na mesma hora despejada.
Olhou para o céu estrelado, e percebeu que não faltava muito para amanhecer, estava muito escuro. Pensou na ironia, e baixou a cabeça novamente. Deu-se por conta que estava com os olhos fechados, agora, sua visão interior ia do rosto de seus amigos para o copo de uísque. Alternou-se entre eles até chegar à visão de um corpo caído no bar, preso entre as pernas de madeira do banco. Era ele. A princípio não tinha reconhecido o homem em farrapos que estava de encontro ao chão. O mesmo homem que havia caído três vezes na mesma noite, pelo menos que lembrava.
Viu que o álcool sozinho não fazia aquilo. Sua mente estava se fechando como uma espécie de proteção, o que restava do seu interior. Aquele não era o Raposão que aprendera a gostar do apelido que havia lhe sido dado quando havia afanado, por brincadeira, a bola dos amigos. Seus amigos... Porque era que ele estava assim mesmo? "Ah, Vitória..."
Então uma torrente de pensamentos começou a invadir a sua cabeça ao mesmo tempo, pensou que fosse ficar louco, mas eles começaram a se ordenar, e quando abriu os olhos, se apoiou na maçaneta da porta para se pôr de pé.
De vez, sentiu a mão cortada, as costas latejando e suas pernas tremendo de dor. Saiu a passos lentos da rua. O sol começava a nascer por detrás das árvores do parque.
- Vitória não vai aparecer - disse para si mesmo.
E saiu dali, trôpego, e furioso consigo mesmo. Tão logo o efeito do álcool havia chegado, tão logo havia se esvaido. Conhecera naquela noite o que mais havia temido para si, a estupidez.
---
"Dizem que um homem não conhece os seus limites até vê-los com os próprios olhos, e somente os idiotas que ultrapassam eles por motivos fúteis, não têm histórias para contar. De fato, sou um homem sortudo..."
- Naquela manhâ, eu disse que ia parar de beber - disse ele, repousando as suas costas numa cadeira de madeira.
- E parou? - perguntou o jovem.
- Não - riu ele - mas, podemos dizer que a partir dali, eu vi isso com outros olhos... Para tudo na vida, tem o seu remédio, e o certo é cortar o mal pela raiz.
- O que você fez? - perguntou o garoto, perplexo.
Ele abriu um velho estojo de couro, e de lá de dentro tirou um caco de vidro que antes fora uma garrafa verde. Ainda era possível ler em letras azul marinho, os dizeres: Vitória.