Princesa
Era um porão escuro, empoeirado. Após os olhos estarem acostumados com a ausência de luz, os brinquedos, os caixotes velhos e os colchões no chão eram visíveis. Ali vivia Cintia; uma bela criança de cabelos dourados. Possuía traços fortes e bonitos no rosto e um corpo magro. Vivia suja, apenas tinha oportunidade de tomar banho quando seu pai trazia um balde de água quente e um sabão uma vez por semana. Ali era seu mundo, seu habitat. Apenas havia saído de seu palácio – era assim que se chamava – uma vez quando estava faminta procurando por comida, mas foi logo encontrada pelo pai, que dizia que o mundo exterior era perigoso e impuro. Após tal incidente, as refeições começaram a ser distribuídas diariamente, e com quantidade farta, para prevenir futuras fugas.
Não era triste. Pelo contrário, vivia sendo contada que tudo o que tinha era digno de rainha; brinquedos eram coisas raras fora dali. Banhos? Não havia esse luxo para pessoas fora do palácio. Ela sabia que era especial, sabia que era Princesa. Não queria sair, nunca. O mundo lá fora havia guerras, maldade, ganância, impureza. Era grata por seu pai, que a privara de toda a imundice exterior e a mantivera protegida e feliz.
A porta rangia. Cintia esperava ansiosamente pelo pai, hoje era dia de ouvir histórias e comer biscoitos. Ouvia com animação o barulho dos pés nos degraus, pronta para correr e dar um abraço.
- Papai! Trouxe o livro e os biscoitos?
- Claro, princesa.
Houve um grito animado quando a resposta foi positiva. Amava histórias, era a sua diversão favorita. As maiorias delas eram de quando o mundo ainda era puro, com duendes, elfos, fadas e unicórnios. Não conseguia controlar o riso de criança quando os personagens entravam em enrascadas, nem os olhos assustados quando os mesmos eram capturados pelos vilões. Suas preferidas eram sobre as belas princesas – todas com o nome Cintia -, seus palácios solitários e seus príncipes. Um dia perguntara a seu pai se ele era seu príncipe, e a resposta foi sim. Eram casais, felizes para sempre.
Os biscoitos acabaram, e as histórias chegaram ao fim.
- Vamos brincar da nossa brincadeira agora, querida?
Suas pernas se fecharam como reflexo.
- Não, ainda está doendo. – não gostava de decepcionar seu herói. Era o mínimo que poderia fazer, não? Era uma mera recompensa por tudo o que ele havia feito por ela. – Mas, eu posso fazer aquilo com a boca que você me ensinou, sabe? Acho que estou ficando boa.
- Acho melhor não, vamos fazer o de sempre. – e abriu o zíper. Ela já sabia o caminho, era apenas colocar a mão dentro da calça, puxar a roupa de baixo e agarrá-lo. O movimento era simples, repetitivo. O ritmo, constante, com leve aceleração, suave, até receber o sinal para parar. Era o jeito que o satisfazia, e satisfazê-lo era tudo o que ela queria. “Que mãozinha fria Cintia, vai”.
Ele a abraçava e dava leves beijos, e logo também começou a tocá-la. Antes, sentia nojo, medo. Hoje, anos depois, aprendera a gostar, sentia prazer. Quando a visita demorava muito a chegar, ela se tocava, pelo puro desejo de se satisfazer.
O toque já não era mais dor, desgosto. Era vício, prazer. Gostava e esperava ansiosa, assim como os biscoitos e histórias.