Citação:
Sob uma banqueta de plástico, destas de churrasco, um jovem contemplava, atônito, o movimento de uma cidade grande à noite. As luzes dançando, enlouquecendo-o; o barulho ensurdecedor dos carros buzinando, impacientes: fome, saudades, qualquer coisa. “E, se por um acaso, amor... Então a buzinada terá válido; agüento as pressões e as buzinas na esperança de que, quiça, alguma criatura consiga, de fato, amar.”
A cidade estava aos seus pés — literalmente. Ele estava de pé na banqueta, na sacada de um prédio qualquer do décimo quinto andar.
O vento assobiava em seus ouvidos, dizendo o que ele já sabia: tu és um fraco, covarde, fugindo da própria vida; só pelo teu pensamento, não mereces viver; joga-te agora!
E ele inspirou; naquele breve instante, seus sentidos tornaram-se, especialmente, aguçados; ele percebeu, pela primeira vez em dezessete anos, o batuque do seu coração; a inspiração do ar, outrora necessária, agora soava mais como um prazer. Os cabelos despenteados, sob uma forte rajada de vento — eis aí o tato! —; o cheio era peculiar, quase único: fedor, por assim dizer. Medo. E na sua boca, um leve gosto adocicado... Seria o da morte? Esperava ele que sim... Se não fosse, era o chocolate que degustara há algum tempo — tempo cronológico, porque já lhe pareciam longos dias desde o ovo de páscoa que sua mãe lhe dera.
Quanta coincidência, mencionar sua mãe. Seria a única que sentiria saudades; e a única a quem ele direcionava toda aquela pena que estava sentido de si mesmo. Sentir pena de si mesmo, querendo sentir pena da mãe... Quanto egocentrismo, quanto egocentrismo...
Contudo, era a verdade. Sua mãe seria a única que jamais o esqueceria. Por um instante, pensou em desistir; pensou em descer daquela banqueta e ir tomar uma água; pensou em dar uma chance a vida, já que ela não parecia dar chances a ele. Pensou, nada mais; como um fogo que tenta, debilmente, acender-se em meio à uma tempestade, transformando-se em um fiapo de fumaça.
E ele inspirou novamente, como se o ar fosse coragem; não demorou ele a descobrir que não era.
E como seria morrer? Tão bom quanto dormir? Ou até mesmo melhor? Algo como apagar, esquecer, não sentir mais nada, apenas morrer... Dormir como se não houvesse um ontem e um hoje. Era isso que ele esperava; porque, se isto não acontecesse... Não, teria de acontecer.
E quanto aos motivos? Tentou acalmar a si mesmo, tentou relembrar dos motivos claramente, tentou mostrar a si mesmo que era o que devia ser feito; agora, com o vento em seu rosto, não pareciam tão convincentes; infância ruim, humilhações, decepções, ódio? Soavam tão infantis...
“Puta que pariu agora só falta mesmo se jogar o que será que acontece quando morre será que é como dormir então deve ser bom eu adoro dormir uma das únicas paixões que eu tenho ou será tinha bom na verdade ainda não morri mas sei lá os meus amigos será que sentirão falta de mim ou eu ficarei esquecido e ainda vão rir quando me virem todo fodido lá embaixo bom não importa eu sempre fui fodido de todo o jeito na verdade eu não viveria muito mais do que isso eu sou sem braço mas os jornais quando encontrarem o meu corpo o que será que vão pensar que um retardado de 17 anos se jogou e causou um puta fusuê no trânsito e talvez eu atrase o jantar de muitas pessoas e talvez uma filha se decepcione com o pai porque hoje era a apresentação dela e alguém se jogou da porra do prédio e atrapalhou o pai dela e o pai nunca vai conseguir explicar isso e a culpa vai ser minha como se eu tivesse culpa de querer morrer e porra que merda eu não consegui ver o Metallica ao vivo nem AC/DC aliás eu nunca fui num show eu poderia ter ido só pra sentir a emoção mas eu preferi ficar em casa e ainda falei que vinha parentes na minha casa eu podia ter ficado com alguém e agora que eu to pensando nisso eu nunca comi ninguém velho e eu jurei que não morreria sem fazer isso que porra eu nunca vou saber como é meter numa mulher e sentir a adrenalina de ver ela gemendo e se contorcendo e ver o suor em seu corpo e saber que foi causado por você e por mais ninguém e agora pensando em adrenalina eu me toquei que não consegui nem descobrir por que que o mar tem ondas sempre quis perguntar isso pro meu pai mas na verdade eu nunca vi o mar e na verdade eu nunca tive um pai nem sei o que é isso e são tantas coisas que eu não tive a oportunidade de ver ou de conhecer ou de fazer minha mãe sempre disse isso cala a boca não fale do que não sabe o que será que ela sentirá quando eu morrer será que chorará por mim e acabará desistindo de viver ou vai continuar com sua vida porque ela dizia que morreria junto se eu morresse tomara que de onde eu teja vai dar pra saber se ela falava sério ou era só da boca pra fora eu não devia tar falando isso eu não quero que minha mãe morra junto comigo e agora com essa história de ver as coisas de outro lugar me lembrei de Deus será que Deus existe porque se ele existir vai ser como ir direto pro inferno porque eu num tenho o direito de me matar mas e se for o Deus do islamismo bom daí vou tar mais fodido ainda porque adorei outro Deus mas afinal o inferno não pode ser pior do que aqui na verdade o inferno é aqui e ninguém quer entender ninguém quer saber todos preferem continuar achando que só por estar vivo já é uma dádiva de Deus e eu fico puto com isso minha mãe me faz agradecer na hora de comer e é um saco ter que ficar decorando aquelas rezas que eu não entendo nada o inferno são os outros e nada mais me importa aquela menina que eu fiquei no natal será que ela se lembra de mim porra nunca cheguei a saber se eu beijo bem ou não porque só dei esse beijo e eu ficava com vergonha de pedir mais e agora me toco como era retardado eu poderia agarrar qualquer uma eu ia morrer mesmo um pouco mais cedo é verdade mas iria morrer por que cargas d’água eu to pensando nisso não era minha intenção mas nunca é a intenção de ninguém os pensamentos são idéias livres que voam e tomam o rumo que quiserem e afinal eu não sei o que é uma cigana oblíqua e dissimulada nunca estudei literatura e pensando bem eu deveria ter estudado pelo menos teria algo decente pra pensar agora e eu não quis ir eu num circo nunca conheci um palhaço e como é belo o trabalho dos palhaços e o que será que acontece se um palhaço fica triste ou será que o palhaço não pode ter sentimentos por que na verdade ele tem que alegrar e não entristecer os outros e eu acho que nunca me apaixonei tanta gente escrevendo sobre o amor e eu não vou poder nem pensar nisso direito porque nem sei o que é o amor todos dizem que morreriam por seus amores eu não morreria nem por minha mãe ou será que não acho que sim acho que eu morreria pela minha mãe é como se minha mente estivesse cuspindo em mim tudo que não fiz como se ela quisesse que eu desistisse dessa porra toda e ir comer um frango mas eu não posso a morte não pode ser pior do que a vida.”
Chega, estava decidido. Ele iria pular. Não fosse por uma voz, doce e amável, perguntando-lhe:
— Querido, o que está fazendo na sacada? Venha comer, os ovos estão prontos. Rápido, antes que esfriem!
Hesitou por um momento; era agora. Respirou fundo, preparou-se e...
— Já vou, mãe.
No dia seguinte, em um ônibus, uma conversa iniciava-se. Conversa de ônibus... Desta vez, sobre o jornal.
— Nossa! Aonde esse país vai pará, meu Deus!
— Que tragédia que deu hoje?
— Um doido intero se jogo do andar dezoito.
— Jesus, virge Maria, que Deus o tenha. Mas como que foi acontecê um troço desses?
— Num sei, só sei que o coitado tá tudo despedaçado. Dissero aqui que num sobro nem o branco do olho intero. E o pior é que num era nem home ainda, tava nos vinte.
— É né, é assim mesmo, essa juventude tá perdida...