Capítulo I - Mais uma vez tiros
Meia noite e pouca o telefone toca.
Levoux levanta discretamente de sua mesa e atende ainda mais discreto. O telefone se agitava freneticamente sobre uma mesa, a mesma que abrigava a maquina de café. Sua face manchada por olheiras e rugas se espantou de súbito ao ouvir o que alguém falava no outro lado da linha. Rapidamente, ele apanhou uma caneta e um bloquinho e anotou cada letra pronunciada pela aquela voz, que transparecia sério nervoso.
Uma gota de suor desceu pela lateral de seu rosto quando ele acabara de escrever. Ouviu ainda algumas palavras e em seguida um som de tiro. A ligação acabara de cair, assim como a gota. Pensou em ir ao local dito na ligação, mas algo o parou. Levoux olhou para seu distintivo com o emblema da policia civil da França e pensou na sua vida. Nas vontades incontroláveis, nos dias que tentava esquecer tudo que já passara. E haviam sido muitos e muitos dias.
Aquele homem de meia-idade de aparência mórbida, jamais passaria por um policial. A barriga saliente pulando das calças, impossibilitando o botão ser fechado, os olhos fundos e avermelhados, vestindo aquela camisa repleta de manchas de café. Era por esses motivos que ele ficava encarando aquele distintivo. Às vezes chegava a pensar se ele merecia aquele título. Mas logo seu ego falava mais alto e acabava por achar que merecia mais. Já havia pensado no cargo de comandante. Já era um noturno, não seria problema algum para ele passar a noite inteira na rua, coordenando e dando ordens. Afinal ele tinha uma estranha necessidade de mandar nos outros.
Outra coisa o aguçava a vontade de subir de posto, era o poder de andar sempre armado. O revolver frio, encostado na pele, dava-lhe arrepios. Ele sentia um controle sobre sua vida e sobre a vida daqueles que o rodeavam. Ele sempre teve vontade de atirar em alguém, em ver alguém entregue a sua soberania, suplicando-lhe. Chegava a ser doentio, mas por vaidade ele mesmo acreditava ser normal.
Depois do súbito tempo que analisou seu distintivo, Levoux se deu conta que não podia largar o posto. Colocando se de novo ao telefone, ele digitou o número do celular de Gavou. Esperou cerca de dois minutos e o desgraçado não atendia. “Alô?” indagou a voz do telefone.
- Gavou?! Gavou, Gavou... – repetiu exaltadamente. O outro lado da linha pareceu esperar o que aconteceria. – Gavou, sou eu Levoux! Tem uma moça que diz ter ouvido tiros na vizinhança, preciso que se vá até lá! Avenida Parkê François, cruzamento da Rimbaud com a Genebra Provincè.
- Ora essa! Por que não vai você mesmo? – a voz do outro era muito grossa e irritadiça.
Levoux ouviu-o resmungar baixinho algo que parecia ser “merda”. Ele respirou fundo e continuou:
- Eu não posso ir! Eu tenho que ficar aqui no posto! Só tem eu aqui de viva alma!
- Mas que merda.
Agora ele tinha ouvido perfeitamente.
Em seguida, ouviu-se o som de ocupado ecoando no quase vazio 32° batalhão da polícia francesa.
***
Dez e meia marcava o relógio de pulso de Demàrchilie.
Um suspiro de repente. A prostituta ao seu lado trocava de posição sobre a longa cama de motel, em seu pesado sono.
Em sua cabeça, aquele homem tentava entender aquela profissão. Como uma pessoa podia se deitar com outra, somente por dinheiro? Que tipo de pessoa suja faz isso? Transar com uma pessoa que ela não conhecia, que podia ser doente, suja e até mesmo um assassino.
Friamente ele se levantou e vestiu a jaqueta preta de couro. Tirou do bolso da calça um cigarro e colocou-se a fumar brutamente. Sentado numa poltrona ele olhou o corpo nu daquela mulher. “Gostosa” pensou. Os seios redondos com os mamilos durinhos e aquela cintura que parecia ter sido desenhada. A genitália ali exposta a seus olhos.
Demàrchilie acordou-a.
- Hei! Vamos fazer de novo.
***
Gavou jazia de pé com o revolver de prontidão. Um vulto ostentava na mira de sua arma, imóvel. Suas mãos quentes, coçando para atirar. Esperando qualquer sinal, qualquer movimento para simplesmente puxar o gatilho.
Aos seus pés uma jovem estatelada, morta. O sangue escorrendo e manchando-lhe o tênis. Devia ter sido ela quem ligou para a central, arriscando-se. E era tão bonita. Loira de cabelos lisos, curtinhos. O sensual corpo inteiramente nu. Estava com a face tão tranqüila. Diferente dá expressão de ansiedade de Gavou. Esperando e esperando, eternamente se fosse preciso. Pode parecer que era por justiça, mas não era. Esse homem queria matar por mera curiosidade, queria saber como era puxar aquele gatilho e sentir o cheiro de pólvora.
O vulto, entretanto, não demonstrava o mesmo sentimento. Estava calmo, só esperava para ver até onde a paciência daquele policial podia ir.
- Venha até – pediu Gavou. A figura permaneceu parada. – Venha agora, é o último aviso! – nada aconteceu.
O ventou soprou forte e logo um silencio tomou conta. E mais uma vez tiros.