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View Full Version : Todos os Nossos Pecados


Emanoel
06-12-2009, 20:23
Todos os Nossos Pecados

O homem de meia-idade encontrava-se sentado displicentemente na janela de um prédio residencial, sentindo a brisa acariciar sua face descolorada. A perna direita estava em contato com o carpete do apartamento e a outra balançava perigosamente do lado de fora – muitos metros acima da calçada.

Já fazia alguns minutos que segurava uma garrafa de vinho com a mão trêmula e a observava com os olhos semicerrados, como se estivesse com raiva da bebida que balançava dentro do recipiente. Cansado das lembranças que o atormentavam, grunhiu brevemente e atirou o objeto na avenida. A garrafa sumiu na noite e espatifou-se estridentemente ao encontrar o chão.

– Fez muito bem, Vitor – comentou uma voz doce e melodiosa. – Causaria um terrível mal-estar.

A garota que falara aproximava-se morosamente, envolta em mistério, trazendo um largo sorriso estampado no rosto pálido e ossudo. Enquanto observava suas pernas longas e finas desfilando hipnoticamente em sua direção, lembrou-se do dia em que se conheceram – o terrível encontro que mudou sua vida.



Ela não tocou a campainha. Quando o proprietário abriu a porta com a única intenção de levar o lixo para fora, encontrou-a em frente à residência, sob a chuva, esfregando as mãos e tremendo levemente.

– Meu Deus! – exclamou, largando os sacos de lixo no tapete de entrada.

A garota sorriu pelo canto da boca, mas permaneceu na mesma posição. Estava completamente nua e encharcada, sua pele imaculadamente branca contrastava com os cabelos lisos e escuros que desciam até seus ombros.

– Convide-me para entrar – pediu, enquanto caminhava em direção a porta.

– Entre, entre – disse o homem, ao mesmo tempo em que a puxava.

O interior do aposento era iluminado por um antigo candelabro de seis braços, preso ao teto por uma grossa corrente prateada. No centro da sala, ocupando grande parte do espaço, encontrava-se uma mesa redonda de madeira escura e quatro cadeiras feitas do mesmo material.

A menina foi conduzida até uma das cadeiras – molhando o assoalho durante o percurso –, mas não sentou. O dono da casa resmungou qualquer coisa, ausentou-se durante alguns segundos e retornou trazendo uma toalha azul e uma camisa social listrada.

– Qual é o seu nome? Onde estão seus pais? – perguntou, enquanto a enxugava dos pés à cabeça.

– Lílian. Mortos.

Ele estava tão preocupado em vesti-la que não reparou a rigidez de sua voz ou a forma agressiva como seus olhos castanhos claros o fitavam.

– O que aconteceu? Onde você mora? – prosseguiu com o interrogatório.

– Tire as mãos de mim, seu pedófilo desgraçado – murmurou a garota.

O homem recuou alguns passos, coçando o cavanhaque mal feito e tentando compreender o motivo da acusação. Ela não demorou a desfilar em sua direção com um sorriso perverso.

– Você me acha atraente? – perguntou em tom libidinoso, fazendo menção de desabotoar a camisa que lhe cobria até os joelhos.

– Deus! Você é uma criança... eu tenho filhos... – protestou o homem, verdadeiramente estupefato.

– E eu tenho 286 anos – interpelou com certo desprezo na voz.

Ela saltou sobre o seu interlocutor, derrubando-o facilmente. Enquanto segurava os braços da vítima, seus dentes caninos projetaram-se ameaçadoramente para fora.

– Você acredita em Deus? – sua voz soava pesada. – Comece a rezar – intimou.

O homem tentou levantar, mas aquele corpo aparentemente frágil e delicado exercia forte pressão sobre seu tórax. Estavam a pouquíssimos centímetros de distância, porém seu nervosismo impediu que percebesse um detalhe assustador: ela não respirava.

– REZE! – ordenou a garota, que agora portava aparência animalesca.

Iniciou uma oração ensaiada durante a infância em colégio católico. O desespero falou mais alto, acabou atropelando as próprias palavras e chorando convulsivamente enquanto gritava por socorro.

– Você é patético – sussurrou em seu ouvido.

Lílian ignorou os brados da vítima, mordeu seu pescoço com os dentes afiados e deliciou-se com o sangue que escorria das perfurações. Os últimos sons que ele ouviu, pouco antes de desmaiar, foram os baques surdos de suas pernas debatendo-se no assoalho.



Vitor retornou do breve devaneio e, instintivamente, coçou a região onde fora mordido. Tentando ignorar a presença da garota, fingiu estar interessado por um carro que cruzava a longa e escura avenida. Alguns segundos depois, projetou seu corpo para frente, deixando claro qual era o seu desejo.

– Você morreria na queda – afirmou Lílian, agora muito próxima, também observando a cidade adormecida pela janela.

– Novamente? – resmungou. – Tudo que quero é me livrar dessa maldição...

Lílian riu. É o que costumava fazer para afogar seus problemas ou desprezar os infortúnios alheios, independente da gravidade da situação.

– O que fiz para merecer isso? – perguntou o homem, sem conseguir conter as lágrimas de sangue que vertiam dos olhos e manchavam seu rosto macilento.

– Você não cansa dessa pergunta?

Vitor pigarreou e ficou pensativo durante alguns segundos. Logo depois, mirando o teto iluminado por lâmpadas fluorescentes, desatou a falar:

– Eu passei muitos anos te culpando. No momento, só consigo pensar que, de alguma maneira estranha, o rumo que tomei em minha vida me levou até os seus braços... essa nossa condição... seria algum tipo de castigo imputado à humanidade? – perguntou, aparentemente para si mesmo, enquanto torcia as mãos raivosamente.

– Pois a culpa é minha. Foi minha decisão egoísta – respondeu Lílian, incomumente séria. – Arrependo-me profundamente, pois só me trouxe desgraças – completou, deixando escapar um sorriso contraditório.

Vitor finalmente a fitou. Apesar dela não demonstrar remorso, o olhar do homem era condescendente, como se a estivesse desculpando pelos anos de sofrimento.

– Você é uma boa pessoa. Todos os seus pecados serão perdoados – afirmou a garota com o sarcasmo habitual, ao perceber a intenção daquele olhar complacente.

O homem levantou e enxugou o rosto com as mangas da camisa.

– Todos os nossos pecados serão perdoados – recitou, sorrindo melancolicamente.

Em consenso silencioso, deixaram o apartamento. Não trocaram olhares ou palavras, apenas caminharam pelo corredor deserto e mal iluminado, desceram as escadas em direção ao térreo, atravessaram o saguão de entrada e saíram rua afora.

Após alguns passos pela calçada, avistaram a garrafa de vinho espatifada. A substância escura e proibida – que manchava o chão – acentuou o apetite íntimo e imoral de Lílian e Vitor; naquele momento, ambos tiveram certeza de que nunca conseguiriam controlar seus instintos. A noite só possuía uma cor: vermelho sangue.

Finalista do Concurso de Roleplay Telling 2009.

Drasty
07-12-2009, 10:11
Como já comentei anteriormente eu gostei da história.Você soube caminhar bem com as personagens e desenvolver uma simbologia bem interessante (em algumas passagens). O vocabulário foi bem escolhido e encaixou bem com o tema/ambiente.

O único problema, se é que isso é um, foi o do conto não nós levar a nenhuma reflexão. Isso não tira a qualidade da história de forma alguma... Continuo achando que ela tinha potencial para vencer o concurso.

O Bardo Sortudo
07-12-2009, 10:39
Como você já sabe, eu gostei bastante da história. Foi bem articulada, bem ambientada e os diálogos foram muito bons.
Bom conto.

Emanoel
07-12-2009, 18:40
O único problema, se é que isso é um, foi o do conto não nós levar a nenhuma reflexão.

Sempre me lembro do anime Kino's Journey quando falam sobre a reflexão através da arte, por ser bem marcante e impressionar com um roteiro simples. Nessa história, praticamente todos os episódios te deixam extasiado, perdido em questões poderosas.

Eu acredito que existe uma mensagem em qualquer texto, nem que seja "o que o autor estava pensando enquanto escrevia essas palavras". Não me lembro de ter escrito nada didático, lição de moral sem pontas soltas, do tipo "ei, eu estou te contando uma história aqui", ou que termine com algum detalhe que enfatize um "pense sobre isso". Talvez nenhum dos meus contos tenham "essa" reflexão, mas discordo que inexista material para pensar e discutir.


Lembro-me de ter escrito o título sem ter ideia do tema e com vontade de fazer algo legal, mas sem muitos compromissos. Acabei desenvolvendo uma série de acontecimentos e, hoje em dia, imagino esse texto como uma cena de dez minutos com violência gráfica acentuada e longos espaços de silêncio entre as falas.

Talvez seja uma reflexão mais "Park Chan-Wook" do que "Wong Kar-Wai". Talvez eu só esteja enrolando para dar credibilidade ao conto...

É, deve ser isso. :P

Como você já sabe, eu gostei bastante da história. Foi bem articulada, bem ambientada e os diálogos foram muito bons.
Bom conto.

É um prazer para (quase) todo autor ler um comentário do tipo.



Para retribuir os elogios, faço um mais rasgado: fiquei muito satisfeito em perder para os senhores no concurso. Isso é, se os seus contos são realmente seus contos. :)

Pernalonga
07-12-2009, 21:12
Gostaria de fazer um comentário bom, mas meus comentários nunca fazem jus com que eu quero dizer.

Gostei do seu texto, mesmo. A única coisa que eu achei um pouco, vamos dizer, não atrativa, são os vampiros.
Sei lá, acho que por ver tanto e ouvir tanto sobre, qualquer coisa torna-se comum, mesmo não tendo, como foi o caso, um excesso de usual.
Mas eu gostei do seu conto, mesmo tendo esse pequeno problema. É claro que tenho que ser sincero, não tive a mesma reação ao ler seu texto como tive ao ler "Um jogo de Poker", mas a história cumpriu o que era para se cumprir: Ficou bem ambientada, ficou com diálogos reais, com ações e atitudes dos personagens excelentes e, é claro, bem escrita. Parabens!


E ah! Se os dois ultimos parágrafos fossem um pouco mais devagar, teria ficado... Deixa eu ver a palavra... Magico!
ahuahuahuahuaha
:)

Ldm
07-12-2009, 21:24
Bah, já deves saber que não gostei muito da sua história. Esperava mais de você.

De fato, foi bem escrito. Mas o enredo não me agradou, tampouco os personagens. Talvez por tratar-se desses seres tão fantásticos denominados vampiros.

Seria isso. Perdão pela escassez das palavras, só não queria passar em branco mesmo.

Wu Cheng
08-12-2009, 00:25
Cópia da resenha no tópico do concurso, com alguns comentários extras:

De início, pensei que a branca e esguia menina fosse a visita da morte, cobrando os pecados do título.

Histórias de vampiros não são minhas preferidas, pelo menos não as atuais. A tradicional de Bram Stoker é legal e o filme do Coppola também.

De qualquer modo, gostei do clima de sonho do conto, principalmente pela reação do protagonista, que encontra uma menina nua e encharcada em sua porta e a convida para entrar!

Depois desta parte achei que o conto iria para o lado do realismo fantástico do Garcia Marquez, onde as coisas mais extravagantes para o leitor acontecem com a maior naturalidade para os personagens.

Acho que por essa expectativa frustrada que votei em seu conto para o terceiro lugar.

Relendo agora com mais calma vi que foi uma impressão exagerada minha... Opinar sobre 10 contos de uma vez anestesia a percepção de qualquer um.

AcidLysergic
11-12-2009, 12:21
Gostei.
Tem mais?
pode ser por pm.

Emanoel
11-12-2009, 15:38
Eu também não sou fã de vampiros, mas essas criaturas possuem certas características que rendem histórias incríveis; mais do que a elegância dos movimentos, vida noturna, alimentação peculiar ou qualquer outra coisa que faz do vampiro um vampiro, interesso-me pelo fato de não envelhecerem.

Pensando bem, Dorian Gray, um dos meus personagens favoritos, tem muito de vampiro. O famoso Wolverine também possui suas características em comum; incrível capacidade de regeneração, grande força física e a mesma aparência de sempre.

Os verdadeiros admiradores das lendas e romances clássicos estão em número diminuto, mas vários, assim como eu, ficam encantados com algumas dessas habilidades.

Gostei.
Tem mais?
pode ser por pm.

É só isso, apenas um conto.

Caso esteja interessado, também escrevi a história O Arauto do Expurgo (http://forums.tibiabr.com/showthread.php?t=191934) e os contos Olhos de Faroeste (http://forums.tibiabr.com/showthread.php?t=328613) e Simpatia pela Tempestade (http://forums.tibiabr.com/showthread.php?t=354557).



Agradeço a todos pelos comentários sinceros.

Manteiga
11-12-2009, 16:33
O que dizer? Gostei muito desse texto, muito mesmo. Enquanto eu votava no concurso, tive sérios problemas para decidir entre este e Vertigo para por em primeiro.

Foi uma leitura muito agradável de se fazer. Pode parecer impróprio falar isso considerando a temática sombria, mas eu achei isso. Eu partircularmente gosto de narrações sobre a noite e seus elementos, e com Todos os Nossos Pecados não poderia ser diferente. O modo como as coisas foram narradas, como os personagens foram apresentados... Foi um texto que me fez refletir, excepcionalmente. Não para buscar uma lição de vida, mas sim para encontrar o real significado de tudo.

Foi um conto que tenho certeza que valeu a pena ler.

Manteiga.

Steve B
11-12-2009, 16:54
É um bom conto, mas faltou algo.

Foi muito bem escrito, e isso é inegável. Mas sei lá. Achei os diálogos e a situação bem previsíveis. E, quando se tem essa previsibilidade, a gente sente falta de algo. Acho que se tivesse essa tal reflexão citada pelo Drasty, compensaria.

Talvez essa previsibilidade que eu senti tenha sido pelos vampiros, como também já falaram. Esse é um tema saturado.

Falous.