View Full Version : A Cadeira de Cristal
Manteiga
25-06-2009, 20:12
Não que fosse demorar muito para meu retorno pra essas terras misteriosas e profundas, certo? Só espero ser um retorno triunfal, e não um erro lamentável.
Vejamos... Faz algum tempo eu venho trabalhando em uma longa história de um futuro alternativo para as terras conhecidas por nós mortais como Tibia (como se você, leitor, esperasse algo diferente de mim). Este devaneio sem sentido que começou como a história de uma nova cidade surgindo em meio a uma guerra transformou-se numa trama obscura recheada com mistérios, sociedades antigas, raças misteriosas e descobertas que ninguém nunca fez nem imaginou fazer. "A Espinha" se transformou numa grande árvore, da qual hoje vejo brotarem as sementes de "A Cadeira de Cristal".
Pra terminar essa especulação boba, como eu disse, a trama é longa. Naturalmente, dividi-a em mais partes, que seriam postadas em tópicos diferentes no futuro (continuações). Mas não vamos contar com o dinheiro não recebido! Não quero empurrar linhas e linhas odiadas aqui. Escrever eu vou até a fonte secar. Postar eu vou até vocês falarem chega. Se houver boa recepção, se eu terminar, se vocês quiserem... Posso continuar. Veremos onde esse caminho vai terminar.
E vai ser um bom hobby.
Vou começar com o prólogo, que ficou mais explicativo. Não é bem uma introdução à história, mas aos acontecimentos que levaram aos acontecimentos narrados no próximo capítulo. Deu pra entender, não deu?
http://img40.imageshack.us/img40/2301/yoer1.png
Trecho de certo verso...
[...] Essa sombra
Em cinco partes dividirá a terra
E a cada uma delas atribuirá um servo
Um lorde para representar os antigos saberes
Que descansam sob a terra
Outro para representar a morte
Que no fim é tudo que idolatramos
Mais um lorde para representar as pragas
E um rei para representar tudo aquilo que não existe
E que não pode ser tocado
Por fim um rei
Para representar todos aqueles que dominam os espíritos
E um rei para a todos eles governar [...]
(Ígnia, versos II e III
Achado nas ruínas de Saberon,
perdida no fundo de Darashia)
Índice
Prólogo - Neste Post
Livro Um
Capítulo Um - Raven (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4638699&postcount=2)
Capítulo Dois - Destino em Dúvida (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4671774&postcount=14)
Capítulo Três - Crainte (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4722412&postcount=23)
Capítulo Quatro - Em Direção do Amanhã (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4733989&postcount=32)
Capítulo Cinco - A Face Nua (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4756174&postcount=43)
Capítulo Seis - Ab'Dendriel (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4808499&postcount=49)
Capítulo Sete - Atormentação (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4825470&postcount=53)
Capítulo Oito - Você tem medo de escuro? (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4923453&postcount=57)
Livro Dois
Capítulo Nove - Ensaio sobre o Pentágono de Yöer (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4936916&postcount=62)
Capítulo Dez - Medidas Emergenciais (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=4967609&postcount=70)
Capítulo Onze - A Missão de Zoroast (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=5076301&postcount=73)
Capítulo Doze - Apollo (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=5147004&postcount=78)
Capítulo Treze - Um Capricho dos Deuses (http://forums.tibiabr.com/showpost.php?p=5353448&postcount=82)
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Prólogo
O escudo era feito de um material misterioso, coisa que Angela nunca havia visto na vida. Tinha a forma de uma gota de ponta cabeça com um pentágono incrustado com uma esmeralda gigantesca em alto relevo ocupando quase toda a sua área. Tinha uma cor dourada meio prateada perturbadora, deixando-o com um ar de relíquia antiga. Mas nada era preciso se dizer sobre o porquê dele estar largado no resto de grama daquele ponto do Pântano da Garra Verde. Angela sabia perfeitamente como o utensílio fora parar ali.
Começara alguns meses antes, quando o rei Tibianus III de Thais apareceu morto, pendurado num dos postes de iluminação da cidade que regia, a capital do Tibia. Depois disso os governantes da grande maioria das cidades do mundo – salvavam-se o de Ab’Dendriel, a cidade élfica e das cidades humanas de Venore e Carlin – haviam sido assassinados um atrás do outro. O resultado foi que, semanas depois que o último deles morreu, surgiu um grupo que se denominava Pentágono de Yöer. Era formado por cinco seres que decididamente não eram humanos, nem nada que Angela já havia ouvido falar. Dividiram o mapa do mundo em cinco porções e cada um deveria assumir uma. Felizmente, apenas uma dessas porções fora dominada. Mas era questão de tempo.
O primeiro membro do Pentágono, Konar, era o responsável por governar a porção sul do continente principal, que tinha como capital Thais. E ele o fazia. Os outros quatro tentavam conquistar cada um a porção que lhes foi determinada. E tudo ia muito bem. Até que a outra cidade da porção de Konar, a bela e exótica Venore, cidade dos pântanos do sudeste, resolveu se revoltar ao regime cruel. Ninguém nunca conseguiu provar que o Pentágono era o responsável pelos assassinatos dos reis e rainhas das cidades, mas os venorianos tinham essa certeza. Começou uma guerrilha intensa que durou dois meses inteiros, até que os exércitos rebeldes perderam e se recolheram aos pântanos. Desde então, toda e qualquer forma de revolta era controlada com extrema violência. Porque ninguém sabia. Mas o Pentágono queria o mundo nas mãos.
E agora todos os acontecimentos mundiais haviam caído sobre as mãos de Angela. Ela havia saído a pouco de Venore, em direção ao norte, ao pântano. Fora a cidade para comprar ervas para suas poções – era feiticeira. E agora que regressara, encontrou sua casa erguida sobre o lamaçal completamente destruída. Sua colega de moradia, a bruxa Wyda, estava jogada sobre alguns restos de tijolos e madeira, desacordada. Um corte horizontal jazia em seu pescoço, e um líquido vermelho e viscoso escorria dele. Um arrepio percorreu a espinha de Angela quando ela se afastou, incrédula, alguns passos da cena aterradora. Chamas de uma incomum cor violeta consumiam o que uma vez fora seu lar. Seus móveis, suas pesquisas, suas poções, seus livros. Sua vida. Tudo se perdia nas trevas.
Sentou-se em uma pedra e baixou os olhos ao chão, deixando as lágrimas rolarem. E foi aí que viu o escudo. Símbolo maior do Pentágono. Era óbvio então quem havia feito tudo aquilo. Mas por quê? A razão ainda era demasiadamente nebulosa. Mas de fato ela devia existir.
Sua única certeza era uma. Venore será atacada logo. E ela nem precisava de sua bola de cristal para deduzir isso.
--
Nota: "Yöer" lê-se como "Ioêr"
Veremos até onde vamos.
Manteiga.
Manteiga
28-06-2009, 12:48
Vamos aos trabalhos!
Capítulo Um
Raven
Wyda está morta. A verdade cruel e completamente indigesta rodopiava pela mente de Angela enquanto ela encarava o corpo inerte da companheira. Mesmo naquele estado, sua face já velha transmitia uma paz inabalável, uma plenitude a ser invejada até na hora da morte. O único consolo naquela situação, se é que poderia haver um, era que ela morrera em paz.
Angela não devia nada à Wyda. Não fora ela que a acolhera, que a ensinara, que a educara com os princípios éticos ou a protegera. Wyda simplesmente fora a única pessoa em anos que Angela encontrara para conversar e debater idéias sobre magia, assunto em que ambas eram peritas. Viveram por muito tempo isoladas no pântano, longe das demais bruxas cruéis e seguidoras de magia negra que viviam ao norte. Liam e debatiam todos os dias, compartilhavam ervas e poções, mas sem nunca ultrapassar a linha tortuosa e pessoal chamada de passado. De fato, Angela conseguia ver perfeitamente que nunca conhecera o âmago de Wyda.
Mas isso não importava mais. Toda uma nova era construída no pântano fora perdida para sempre. A casa ia se consumindo no fogo mais estranho que ela já vira – fruto de magia negra, com certeza – e sua melhor amiga estava morta. Não tinha mais onde morar ou a quem recorrer: O Pentágono caçara e matara todos os magos amigos de Angela, provavelmente por acreditar que feiticeiros pudessem representar problemas. E eles não sabem como.
Ela nunca tivera problemas com Yöer. Não gostava nem desgostava da situação. Contanto que pudesse continuar a fazer suas poções e suas pesquisas, não importava o que acontecesse ao mundo exterior. Seu mundo particular era sua vida mágica. Mas a partir daquele instante, a situação virara de ponta cabeça. Destruíram minha casa. Mataram Wyda. Arruinaram minha vida. Mas por quê? Talvez achassem que ela fosse uma ameaça. Talvez tivessem se enganado. Talvez tenha sido um ato inconseqüente. Mas já não importava mais o porquê. Importava que estava feito, e precisava ser retribuído. E na mesma moeda.
Angela suspirou. Levou anos para aprender a controlar as emoções e não era agora que deixaria o mais sujo de todos os sentimentos – o ódio – tomar conta de seu corpo. Fechou os olhos e buscou um ponto de fuga em sua mente. Encontrou-o no verdadeiro único consolo que possuía: seja lá quem tivesse feito aquilo, não encontrara suas pesquisas e poções mais ocultas. Quando sentiu o corpo relaxar e os ânimos melhorarem, abriu os olhos. Procurou evitar pensar no passado. Tinha que garantir o futuro. Não sabia exatamente o que fazer, não tinha idéia de como estava a situação do lado de fora do pântano. Mas sabia perfeitamente que o Pentágono estava chegando, e que se isso de fato ocorresse, ela não conseguiria se segurar.
Atravessou o pequeno pátio de grama morta localizado no meio de poças e mais poças de um pântano venenoso e fétido, saindo do meio de algumas plantas retorcidas para chegar aos pés dos restos fumegantes da casa. Ela fora construída sobre vigas resistentes, ficando suspensa sobre todo o lugar. As vigas haviam sido quebradas, aparentemente com extrema facilidade, derrubando toda a edificação. Nesse instante Wyda devia ter saído para fugir, mas fora pega e morta. Depois, o assassino usou magia para atear fogo nos restos e foi embora. Se havia encontrado o que procurava ou não, não importava.
Chegou logo aos pés do que uma vez fora sua casa e moveu algumas toras e pilhas de tijolos. Logo encontrou o que buscava: um simples bueiro. Ficava bem perto de algumas plantas – já carbonizadas – e por isso era quase impossível encontra-lo se você ainda não o tivesse visto antes. Angela tirou a tampa e tateou às cegas, buscando um pequeno item comprido de prata com uma safira incrustada na ponta achatada. Com a chave em mãos, voltou ao ponto de partida e cavou com as mãos, sujando suas unhas pintadas de preto com a terra do seu lar. Logo encontrou uma grandiosa plataforma de ferro com uma única fechadura mínima.
Enfiou a chave lá e rapidamente destrancou a entrada. Ergueu a tampa com facilidade – era muito mais leve do que aparentava – e viu-se diante da longa escada de mármore que descia em espiral rumo ao desconhecido. Adentrou rapidamente na escuridão e escorou o tampão em uma pedra que chutou para perto.
- Utevo Lux. – Murmurou. Suas mãos encheram-se de um brilho amarelado familiar. Era mínimo, mas o suficiente para atravessar o breu puro que a esperava lá embaixo. Segurando-se à parede, foi descendo degrau por degrau, com as mãos guiando seu caminho por meio de sua luz mágica. Passados minutos que se confundiram com eternidades, Angela se viu no meio de uma enorme sala repleta por estantes e mesas de carvalho, todas cobertas com livros em idiomas perdidos e pergaminhos escritos por ela própria. Frascos e mais frascos habitavam diversos dispositivos de ferro, alguns ainda ferviam com chamas azuis abaixo deles. Ervas e outros ingredientes bizarros lotavam potes e potes de cerâmica jogados displicentemente pelos cantos da sala subterrânea. Alguns lampiões vermelhos e velhos jaziam apagados em alguns pontos estratégicos das mesas, junto com algumas caixas com óleo para acendê-los. No centro da sala circular jazia um enorme caldeirão de cobre puro, pendendo sobre uma fogueira apagada e sem nada dentro.
Angela ficou ali revivendo seu passado de um jeito melancólico e perturbadoramente nostálgico. Ao passar os dedos nodosos por cada um dos livros e papéis vinha-lhe à cabeça a lembrança perfeita de quando e como a escrevera. Ela não precisava abri-los ou ler os seus títulos para saber do que tratavam. Quando pousava os olhos cinzentos sobre cada frasco sujo e vedado de poções nas estantes ela recordava-se com precisão o nome, o que o fluido fazia e como fora concebido. Amava esse que era seu hobby.
Chegou a uma enorme mesa de pedra onde estavam várias e várias pesquisas e substância estranhas. Angela sabia perfeitamente que aquilo era uma pesquisa que ela estava fazendo sobre ervas encontradas no sul do pântano. Fazia à pedido de Faluae, um certo elfo que vivia muito longe dali, ao norte, na cidade élfica de Ab’Dendriel. Faluae mantinha um interesse oculto e insaciável por magia, e desde que ambos se conheceram, frequentemente trocavam ingredientes e informações.
Angela vasculhou tudo que havia ali, relembrando como fora descobrir cada informação com precisão exemplar para estabelecer sua análise. Seus olhos brilharam com lágrimas, mas nenhuma delas chegou a cair. Era inexplicável que o assassino não tivesse encontrado nada daquilo. Será que o que ele buscava estava aqui? Angela caminhou mais um pouco até chegar à borda da mesa e lá encontrou sua varinha, companheira de vocação mágica e de longas aventuras. Estava suja, mas conservava ainda de leve o brilho original: era longa e de uma cor branco-prateada energética, rodeada em diversos pontos por argolas rosas, roxas e amarelas, que nem tocavam no cabo frio. Na ponta da varinha havia uma forma retorcida que entrelaçava mais e mais argolas em torno de uma pequena esfera branca energisada, que brilhava com intensidade ofuscante. Era uma das únicas fontes de luz ali embaixo.
Então, vindo distante, do outro lado do laboratório, um baque surdo ecoou e tirou a bruxa de seu devaneio.
Desconfiada, temendo pelo pior, Angela pegou a varinha e arrumou o xale laranjado e desfiado que usava por cima dos ombros. Deu alguns passos arrastados, erguendo poeira que impregnou seus sapatos duros feitos com cascas de coco e seu enorme vestido surrado da mesma cor que o xale. Levou as mãos à uma estante de ferro que impedia sua visão da escada em caracol e de lá pegou um chapéu típico de bruxos, mas também de um laranja berrante de certo modo engraçado, com um topázio circular do tamanho de uma maçã preso nele por uma fita vermelha. Jogou os cabelos ralos para trás, deixando a face branca e ossuda livre para enxergar. Pousou o chapéu sobre a cabeça e segurou mais firme ainda na varinha, não movendo-se em momento algum. Espero ser uma paranóia.
Nada mais ocorreu. Saindo de trás da estante, Angela cancelou o feitiço de luz, tornando-se oculta nas sombras. Caminhou mais um pouco até atravessar a sala e chegar junto à escada. O alçapão de ferro ainda estava erguido, apoiado na pedra. Nada estava fora do lugar. Quando estava pronta para convencer sua mente de que tudo estava bem, Angela a viu.
Era grande e aparentemente muito leve, de uma cor negra como as trevas. A pena, mesmo em sua simplicidade, emanava uma crueldade paralisante, que deixou os olhos da bruxa vidrados. Não há corvos nessa região. Fez uma pausa e analisou melhor o artefato. Muito menos desse tamanho!
- Bu. – Disse uma voz grossa e fria em um tom de deboche. Com uma cascata de tremores percorrendo o corpo, a mulher de laranja se virou para dar de cara com um elemento altíssimo, que usava uma armadura roxa com detalhes em um ouro apagado cobrindo os braços e o peito. Uma calça preta e folgada cobria as pernas até terminar no lugar aonde deveriam existir dois pés. Mas o que havia ali eram patas cinzentas e com garras negras e afiadas, lembrando as de um corvo gigante. Saindo das costas do ser misterioso estavam duas asas negras e gigantescas, agora largadas para baixo, soltando penas. Na cabeça ele usava uma máscara que protegia o que parecia ser um bico, sendo esta da mesma cor e material da armadura. A única entrada na máscara eram para seus olhos triangulares e vermelhos. Fios de um cabelo estático e negro saíam de trás da proteção facial. Angela não sabia o que era aquilo, mas definitivamente não era humano. Seus olhos desceram um pouco mais até avistar uma cauda parecendo um espanador coberta de penas saindo dele. Mas o que verdadeiramente a perturbou foram as duas espadas curtas e pretas que ele trazia, uma em cada mão cinza e grande.
- O que... Quem é você? – Indagou ela, tentando manter o controle sobre o pavor que sentia. Não era de seu costume temer qualquer ser vivente, mas aquilo transpirava pavor. Ergueu a varinha para proteger o peito, tentando prestar atenção nos movimentos da criatura. De alguma forma cruel ela sentia que ele era o responsável pelo que acontecera à sua casa.
O monstro soltou uma gargalhada penosa que fez algumas folhinhas de grama do lado de fora morrerem.
- Aquele que vai levá-la para longe daqui. – A calma com que ele falou a deixou transtornada. Não parecia estar brincando.
- Vai me matar? – Ela avançou de ré para fora da sala, até sentir que suas costas batiam com a placa de ferro que escondia a entrada. O monstro devia estar escondido só esperando ela aparecer e revelar aquele local para emboscá-la. Estou cercada.
A criatura gargalhou de novo, dessa vez parando abruptamente e falando com frieza:
- Não. Morta você me é inútil.
- Que quer de mim? – Preciso sair daqui!
- Não lhe interessa. Agora coopere – O caçador ergueu uma de suas lâminas e a colocou rente ao corpo de Angela – ou eu a farei cooperar.
Angela rangeu os dentes e percebeu que o monstro se satisfazia com sua situação. Respirou fundo e logo encontrou sua saída.
- Nunca, assassino maldito! – Ela se abaixou com um movimento rápido e fez menção de se atirar da escada, mas o monstro era muito mais ágil: quando percebeu suas intenções, baixou sua arma e cravou-a no vestido de Angela, atravessando as resistentes pedras daquele degrau e prendendo-a ali. Em um reflexo impensado, Angela se virou e apontou a mão para a face do ser, gritando: - Exori Flam!
Uma bola de fogo do tamanho de uma bola de futebol e de cor alaranjada criou-se do nada na palma de sua mão, seguindo com velocidade crescente rumo ao alvo. O movimento pegou o homem-corvo de surpresa, mas não o bastante. Ela simplesmente saltou e pairou no ar alguns instantes, enquanto a esfera colidia com um estrondo na parede do outro lado. Ele pousou no mesmo lugar e gargalhou.
- É só? Ouvi falar que era uma grande maga, mas estou decepcionado.
Angela praguejou e olhou para a espada que a prendia. Detesto fazer essas coisas... Mas é preciso! Olhou com calma para o inimigo e estendeu a mão. Ela pode perceber uma leve flexão nos “joelhos” dele, como se houvesse uma preparação para um salto. Um sorrisinho se formou em sua face. – Exori Flam!
O disparo quente preparou-se, e como era previsto, o mercenário saltou. Mas no último instante, Angela ergueu a mão, largando o ataque na direção do homem em pleno ar. Ele grasnou quando a magia o atingiu no peito, queimando algumas penas e derrubando-o ao chão. Um cheiro de carbonização forte invadiu as narinas de Angela enquanto o ser rolava as escadas. Sem pensar duas vezes ela deu um puxão que largou o vestido com um rasgo da lamina e se lançou para fora, rolando na grama. Começou a correr na direção da casa – que a essa altura já parara de pegar fogo. Mas não teve tempo: em questão de segundos a criatura emergiu, voando, do buraco que era a entrada do laboratório. Pousou com um baque bem na frente de Angela.
- Colabore, bruxa do pântano. Não será tão ruim assim.
- O que o Pentágono quer comigo?
Ela teve a impressão que ele sorriu. Mas não podia ter certeza por causa da máscara bizarra.
- Saberá quando a hora chegar.
Angela procurou uma saída. Encontrou-a quando seus olhos pousaram na companheira, Wyda, caída sobre aquela pedra, morta, mas com uma serenidade torturadora estampada na face. Uma força inenarrável invadiu e percorreu cada centímetro do seu corpo quando as memórias de cada instante que passaram juntas vieram à tona. Apontou as mãos trêmulas para o caçador, e com uma fúria que não conseguiu controlar, murmurou dolorosamente as palavras do encanto que ela descobrira com sua antiga amiga.
- Exana Ani!
Uma força rápida e invisível saltou de suas mãos, guiando-se impetuosamente na direção do elemento. Ele arregalou os olhos, mas não conseguiu saltar. A força atingiu-o bem na testa, e com força, derrubando-o no chão. Ele berrou e tentou se erguer, mas não podia mover as extremidades. Pouco a pouco foi sentindo o corpo endurecer e o brilho nos olhos sumir.
Angela suspirou e jogou a varinha na grama, caindo de joelhos, ofegante. Olhou uma última vez para o corpo paralisado do assassino de sua amiga e começou a pensar no que faria para se livrar dele antes que saísse da magia. E enquanto fazia isso, nem pensou naquela que era a única solução para o impasse geral no qual ela se metera: ela precisava urgentemente abandonar Venore.
"Raven" se pronuncia "Ráven"
"Exana Ani" é uma magia inventada.
Comentem :d
Manteiga.
A história já começa sem muitas explicações, "quase" partindo direto pra ação. Bem legal. Mas tem alguns pontos que eu particularmente considero erros se assim podemos dizer. Um laboratório secreto subterrâneo no meio do chão pantanoso de Venore ficou muito "James Bond" pro meu gosto, quando cheguei na parte da chave imaginei no máximo um baú escondido, enterrado nas proximidades. Mas no geral a coisa toda tá bem acima da média!
[]'s
Jotinha
:):):)
Dragon of Nightmares
29-06-2009, 21:19
nossa, gostei muito da sua história.
tanto as descrições como o enredo estão excelentes. Estou realmente ancioso para o próximo capítulo =]
DanielTheBest666
29-06-2009, 23:31
Estou lendo ainda mais me parece bastante interresante.
Rapaz, boa iniciativa ;)
Abraços...
devorador de almas
01-07-2009, 10:00
gostei muito da sua historia continue postando
Lucas CS
04-07-2009, 20:34
O início teve muita coisa sem descrição.
As mortes de líderes como King Tibianus III e Daniel Steelsoul (o que me decepcionou por morrer) poderiam ser narradas com ação.
Mais uma coisa... a civilização mais poderosa militarmente do Tibia foi a primeira a ser dominada? =p
O que vou dizer... você tem um português invejável, a linguagem é padrão, não tem as rebuscágens que tanto abomino, o primeiro capítulo foi extremamente detalhado, o enredo e a atmosfera são geniais. Tudo isso me lembra a obra de um amigo.
Só achei um ponto fraco, bem como na obra do Mago Teseu: o contexto. Pô, eu gostava da Wyda D=
Daniel Steelsoul era o meu herói. Eu trabalho pro Rei Tibianus III. É mais um armagedon rápido, com inimigos esquisitos, isso é muita distorção.
Claro, isso não desmerece nada, eu que sou meio repulso a universos paralelos xD
Meus parabéns, Manteiga, fez juz à sua aptidão.
Tenho um assunto a tratar com você.
Manteiga
05-07-2009, 00:04
Eu só ia responder quando fosse postar o capítulo 2, mas vou fazer isso agora:
@Jotinha
Obrigado pelos elogios ^^ Quanto ao laboratório, pode ser mesmo que tenha ficado um pouco exagerado, mas considere como um subsolo alternativo da casa. E se você for andar pelos lados da casa da Wyda no pântano (de fato existe) vai ver a existência de uma cave embaixo da casa. Nada impediria a existência de uma salinha circular um pouco mais afastada...
@Dragon, Daniel, Mercenaryoo, devorador
Valeu por passarem e comentarem o/
@Lucas
Eu até concordo que o começo tenha sido demasiadamente abrupto. Mas eu realmente não queria me demorar citando como ococrreu toda a tomada mundial pelo Pentágono. Mas claro que não vou largar meus personagens às cegas por um mundo dominado pela morte. Futuramente vai ser explanado por cima como se deu o básico, e aí sim vocês poderão julgar a morte do Tibianus, tomada de Thais e tal... Temos que considerar por exemplo que sem seu rei, morto num atentado inexplicável, a cidade "perderia a cabeça" e ficaria fácil invadir. Isso, junto com outros fatores a serem explicados, já justificaria.
E Daniel Steelsoul é o mandante de Venore, correto? Eu creio ter dito no prólogo que ele não morreu, não disse? '-' Sobre a Wyda... Bom, eu também gostava dela. Mas Wyda tinha que morrer. É uma pena, mas os personagens não-principais legais sempre morrem no final [+ ou não].
E obrigado por ter elogiado, é bom saber que alguém considera bem as coisas que eu escrevo :x
E quer tratar assuntos é? Falemos por PM!
--
Povão: Capítulo dois deve sair essa semana. To revisando e checando se vai ficar legal.
Manteiga.
edited
Affe Lucius, pra que postar enquanto eu respondia com um mega texto? >-> De qualquer modo tu respondeu o que eu respondi e mais resumidamente affe '-'
E parem de reclamar da morte da Wyda! Ou revivo ela e mato de novo ._.
Lucas CS
05-07-2009, 15:39
@Lucas
E Daniel Steelsoul é o mandante de Venore, correto? Eu creio ter dito no prólogo que ele não morreu, não disse?
Daniel Steelsoul é o governador de Edron xD
E não mate a pobre e serena Wyda de novo pls ._.
Manteiga
05-07-2009, 16:01
A é, eu que confundi o NPC >_>' Sendo assim... Ele morreu. Aceite isso, bwahaha.
Quanto ao caso da Wyda... Eu vou pensar :x
Manteiga.
AnyThing
07-07-2009, 11:43
Hmm, boa historia gostei bastante.
Seu portugues e invejavel :eek:
ps: nao gosto da Wyda morreu tarde XD
Manteiga
08-07-2009, 12:47
Segundo capítulo ^^ Fico feliz que tenham gostado, é um grande incentivo para prosseguir. Se esse aqui não ficar tão bom (como acho que não ficou), podem meter a boca mesmo (uy). Assim posso melhorar e manter a história num bom ritmo ^^
Capítulo Dois
Destino em Dúvida
Doía para Angela esquecer todo um passado. Abandonar o pântano significava dar as costas ao trabalho de sua vida, à sua única e verdadeira missão nas terras de Tibia. Sair de sua casa isolada para seguir um novo rumo, deixando para trás pesquisas e poções obtidas ao longo de uma vida era a pior das dores que Angela podia sentir.
Um amargo gosto de culpa tomava sua boca enquanto relembrava os acontecimentos recentes. Estava tudo ainda fresco em sua mente: a chegada ao seu lar, o choque de vê-lo todo destruído, o que sentira quando encontrara Wyda com a garganta cortada, o encontro com o assassino, o modo como o paralisara... Tudo ainda parecia um bizarro resultado duma noite mal dormida. Mas a culpa crescente interior era bem real.
Não sentia-se mal pelo que fizera ao caçador. Mas sim pelo que fizera à sua vida. Enquanto caminhava a passos largos pelas agitadas ruelas de Venore, a bruxa recordava-se de tudo que acabara de fazer. Primeiro, pegara algumas correntes que mantinha jogadas num canto da sala – para prender suas cobaias – e atrelou o ser misterioso ao caldeirão no centro de seu laboratório. Temendo que o Pentágono quisesse algo de lá, pegou os materiais que julgou que pudessem oferecer maior interesse a ele – fosse qual fosse – e os guardou em uma mochila cinzenta que encontrara, colocando-a nas costas. Depois, odiando-se profundamente, usou magia para induzir um incêndio na sala. Saiu correndo sem olhar para trás rumo à edificação grandiosa da cidade-forte do pântano. O cheiro de fumaça invadia suas narinas, mas ela preferiu não imaginar o assassino desgraçado despertando em meio às chamas e morrendo junto com tudo que Angela mais gostava na vida. É injusto.
Estava agora cruzando a principal rua da cidade. Venore era um caótico labirinto construído sobre pilares de pedra no meio do pântano nocivo. Fora erguida no governo do rei Tibianus I de Thais e logo se transformara colônia, servindo principalmente como forte de guerra e esconderijo para observações. Com o tempo, Venore desenvolveu o comércio e cresceu, tornando-se quase tão grande como a capital. Seu maior defeito era o fato de estar edificada acima do nível térreo, tornando corridas pelos corredores mal protegidos por parapeitos de pedra verdadeiros desafios contra a morte. Sobretudo na situação que se encontrava ali.
Pessoas vindas de todos os lugares possíveis e imagináveis embolavam-se em um caos organizado rumo à única saída que Venore possuía para o oeste, aquela que conectava a cidade ao resto do mundo. Mulheres de todas as idades seguravam sacolas e sacolas repletas do que Angela deduziu serem provisões para longas, intermináveis viagens. Algumas ainda seguravam pela mão ou no colo os filhos das mais diversas idades. Havia ainda alguns bebês que choravam e esperneavam, mas as suas mães ignoravam e seguiam em frenesi no meio do corredor de pessoas. A bruxa constatou que todos os homens que estavam junto das pessoas ou eram jovens demais ou velhos demais. Onde estão os outros?
A resposta foi dada quando alguns homens vestidos com armaduras pesadas e vermelhas passaram correndo na direção oposta da população, indo se juntar a um verdadeiro batalhão de homens parecidos. Todos estavam parados perante uma montanha de pedras cobertas com musgo, que era o coração de Venore. Todos estavam protegidos da cabeça aos pés por folhas e folhas de prata rubra, e todos tinham em mãos algum tipo de arma: desde simples martelos e adagas até grandiosas e imponentes clavas e espadas. Angela não precisou nem pensar para confirmar seus temores. O Pentágono está chegando.
Novamente seus pensamentos precederam acontecimentos reais. Duas velhas – aparentemente viúvas – sobrecarregadas com cestas cheias de mantimentos passaram por ela comentando alguma coisa sobre tropas vindas de Thais cruzando o campo florestal que separava as duas cidades. Tropas de Yöer. Angela suspirou e procurou manter a calma, tentando decidir o que fazer. Podia se unir ao grupo que estava fugindo sabe-se lá pra onde ou tomar seu caminho. Optou por viajar sozinha. Tirou a mochila velha e fedorenta das costas e checou. Havia nela alguns pães enfiados em uma cestinha mínima, alguns frascos de poções, fluidos diversos e água, incontáveis livros e pergaminhos de pesquisa, uma corda enrolada em uma varinha de madeira e mais algumas quinquilharias que poderiam ser úteis. Ao se certificar que tudo estava ali – odiava partir sem ter certeza de que estava pronta para uma grande aventura – ela deu uma última olhada para as tropas de vermelho e saiu correndo na direção da multidão, cortando-a rapidamente, pisando em alguns pés e atropelando algumas crianças.
Deixou o povo ouvindo desaforos. Continuou correndo, fazendo algumas curvas e tentando chegar até o portão sul, que levava até uma trilha que adentrava na parte mais sinistra do Pântano da Pata Verde. Quando estava quase chegando, um dos soldados venorianos saiu de uma casa próxima e acabou colidindo com ela.
- Mas que... – Praguejou ele quando Angela foi ao chão, caindo de barriga propositalmente, para não quebrar as poções. O homem apenas andou alguns centímetros para trás com a colisão. Passados alguns segundos de gemidos, ele ajudou a bruxa a se levantar. – Devia ter mais cuidado.
- Estou com pressa. – Angela bateu o pó das vestes e ergueu os olhos sem vida. O homem era ligeiramente mais alto que os demais soldados que vira, mas a armadura era igual. O que o diferenciava era a falta de um elmo, expondo os cabelos meio longos, lisos e grisalhos, olhos vermelhos inquisidores e uma cicatriz rosada que cortava a face.
- A saída oeste não fica para o sul. – Ele sorriu, tentando fazer uma piada. A bruxa apenas ergueu uma sobrancelha. O homem resmungou. – Quero dizer que deve seguir com a multidão. Estão todos seguindo uma rota que passa pela orla dos pântanos.
- Até onde? A única coisa que tem pra lá é Kazordoon. E os anões já saíram de lá faz algum tempo, pelo que ouvi dizer. Usaram seus túneis subterrâneos pra se esconder do Pentágono.
- Por isso mesmo estão todos indo pra lá. O natural seria seguir pra Carlin, afinal o Condado do Norte ainda não foi dominado. A grande maioria dos rebeldes está por lá. Mas é uma viagem difícil e provavelmente os soldados devem ter bloqueado todos os caminhos possíveis...
- Mas e vocês? Digo, os soldados. Quem são? – Ela indagou, realmente buscando compreender aquela situação insólita. Parecia ter esquecido que estava fugindo.
- A Força Separatista Venoriana. Lutamos contra o governo do Pentágono aqui no Condado do Sul, mais especificamente entre Thais e Venore. Nossa sede fica aqui na cidade-forte, mas com esse ataque do Pentágono achamos melhor dispensar todos os civis para Kazordoon. Queremos atrair as tropas imperiais para os corredores da cidade, onde nossa vitória será quase garantida. Depois veremos o que fazer.
- Claro... Mas já houveram outros ataques, pra que esse êxodo todo agora?
- Fomos pegos de surpresa. Não pudemos esconder os civis no vilarejo que os elfos mantém aqui no pântano, como fazíamos até então. Os elfos são aliados da revolução contra o Pentágono.
- Assim como quase todas as outras raças, eu sei... – Ela parou por um instante, despertando da conversação. – Ah, bem... Não tenho pretensão de ir até Kazordoon e...
- De lá os civis pegarão um barco pra Edron.
- Odeio Edron.
- E pretende ir para onde senhorita...?
- Meu nome não vem ao caso, soldado. Só quero sair daqui o mais rápido possível. Eu sozinha consigo facilmente chegar até o vilarejo dos elfos. Conheço alguns e...
- Não vou deixá-la passar, bruxa. – O homem não falou com rispidez, mas com um tom irônico que quase fez Angela sorrir. Se não fosse por essa espada presa no cinto, diria que era um piadista. – E além do que, os elfos já saíram todos e estão vindo pra nos ajudar a lutar. Esquecemos todas as desavenças do passado em nome de um inimigo comum, é a lei da sobrevivência. Se quiser abrigo com os elfos acho melhor ir até Ab’Dendriel e...
Angela não ouviu o resto do longo diálogo do homem. Ab’Dendriel! Como pudera ser tão tola a ponto de esquecer-se da cidade onde fora criada? Seu bom amigo dos tempos de feitiçaria, Faluae, morava lá! Ele vai me ajudar, tenho certeza! O caminho entre as duas cidades era longo, e a melhor rota a se tomar era atravessar o pântano até os campos do norte. Levaria alguns dias apenas. Mas Angela se recusava a voltar para aquele lugar. Sua única opção era sair da cidade pelo portão oeste e depois seguir sua rota, longe das pessoas – não era o ser humano mais sociável que existia – e em algum tempo chegaria à Ab’Dendriel. Mas precisava sair logo dali, ou era capaz de cruzar com os exércitos inimigos no caminho.
- Perdão, mas eu vou seguir sua recomendação e sair da cidade pelo portão oeste. – Ela se virou e saiu correndo, sem dizer mais nada.
- Ok então. Boa sorte, bruxa de laranja! – Gritou em resposta o homem. – Se algum dia precisar de mim, sou o General Ahamed!
Angela não sabia, mas ainda precisaria muito daquele homem.
Correu rapidamente de volta, com o coração acelerado e os pensamentos em disparada. Há muito tempo não experimentava uma sensação de ânsia tão grande como naquele momento. O mundo mergulhou em guerra! Era uma sensação fantástica, que forçou a feiticeira a sorrir, apesar de tudo. Depois de tantos anos de monotonias, finalmente Angela estava vivendo uma grande aventura. E pela primeira vez em anos, estava deixando o pântano. E junto com ele, deixando tudo que significava alguma coisa pra ela.
Enfiou-se no meio da multidão e ignorou quando as pessoas a xingavam e a puxavam, evitando que causasse tumulto ali. Alguns guardas que escoltavam a multidão chamaram-na e ordenaram que parasse de fazer baderna. Mas ela ignorou, o sangue pulsando furiosamente nas veias. Os sapatos de coco produziam estalidos altos ao tocar o chão, mais altos que os sapatos das demais pessoas. Com a varinha branca em mãos foi abrindo caminho, ainda usando os cotovelos e quadris. Finalmente chegou à escadaria de mármore que marcava a entrada da cidade. Desceu-a saltando degrau em degrau e atingiu uma ruela de pedra no térreo do pântano. Ao seu redor só havia mato e lama.
Correu para fora da formação, ouvindo mais protestos e insultos das pessoas e dos guardas. Correu para o sul, rumo ao pântano em si. Desviou de algumas plantas rasteiras e pulou trechos acidentados e pequenas poças nocivas e venenosas. Em alguns minutos ela estava perdida no meio do verde que fora seu lar durante tanto tempo. Mas ainda podia ouvir a movimentação dos civis partindo. Usando as mãos e a varinha foi abrindo caminho quando apareciam gramas altas e plantas que bloqueavam o caminho. Seguia sempre para o sudoeste, sabendo que poderia chegar à lugares nada convenientes se fizesse o contrário. Afastou-se mais e mais das pessoas e algumas horas depois de adentrar no pantanal, chegou a um campo aberto e longo, que se perdia no horizonte. Montanhas e árvores altas se erguiam em diversos pontos do lugar. Se andasse um pouco chegaria a um ponto mais elevado do campo em que podia ver as pessoas bem distantes, seguindo para o norte. Logo ela tomaria aquela rota. Sorriu quando sentiu o vento quente tomar seu corpo e bagunçar seus cabelos.
Longe, houve um som. Parecia um trovão, mas era mais metálico. Pouco depois veio de novo. E de novo. Seguiu em intervalos de tempo calculados, ficando cada vez mais alto e mais próximo. Mas mesmo assim Angela não sabia de onde partia o som. Virou-se para todos os lados, com os olhos aguçados buscando qualquer coisa que pudesse lhe ser um indício da fonte dos barulhos. Então veio outro som, Eram passos, arrastados. Batiam no chão duro e ecoavam. Eram diferentes do primeiro som. Em determinado momento ambos coexistiram, fazendo uma sinfonia bizarra de terror e apreensão. Então, às suas costas, houve um grito. E depois um chiado alto e demoníaco que fez sua espinha gelar. Então, algo duro colidiu com suas costas e ela gritou. A dor invadiu seu corpo e ela tombou, rodopiando morro abaixo, espalhando sangue pela grama. Ela abriu os olhos gritando e se contorcendo, e a última coisa que ela viu antes de desmaiar foi um minotauro com uma maça erguida, gritando coisas em uma língua que não fazia sentido agora.
"Ahamed" se pronuncia "Arraméd"
Espero que gostem.
Manteiga.
PS: Capítulo III deve sair sexta ou sábado da semana que vem.
Lucas CS
10-07-2009, 15:33
Waaaaaaaaaah, não quero esperar até semana que vem D=
O segundo capítulo não foi tão emocionante, mas foi tão cheio de detalhes, tão bem descrito e coerente, que gerou uma baita expectativa para o próximo. Dá pra imaginar perfeitamente como as coisas acontecem.
Meus parabéns \o
AnyThing
10-07-2009, 18:34
Arghh, odeio fica curioso ¬¬
Kamus re
13-07-2009, 11:07
Bom, primeiro parabéns pela história. Gostei.
Mas lógico que há ressalvas a se fazer. Acho que você já começou nos deixando na tensão "pentágono, pentágono, pentágono". Nem nos deu tempo de conhecer a personagem principal e com ela nos cativar. Como leitor para mim tanto faz como tanto fez morrer Wyda ao invés de Angela.
Outra coisa: você está partindo do pressuposto que todos nós conhecemos o mundo do Tibia. Ok, mas não sei se isso é o mais certo. Isso limita sua história a um mundinho demasiado pequeno.
No mais, prefiro esperar.
Abraço.
··Hail the prince of Saiyans··
Elite Sorcerer
13-07-2009, 17:39
O modo com que você descreve as cenas faz com que se possa visualizar as situações perfeitamente. Gostei muito da história, meus parabens cara o/
Cap III plz :P
Gratz, Manteiga ;)
Abraços...
Manteiga
21-07-2009, 16:48
Só passando para avisar que estou sem pc em casa e que sendo assim a postagem do capítulo ou até respostas para os comentários já feitos irão demorar um pouco (espero resolver tudo até o fim da semana).
Enquanto isso... Façam marketing ô/
Manteiga.
Só arrumei de ler agora.
Uma bola de fogo do tamanho de uma bola de futebol
Veja bem... Eu sei que existem sim bolas de futebol no universo de Tibia, mas de qualquer forma, acho que a comparação soou estranha no meio do seu texto, que é claramente uma fantasia medieval.
Já imaginou se Tolkien comparasse o palantír com uma bola de boliche?
Correu rapidamente de volta, com o coração acelerado e os pensamentos em disparada. Há muito tempo não experimentava uma sensação de ânsia tão grande como naquele momento. O mundo mergulhou em guerra! Era uma sensação fantástica, que forçou a feiticeira a sorrir, apesar de tudo. Depois de tantos anos de monotonias, finalmente Angela estava vivendo uma grande aventura. E pela primeira vez em anos, estava deixando o pântano. E junto com ele, deixando tudo que significava alguma coisa pra ela.
Bem aí não é um erro propriamente dito. É só que, para alguém que perdeu a amiga, perdeu a casa e não tem onde cair morta, eu achei ela animada demais nesse trecho.
Mas quem sou eu para julgar a personalidade da sua personagem? :P
~~
Sobre a história em si, está muito bem escrita. Parabéns.
Parece que você tem uma trama grandiosa em mente. Não vá nos deixar na mão. =x
E como já falaram, tem muita coisa pra se aproveitar aí. Dá para fazer uma história paralela inteira só com a formação do tal Pentágono, a morte de Tibianus III...
Se você quiser explorar isso, claro.
Até. :happy:
Eu estive conversando ultimamente com Manteiga e até antes dele postar aqui...
Como você disse dá pra se fazer várias historias paralelas. Eu vou esperar terminar essa historia e começar a escrever pequenos contos com 4 ou 5 capitulos paralelamente ou não ao tempo e espaço do fato...
Se alguem quiser também converse com o Manteiga.
Manteiga
25-07-2009, 18:12
Consegui um monitor emprestado ^^ Graças a isso posso postar o capítulo III, longamente prometido. Ele ficou maior que os outros dois e possivelmente mais fraquinho, mas ele é basicamente uma conversa e um jogo de pensamentos. Lendo atentamente dá pra se concluir muito sobre a Angela e sobre o misterioso novo personagem. Espero sinceramente que compense pela longa espera :x
Capítulo Três
Crainte
Estou nas Planícies do Caos.
Era uma realidade tão cruel quanto a que recebera tão pouco tempo atrás, ao encontrar sua casa destruída. A única coisa que a mente cansada e confusa de Angela conseguia processar naquele instante era a consciência de que havia descido mais ao sul do que pretendia. Saíra da rota imaginária que fizera – na qual fugia da multidão e podia seguir mais reservadamente e rapidamente para a cidade dos elfos que ficava no extremo norte do continente, Ab’Dendriel. Mas acabou saindo em um ponto muito ao sul do Pântano da Pata Verde, e acabou indo parar no pior lugar que podia ir.
As Planícies do Caos não tinham tal nome por causa de nada. Era uma gigantesca área nunca colonizada que se estendia do fim do único deserto que havia no continente, situado no coração deste, até que as terras alcançassem o mar. Era picotada por rios profundos e negros, que demarcavam junto com as árvores e montanhas as fronteiras entre as habitações. Não havia humanos ali. Moravam nas Planícies, distribuídos em cidadelas mal organizadas, cavernas e florestas, ciclopes, orcs, minotauros, mortos-vivos, insetos gigantescos e répteis misteriosos, alguns dos quais podiam voar. Outros eram os seres escamosos e verdes mais falados nas histórias de cavaleiros: os dragões. Em resumo, as Planícies do Caos eram o berço e lar de todas as criaturas renegadas pela sociedade humana.
E ela estava ali. Exatamente em que pedaço do lugar maldito ela não sabia. Podia ser no domínio dos orcs no extremo sul, no cemitério dos mortos-vivos, nas habitações dos gigantes... Ela apenas sabia que estava dentro de uma tenda de lona velha e empoeirada. O interior era extremamente limitado: havia uma esteira de bambu seco onde ela estava deitada, uma mesinha de madeira, um criado-mudo todo furado e marcado e diversas sacolas cheias jogadas ao chão. O interior da tenda era iluminado fracamente por um lampião vermelho que emanava uma luz alaranjada localizado sobre o criado-mudo. O chão era de terra batida e grama seca, transmitindo uma desagradável sensação de morte e tristeza. Talvez nem tão desagradável assim.
Angela foi lentamente libertando os pensamentos e tomando mais consciência da situação. Começou a se lembrar dos barulhos estranhos, dos passos, do chiado, da dor... E do minotauro. Seus olhos se arregalaram e ela levou as mãos às costas. Tocou no tecido leve e aveludado do vestido e logo encontrou o ponto onde fora atingida sabe-se lá pelo que. Doía e ardia muito, e ao toque da bruxa, começava a latejar. Mas já não sangrava mais. Ficou meio feliz ao perceber que o vestido não fora rasgado pelo golpe: era a única peça de roupa que trouxera. Felizmente o reforcei com magia, riu em pensamento, num momento completamente inapropriado.
Então sua mente despertou-a para a realidade: Minha mochila! O agressor devia ter roubado. Com a respiração difícil e uma sensação de ódio e confusão misturada, ela se ergueu com dificuldade e começou as vasculhar a tenda com os olhos. Deu alguns passos, mas as suas costas explodiram em dor, derrubando-a de volta na esteira. Sentiu-se estranha e irreconhecível a si mesma, como se sua personalidade tivesse desaparecido e sido substituída por um espírito raivoso e anormalmente preocupado.
Então, sem aviso, passos foram ouvidos avançando sobre a grama. Projetou-se na tenda a sombra de uma criatura enigmática. Angela engoliu em seco quando o ser entrou na tenda e largou uma sacola em um canto. Ele resmungou alguma coisa com uma voz forte e cortante. Então se virou e pousou seus olhos negros sobre a paralisada bruxa, constatando que estava acordada.
Angela estava atônita. É... Um minotauro! Não restava dúvida: era um ser muito alto e de ombros largos, com o peitoral e os braços de um homem adulto, mas as pernas terminadas em cascos de um boi. A cabeça também era deste animal, sendo alongada e com um focinho mais escuro munido de dentes afiados e incomuns. Os olhos ficavam um de cada lado do crânio enfeitado com um par de chifres de marfim muito brancos e longos, que se empinavam para cima, disfarçando as orelhinhas triangulares do ser. Usava uma capa amarelada e rala presa ao corpo por um cinto de couro recheado com armas e utensílios. O cinto cruzava sua cintura bem na parte onde ele se transformava em animal e então subia, atravessando o peitoral. Suas pernas não estavam nuas: uma folgada calça de pregas marrom que cobria os membros até os joelhos. Mas o que Angela realmente temeu encontrar foi o que viu enfiada no cinto do minotauro: uma maça negra não muito maior que seu antebraço, com a ponta terminada em uma esfera pesada de ferro incrustada com espinhos enferrujados e marcados pelo sangue seco. Logo ela reconheceu a arma que a feriu.
O minotauro bufou.
- Vejo que acordou. – Trovejou ele, perturbando os ouvidos de Angela com sua voz forte e marcante. Estranhou ao notar que o homem touro conseguia falar sua língua. Mas estranhou ainda mais o fato de estar perante um minotauro. Não que não soubesse de sua existência, mas ela duvidava muito que um dia veria um novamente. Viviam muito reservados em suas cavernas ou acampamentos em florestas escuras. Os poucos que ela encontrara haviam sido muito hostis com ela, obrigando-a a decepar suas cabeças. Isso ocorrera enquanto ela tentava alcançar a enigmática Mintwallin, cidade dos minotauros que estes ergueram no âmago da terra, metros e metros abaixo da capital dos humanos. Após o episódio evitou o contato com tais criaturas. Até então.
- Você... Fala minha língua! Mas como? – Ela esforçou-se para falar, tentando ser o mais amistosa possível, afinal, ela que era a visitante ali. Ou a refeição das próximas horas. A idéia provocou um tremor anormal na sua barriga.
- Não é difícil aprender. – Disse ele. Então ele pegou um toco de árvore seco – que a bruxa jurava estar enraizado ao solo – e sentou-se nele, ficando de frente para ela. Encarou-a nos olhos de um modo perturbador, fazendo-a recear. Nunca antes se sentira tão acuada. Nem mesmo quando encontrara o assassino de Wyda.
- Onde estou?
- Planícies do Caos. Meu acampamento. – Ele falava lentamente, travando em alguns instantes, tentando adivinhar ou lembrar que palavra usar.
Ela apontou para a maça, sentindo uma pontada de dor ao fazê-lo.
- Foi você que me feriu?
A pergunta pareceu não pegá-lo de surpresa. Respondeu instantaneamente.
- Não. Foi uma caveira.
Então estava explicado. Enquanto estava distraída observando as pessoas e aproveitando o vento, um morto-vivo repugnante e podre saiu do nada com uma arma qualquer em mãos e a acertou bem nas costas com força.
- Uma caveira é? Vinda de onde?
Ele bufou de novo.
- Do exército imperial. É formado de mortos-vivos.
Angela sabia. Ouvira algumas poucas vezes enquanto perambulava por Venore comentários sobre os exércitos do Pentágono. Como quase todo ser vivente repugnava o que eles faziam – principalmente os rituais sinistros que supostamente executavam – era preciso buscar exércitos em fontes onde fosse possível achar um bom número. E mortos eram o exército perfeito: bastava ter vários necromantes para comandar os feitiços e reviver qualquer um em qualquer lugar, de qualquer raça. O resultado era uma máquina de matar que não podia ser morta e totalmente leal. Tais seres só podiam ser detidos ao se explodir os ossos do peito e a coluna, que era onde a magia negra se concentrava para estabilizar o novo “ser vivo”. Geralmente os seres eram muito bem equipados nessa região, tornando mesmo números pequenos deles extremamente complicados de se derrubar. Talvez por isso o Pentágono já dominara quase todo o Condado do Sul, as região do deserto de Darama, as ilhas do sul e as ilhas do norte.
- Então porque eu o vi antes de cair desacordada?
O minotauro remoeu a pergunta e pareceu escolher bem as palavras. Seus olhos não saíam de Angela, o que a deixava transtornada.
- Eu estava caçando. – Ele apontou para alguns corpos estripados de cervos jogados abaixo das sacolas. Corpos que a bruxa não notara antes. – E vi você e a caveira. Eu gritei para te avisar, mas o bicho te atacou. Você caiu e eu o destruí. Então a trouxe pra cá.
- Mas... Eu sou humana! Porque me...
- Salvaria? – Dessa vez o minotauro ficou em pé e bufou alto, claramente aborrecido com o comentário. Angela fitou os pés e se perguntou se havia falado alguma coisa que não devia. Mas é verdade! Minotauros e humanos são inimigos declarados! – Nem todos os minotauros são cruéis. Nem todos odeiam humanos. Meu clã era pacífico. Vivíamos todos aqui muito felizes, sem incomodar humanos. Humanos não nos incomodavam.
- Eu lamento mas é que...
- Sou um monstro? – Ele bufou alto e chutou uma sacola. Instintivamente Angela buscou a varinha, mas não a encontrou. Ele deve estar tentando me enrolar! – Nunca lhe passou pela cabeça que minha raça vive como a sua? Nem todos humanos matam minotauros. Nem todos minotauros matam humanos. Eu apenas não queria ver vida inocente cair pelo Pentágono. Eles cruéis. Eu não.
Até agora Angela não compreendia porque se solidarizara com o minotauro. Se era por causa do modo engraçado e sério como falava, cortando frases quando não devia e falando coisas incompletas, ou se era porque ele também odiava Yöer. Ela se levantou e fez uma careta quando o ferimento nas costas doeu.
- Eu sinto muito. É que tudo é muito estranho agora, eu estou confusa... Lamento. – Não acredito que estou me desculpando. E que estou confusa. Decididamente as coisas estavam muito mudadas naqueles tempos.
Ele grunhiu.
- Tanto faz. Se eu fosse te matar o teria feito na campina. – Ele indicou o criado-mudo. – Suas coisas estão ali. Nada quebrou.
Ela correu e pegou sua mochila da primeira gaveta do móvel e checou. Tudo estava ali, intocado, bem como ela deixara. A varinha branca estava escorada ao móvel, completamente inerte. Sentiu-se então uma imbecil sem tamanho pelos seus atos.
- Sou Angela. – Decidiu dizer. Achava que era o melhor caminho para melhorar os laços entre eles, afinal, estava cansada e faminta. Não conseguiria viajar naquelas condições, até porque aparentemente já era tarde da noite. Iria ter de passar a noite ali.
- Eu Zoroast, da tribo de Akhun. Sou o último dos minotauros das Planícies do Caos. Todos os demais foram mortos pelo Pentágono. Não queriam se unir a eles.
- Ah... Lamento... – Um silêncio cruel pesou. Angela mordeu um dos pães que trouxera e constatou estar muito seco. – Eu morava em Venore. O Pentágono destruiu minha casa e matou minha companheira de quarto. Fugi da cidade porque o exército está indo atacá-la...
- Eles estão acampados perto. Não sei porque acampam já que todos estão mortos mesmo... – Zoroast baixou a cabeça e se ergueu. Andou até a carne crua dos veados e a examinou. – Vou comer. Tem fome?
Uma sensação estranha pesou dentro do corpo dela. Apesar de estar faminta, ela negou. Detestava carne, apesar de frequentemente trabalhar com cervos como cobaias em seu laboratório.
- Mais pra mim. – Ele sacou uma adaga e começou a cortar a carne de um jeito simples e displicente. – De qualquer jeito, deve dormir se quiser continuar sua viagem. Agora é noite. De manhã cedo você parte.
Ela concordou. Resmungando e sentindo dores fortes nas costas, deitou-se na esteira de bambu e fechou os olhos, tentando dormir. Acabara de dormir horas e horas, não estava com sono! Mas precisava repor as energias e se preparar para sua grande travessia continental. Esqueceu a fome e o lugar onde estava e foi deixando a mente vagar. Após horas perdidas ouvindo os ruídos de Zoroast cortar, cozinhar e comer a carne, saindo da tenda em seguida, ela finalmente pegou no sono. E o fato de estar em companhia de um minotauro não interferiu nisso.
"Zoroast" lê-se "Zoroást", sem o "t" mudo.
"Crainte" é "medo" em francês.
---
@Steve
Tenho que concordar que a comparação ficou estranha. Mas eu não pude encontrar um outro objeto para comparar decentemente, então ficou assim. Se puder pensar em um e me falar eu ficaria feliz em mudar ali. Quanto ao seu outro comentário, acho que o zack já disse o suficiente.
@Kamus
Está certo, estou pressupondo que todos os leitores conhecem o Tibia. Mas não adiantaria eu acreditar que um "não-tibiano" viria feliz da vida ler uma história de Tibia. Eu pelo menos acho pouquíssimo provável. Caso algum não conhecedor dessas estranhas terras viesse me mandar uma pm falando que gostaria de ler e que eu explicasse melhor esse lado, eu o faria sem problemas. Só estou seguindo essa minha crença, talvez errônea.
Sobre seu primeiro comentário, pode de fato estar certo. Mas eu acredito que terei toda uma história longa para falar da Angela, mostrar como ela é e aproximá-la do leitor. Eu preciso passar os fatos e preciso tornar a história compreensível, afeiçoável e boa e isso é complicado. Mas não se preocupe, anotei seu comentário e farei o possível para apresentá-la o suficiente para vocês o mais breve possível.
@Aos demais, obrigado por visitarem e comentarem ^^
Manteiga.
Lucas CS
25-07-2009, 18:58
Gostei desse capítulo, mas o diálogo poderia ser diferente, foi um tanto genérico.
as região do Deserto de Darama
Só achei esse errinho :3
Outra coisa... estranhei a existência do tal "Condado Sul". Condado de quê? Algo perto de Thais? Bom, Thais já é a capital de um governo, e era liderada por um rei... o máximo que se pode chamar de condado é Fibula.
Elite Sorcerer
25-07-2009, 19:29
Ótimo capítulo! Novamente quero lhe elogiar pela descrição, duvido que qualquer pessoa tenha dificuldades em visualizar a história.
Aguardo por mais posts :P
Manteiga
25-07-2009, 20:11
@Lucas
Acho que não fui muito claro. Eu creio ter dito no prólogo que o Tibia inteiro foi repartido em cinco porções, e que cada uma delas foi tomada por um dos membros do Pentágono. Sendo assim, o continente em si foi dividido em Condado do Norte e Condado do Sul, o deserto (XD) de Darama ficou outra província, Tiquanda e Ilhas Devastadas outra e Ilhas de Gelo outra.
Foi isso o problema?
Manteiga.
Lucas CS
26-07-2009, 02:40
@Lucas
Acho que não fui muito claro. Eu creio ter dito no prólogo que o Tibia inteiro foi repartido em cinco porções, e que cada uma delas foi tomada por um dos membros do Pentágono. Sendo assim, o continente em si foi dividido em Condado do Norte e Condado do Sul, o deserto (XD) de Darama ficou outra província, Tiquanda e Ilhas Devastadas outra e Ilhas de Gelo outra.
Foi isso o problema?
Manteiga.
Sim, eu lembro disso, agora. O que me intriga é o uso desse termo, me parece um tanto inapropriado, visto a magnitude simbólica do continente.
O universo tibiano é limitado e confuso. Decididamente, tenho dificuldade para simpatizar com histórias baseadas no jogo, principalmente quando o autor adiciona novos elementos e eventos. Além disso, nunca tenho certeza se as descrições são realmente boas, pois só consigo imaginar os ambientes encontrados in-game. Por outro lado, você escreve bem e o enredo imprevisível desperta curiosidade no leitor.
Algumas considerações...
Gosto do jeito como você trabalha com as explicações, cavando informações que ficaram no passado e retornando a narrativa no momento correto, naturalmente, sem deixar o texto truncado. Artifício muito bem utilizado.
A mochila de Angela parece o baú mágico de Alastor Moody. "Alguns pães enfiados em uma cestinha mínima, alguns frascos de poções, fluidos diversos e água, incontáveis livros e pergaminhos de pesquisa, uma corda enrolada em uma varinha de madeira e mais algumas quinquilharias que poderiam ser úteis". :eek:
No segundo capítulo, é dito que o caminho entre Venore e Ab'Dendriel é longo, mas que demoraria apenas alguns dias de caminhada... isso ficou realmente estranho. E, se o caminho entre essas duas cidades for curto, o continente é um ovo (levando em consideração a quantidade de squaremeters encontrados no jogo).
Angela é uma personagem realmente estranha. Não entendi qual é a dela e não consegui simpatizar. Muitas vezes, personagens cativantes são motivos suficientes para acompanhar uma história. Espero que você consiga reverter esse quadro.
Acompanhando.
Sobre a bola de fogo, não é necessário se usar um objeto exatamente igual na descrição. Por exemplo, você já mencionou que é uma bola, então agora é só dar uma idéia do tamanho, e não da forma. O que não é tão difícil. Por exemplo, uma bola de fogo do tamanho de uma cabeça humana.
~~
Sobre o capítulo 3.
Achei o diálogo entre Angela e o Minotauro inverossímil, poderia ter sido melhor trabalhado.
Eles cruéis. Eu não.
Aqui, parece que foi o único momento em que você realmente se lembrou de que era um Minotauro falando. Nada contra um Minotauro intelectual, mas no próprio texto você deu a entender de que não era esse o caso:
Até agora Angela não compreendia porque se solidarizara com o minotauro. Se era por causa do modo engraçado e sério como falava, cortando frases quando não devia e falando coisas incompletas
Entende? Parece que Angela foi a única a achar que ele cortava frases quando não devia e que falava coisas incompletas. Ele fala melhor do que muita gente que eu conheço.
Você caiu e eu o destruí.
Se o Minotauro não dominasse tão bem a nossa língua, nunca falaria o destruí por exemplo. Falaria destruí ele, destruí a caveira... mas não o destruí. Muito menos a trouxe.
Acho que, no início, as falas do Minotauro eram mais monossilábicas e curtas, mas em um determinado momento você se esqueceu de que ele era apenas um Minotauro. No final do diálogo, tentou retomar as características rústicas de sua fala, mas aí não soou legal.
Sobre Angela, tenho opinião semelhante a do Emanoel. Ela ainda não me convenceu como protagonista.
No mais, o capítulo foi bem escrito, bem detalhado e não revelou muita coisa.
Esperando o próximo capítulo. :happy:
Manteiga
26-07-2009, 18:56
Vejamos...
@Emanoel
Obrigado pelos elogios e por passar por aqui :p Bom, quanto a mochila de nossa cara amiga bruxa... Bom, de fato ela é um pouquinho... Cheia?! Eu sempre fiquei pensando como os personagens tibianos conseguem viver carregando tanta coisa nas mochilas. E imagino o tamanho deles. Agradeçam todos que não fui super fiel, ou teríamos varas de pescar e pás saltando das mochilas alheias! De qualquer jeito, acho que se ela enfiar bem as coisas e aproveitar o espaço dá sim pra caber um cestinho pequeno, uns frascos e uma varetinha pequena com uma corda. Os incontáveis livros acho que foi mais um exagero meu, mas... Enfim, ela é uma bruxa. E nunca se sabe...
Sobre as distâncias, é, tlavez não tenha soado legal. Mas vejamos: A é bem longe de B, mas daria pra se chegar em pouco tempo se a viagem fosse feita integralmente. Ou talvez não, eu posso ter realmente escrito uma coisa sem nexo num momento de devaneio '-' E sobre a Angela, bem, eu não esperava mesmo que todo mundo caísse de amores por ela logo de cara. Ela é uma personagem insólita e esquisita, que faz rituais, vive isolada e esconde muita coisa. Eu a fiz justamente para ser meio... Pancadinha. Mas que ela tem motivos pra ser assim, ela tem. O curso da história deve mostrar isso.
@Steve
Vou deixar a bola assim então :x Os diálogos da bruxa com o homem-touro realmente, analisando melhor, foram estranhos devido as falas do próprio corno (uy). Vou arrumar isso nos capítulos já escritos e não postados (pois crieo que o erro se repita nestes) e arrumar de um modo que ele de fato fiquei pseudo-retardado na fala humana.
Obrigado por passar e comentar :p
--
Capítulo quatro sairá mais cedo, talvez terça ou quarta. Quero postar antes para "compensar" a demora do capítulo três e retomar o curso de postagens. Depois disso normaliza.
Que acham?
Manteiga.
Os incontáveis livros acho que foi mais um exagero meu, mas... Enfim, ela é uma bruxa. E nunca se sabe...
Bem, se ela foi capaz de reforçar o vestido com magia anti-rasgo, acredito que abrir espaço na mochila não seja um grande desafio. :P
Capítulo quatro sairá mais cedo, talvez terça ou quarta. Quero postar antes para "compensar" a demora do capítulo três e retomar o curso de postagens. Depois disso normaliza.
Que acham?
Acho legal. A seção está monótona, talvez o bom andamento de sua história anime outros escritores. Por outro lado, a pressa é inimiga dos comentários.
Manteiga
29-07-2009, 13:53
Talvez uma postagem prematura, mas quero aproveitar o momento da seção e retomar o ritmo da história. Segunda deve sair o capítulo cinco, e então voltaremos ao velho ritmo de um capítulo por semana. Esse aqui pode ter ficado pior que os demais, mas mesmo assim gostei dele, pois sinto que fiz um bom avanço com Angela e Zoroast.
Capítulo Quatro
Em Direção do Amanhã
Angela acordou graças ao forte cheiro de fumaça vindo de algum lugar próximo. A princípio acreditou veementemente ter sido atacada por feiticeiros mortos-vivos durante a noite, e que eles haviam posto fogo na tenda. Sentou-se rapidamente na esteira de bambu – sentindo o ferimento protestar fortemente – e coçou os olhos com força, obrigando-se a acordar completamente. Tateou às cegas do lado esquerdo da cama improvisada e encontrou a varinha de energia, a qual puxou para perto de si. Pegou ainda o chapéu alaranjado que deixara junto da arma. Foi só então que percebeu a claridade excessiva.
Uma forte luz esbranquiçada vinha de todos os lados e tomava sua cabeça impetuosamente, fazendo-a girar. Resmungou e fechou os olhos, tentando fugir da claridade. Ficou em pé, meio cambaleante pelo sono e gritou de raiva, ainda sem entender por que. Abriu as pálpebras novamente e finalmente conscientizou-se da inexistência da tenda avermelhada na qual dormira. Deu pela falta ainda das sacolas cheias de qualquer coisa, do toco, da mesinha e do criado-mudo. Buscou pelos campos ao sue redor – completamente secos e vazios – por Zoroast, e encontrou-o a poucos metros de distância, perante uma fogueira carregada de tranqueiras. A chama alaranjada e quente que dançava sobre tais coisas facilmente ultrapassava os três metros de altura. Dela rodopiava uma longa coluna de fumaça preta e espessa.
- O que raios está acontecendo aqui? – Disse ela com um tom pouquíssimo eloquente, o que era anormal à sua pessoa. O minotauro virou-se calmamente e examinou-a. Resmungou alguma coisa na sua língua antes de responder.
- Fogueira. – Disse simplesmente, voltando-se para seu fogo. Chutou algumas sacolas cheias para o meio de tudo aquilo e observou enquanto línguas de fogo consumiam-nas com gratidão.
- Eu sei que isso é uma fogueira. – Angela começou a andar em volta do minotauro para encará-lo de frente. Percebeu estar se exaltando um pouco, então parou e respirou fundo. Os últimos acontecimentos estão me alterando muito. Não costumo ser assim, nervosa, estressada... – O que quero saber é por que está fazendo uma fogueira!
- Sumir sinais de habitação. – Zoroast falou com um tom bruto como se aquilo fosse óbvio, mas anormalmente não travou durante a frase e nem errou nenhum fonema. Angela ergueu uma sobrancelha e voltou mancando para a esteira, onde pegou sua mochila cinzenta e puxou um pão seco de dentro dela. Mordeu-o com uma careta e sentou-se. – Não problema fogo crescer. Caveiras já for embora.
Uma surpresa inesperada tomou conta da bruxa enquanto terminava sua pavorosa refeição. Engoliu os restos de seu alimento com dificuldade antes de fazer seu comentário.
- Sério? Quando foi isso? E pra onde foram? – Falou enquanto tentava deglutir tudo. Fuçou na mochila um frasquinho de água que entornou na boca, esvaziando-o por completo.
- Perguntas demais. – Zoroast deu a volta na fogueira para checar tudo e chutou algumas madeiras para o meio do inferno controlado. - Madrugada. Antes de eu dormir. Foram pra lá. – Ele apontou na direção do pântano, indicando certamente a cidade de Venore. Angela engoliu em seco e fitou os pés por alguns instantes. Brincou um pouco com os sapatos de coco e jogou os cabelos para trás.
- Desculpe pelas perguntas. Sou meio curiosa mesmo. Eu gosto de saber o máximo possível sobre as coisas que me dão interesse, e neste momento, tudo que envolve o Pentágono de Yöer me interessa. – Ela forçou um sorriso, tentando ocultar a preocupação com o que ocorreria com sua amada cidade.
- Muito falante também. – Completou o minotauro, emitindo um som estranho que Angela quase interpretou como uma gargalhada. Duvido que Zoroast ria...
- Prefiro pensar que me comunico bem por intermédio das palavras. – Ela riu de novo, mas parou subitamente quando constatou que o ser homem-touro não a acompanhava. Resolveu mudar de assunto. – Pra que vai queimar todas as suas coisas? Até a tenda você carbonizou!
- Ir embora.
A resposta pegou a bruxa de surpresa, como quase tudo que envolvia aquele minotauro.
- Para onde? Mintwallin?
- Não. Pro norte. – Zoroast parou e se aproximou um pouco dela, fitando-a com aqueles olhos negros brilhantes. – Terra-mãe foi atacada pelo Pentágono não poder ir lá. Os minotauros indo pro norte. Zoroast vai também.
- Também vou pra lá. – Ela se ergueu e colocou a mochila nas costas com extremo cuidado, evitando tocar o container no ferimento. Limpou algumas migalhas do vestido e arrumou o chapéu na cabeça. – Mais precisamente para Ab’Dendriel. Os elfos são meio reclusos, mas tenho um amigo que pode me ajudar.
- Fazer o que depois? Matar os que mataram sua amiga?
Angela não havia parado para pensar nisso. Tal ato significava envolver-se em uma teia de sentimentos confusos e de idéias absurdas que engoliriam ela sem piedade e a fariam alterar-se. Detestava ter que matar ou até mesmo ferir qualquer ser vivente, mas o faria se não tivesse outra opção. E ela sabia perfeitamente que entrar naquela guerra significava essencialmente modificar por inteiro seu jeito pacífico e eremita de ser.
- Não pensei nisso. Só quero ir embora daqui. Prefiro sinceramente nem me envolver nesse conflito desgraçado. Só queria poder ficar no meu canto, com as minhas ervas e as minhas poções.
- Zoroast quer ficar fora também. Mas matar da minha raça, e devo matar quem o fez. Código de honra! – Ele disse isso e no instante seguinte bateu no peito bufando. Voltou para a fogueira e pegou um saco pardo aparentemente lotado de quinquilharias. Havia uma corda na boca do saco, a qual amarrou no cinto, na parte da cintura. – Irei com você para norte. Mais seguro viajar grupo agora. Tropas da Sombra passar estradas.
- Mas os elfos não vão gostar de recebê-lo por lá! – Constatando que o minotauro fuzilava-a com os olhos, acrescentou: - Lamento a falta de eufemismos, mas é verdade! Se quiser viajar comigo vai ter que se acostumar com a minha personalidade meio... Insólita.
- Não ir com você para elfos. Só norte. Minotauros perto de Carlin. Ir até eles. Ir juntos um pedaço. – Dizendo isso, deu alguns passos a frente, como se indicasse que estava partindo. Angela acompanhou-o apressada, pois cada passo da fera equivalia a dois dela, mas logo sentiu as costas e rangeu os dentes.
- Droga. – Respirou fundo e fechou os olhos, buscando um ponto de fuga na sua mente. Quando encontrou-o, sussurrou, envolvendo-se em uma forte luz branca: - Exura Vita.
Sentiu o ferimento desaparecer por completo e um formigamento leve tomar a área onde este existira. O minotauro franziu o cenho.
- Não gostar magia. Não poder se curar antes?
- Podia, mas não achei que podia ser necessário. E acostume-se com a minha magia! – Feito isso, ela seguiu em frente, saltitando pela grama morta e cantarolando músicas bobas em idiomas estranhos. O homem-touro bufou e começou a caminhar a passos largos atrás dela, rumo ao desconhecido Condado do Norte. Seria uma longa viagem, e os dois teriam muito tempo para se conhecerem melhor.
E naquele dia, cedinho, com o sol ainda timidamente brotando no leste, os dois abandonaram suas terras. Quando o grande rei dos céus chegou ao topo do seu reino, com seu brilho incandescente transformando tudo em dourado, a dupla já se encontrava na orla das Planícies do Caos. Um lugar de grama seca que se confundia com o verde, árvores baixas e fortes com folhas cortantes e escuras. Havia pedras oblíquas e gigantescas espalhadas pelo cenário quente e desolador. O vento seco e forte que vinha do norte fazia as vestes deles esvoaçarem e levava ciscos aos seus olhos. Mas eles lutavam, mudos, parecendo cada vez mais decididos a chegar o mais breve possível aos seus destinos.
Evitavam as estradas e faziam poucas paradas, ficando sempre atentos a qualquer movimento incomum. As ações do Pentágono haviam espantado todas as criaturas tão comuns da região. Lobos, aranhas e cobras não existiam mais naquela área, e como quase ninguém ousava viajar naqueles tempos, qualquer agitação ou sinal de acampamento recente podia ser um indício de soldados mortos por perto. Nenhum dos dois estava disposto a enfrentar caveiras e mais caveiras, mas apesar disto eles não evitavam as viagens à noite, quando teoricamente seria mais fácil encontrar a morte. Queriam chegar depressa, mesmo que tivessem de se arriscar deste modo.
A cada poça de água ou riozinho que encontravam, enchiam frascos e odres até a capacidade máxima. Paravam apenas duas vezes ao dia para comer, ocasiões em que Zoroast caminhava alguns quilômetros em busca de algo para matar enquanto Angela pegava folhas, raízes e frutos próximos. Na manhã do segundo dia de viagens, quando já haviam se distanciado um pouco do antigo lar, encontraram restos de fogueiras e outras coisas como botas, armaduras velhas e amassadas e armas, tudo largado ao chão. Zoroast pegou uma lança suja e com a ponta enferrujada, mas que usou muito bem para pescar sempre que era possível. Angela analisou alguns restos de comida e constatou que haviam humanos – ou pelo menos seres-vivos – com as tropas.
- Provavelmente necromantes ou bruxos. – Ela disse ao companheiro de viagem na ocasião. – Vê essas pegadas? São de uma bota de humanos. E são recentes. Devemos sair logo de perto do deserto.
Um dia depois já haviam se afastado das areias alaranjadas e intermináveis do deserto de Jakundaf, um lugar árido e eternamente mortal para viajantes. As freqüentes tempestades de areia e quase total inexistência de oásis tornavam o lugar um verdadeiro repelente de formas de vida. Por isso geralmente a morte espreitava por aquele lugar. Continuaram andando, e dois dias depois já se viram em meio a dois caminhos de barro disforme que se uniam em direção ao norte. Estavam chegando perto da divisa dos dois condados nos quais o continente havia sido repartido.
Falavam pouco. Quase nunca trocavam olhares ou gestos amigos, ficando quase que sempre como se estivessem viajando sozinhos. Só trocavam longas conversações quando encontravam vestígios de tropas ou de animais. Quando viam as próprias caveiras fazendo suas rondas, escondiam-se habilmente graças as habilidades de Angela, que usava suas “feitiçarias absurdas”, como definia Zoroast. Evitavam ao máximo confrontos, que só ocorriam com raros lobos ou outros animais fracos que achavam em seu caminho. Apesar de tudo, Angela sentia como se tivesse uma dívida com o minotauro, e talvez por isso imaginava-se próxima dele. Sabia que iria se sentir mal caso ele morresse no meio da travessia. Realidade essa que se tornava cada vez mais possível enquanto se aproximavam das estradas.
Depois de seis dias de uma viagem longa e complicada, na qual faziam rotas e voltas inúteis para evitar exércitos inteiros, eles se viram chegando à fronteira. Era demarcada pelo profundo Rio do Meio, que formava um arco contido à beira da mais alta de todas as montanhas do mundo: A Grande Velha. Ela nada mais era do que um emaranhado escuro e pedregoso de rochas empilhadas que formavam paredões cinzentos e ásperos com incontáveis milhares de metros de altura. O labirinto rochoso era o lar de diversas criaturas e de segredos tão antigos quanto o tempo. Mas acima de tudo, era o lar dos anões. Metros e metros abaixo da montanha ficava Kazordoon, a cidade mãe deles. Mas todos foram embora... Só há refugiados agora naquelas terras quentes.
Perante a montanha, cortando o rio ficava a Ponte dos Anões de Kazordoon. A edificação simples de madeira fora construída sobre rochas e era a única passagem segura para o outro lado do rio. Sobre o térreo, claro. Havia túneis sinuosos e profundos abaixo deles que levavam até a cidade, mas eles não tinham como acessá-los dali. Outrora a ponte fora vigiada por anões, mas agora estava repleta de caveiras que emanavam trevas de si mesmas. Era noite alta, e os dois estavam escondidos na sombra das rochas que seguravam a ponte. Não havia luz nem das estrelas e nem da lua. Os únicos ruídos eram os dos mortos-vivos andando sobre eles.
- Como vamos passar? – Indagou a bruxa ao minotauro, que balançou os ombros e lançou-lhe um olhar inquisitivo.
- Você bruxa. Destruir eles!
- Mas eu detesto fazer essas coisas! E não é tão simples assim! – Ela protestou demasiadamente alto. As caveiras então pararam de andar. Zoroast praguejou baixinho e olhou para cima, buscando algo. Levou a mão à maça pendurada na cintura e Angela segurou mais forte a varinha, como se esperasse um ataque.
Mas foi tudo muito rápido. Um som arrastado veio de cima da ponte e uma sombra disforme pulou dela e aterrissou perante eles, gritando palavras estranhas que a bruxa não conseguia entender. Então, vindas do além, dezenas de caveiras começaram a atacá-los e os segurar, enquanto a figura estranha de preto ria e recitava versos sombrios. Quando Angela pousou os olhos nele, percebeu sua pele pálida e os trajes que usava. E teve certeza de que era um necromante. Praguejou alto e tentou se soltar, mas era tarde demais: o feiticeiro já havia usado sua magia. E foi quando seus olhos começaram a se fechar involuntariamente, quando seus membros ficaram moles e sua mente parou de raciocinar que Angela lembrou-se de gritar.
Comentem =d
Manteiga.
Resolvi parar pra ler atentamente a historia, tentar entender mais esse espaço-tempo tibiano...
Até agora achei muito bom e bem feito, detalhes que o tornam quase reais e uma historia instigante no minímo. Fez ficar com vontade de ler o proximo capitulo.
Estou esperando mais uns capitulos pra começar a escrever meu texto.
Que saco ver que tu continua a se prolongar em Tibia. Realmente, por isso, fiquei com preguiça de ler.
Trecho de certo verso...
Há uma gafe aqui. Tu não pode chamar de verso coisas como poemas, cantos, estrofes, o que for, porque verso na verdade é apenas uma linha da coisa toda, e ali, vi mais de uma linha.
Nada a reclamar da escrita nos capítulos, parecem bons e tudo mais, mas eu em particular, não gosto dessas histórias repletas de magia inexplicáveis, sei lá porquê, mas magia em abundância deve fazer mal à saúde, era por isso que Gandalf raramente fazia coisas tão fodásticas assim. Sem contar, que principalmente, não gosto de elementos que distorcem toda uma história de Tibia, principalmente, que se for pra inventar algo, invente fora dele, pois assim parece uma idéia mais original.
Só li o primeiro capítulo e o enredo realmente não me agradou. É uma opinião pessoal e vou ler o resto depois, por que se eu li Harry Potter, por que não posso ler sua história?
Manteiga
29-07-2009, 19:18
Que saco por que? Se não gosta não leia, não estou com uma besta apontada para a sua cabeça lhe obrigando a ficar aqui.
Sobre a gafe, é, pode estar correto. Mas as palavras são coisas muito misteriosas e flexíveis, com diversos significados. O que me impede de começar a apontar para os tapetes da minha casa e os chamar de cachorro?
Se não gostou do enredo e detesta Tibia e "magias inexplicáveis", nem leia. Administre seu tempo escrevendo contos e coisas de fundamento.
Que tal um sobre o... Nordeste?
Manteiga.
Senta que lá vem história...
Antes de comentar o quarto capítulo, gostaria de focar em uma dúvida que compreende o segundo e o terceiro. Acabei esquecendo de escrever sobre isso nos posts passados, portanto emendarei nesse.
Afastou-se mais e mais das pessoas e meia hora depois de adentrar no pantanal, chegou a um campo aberto e longo, que se perdia no horizonte.
Angela foi atacada e acordou na tenda do minotauro. Só posso presumir duas coisas: a) ela andou de Venore até Plains of Havoc em trinta minutos; b) o minotauro caçava a muitos quilômetros de sua tenda e conseguiu voltar em menos de um dia. Assim como o já citado trecho sobre Venore e Ab'Dendriel, parece-me uma incoerência, pois mesmo se a contagem de tempo estiver incorreta (tendo sido horas ou dias e não apenas alguns minutos), pergunto-me como ela poderia ter desviado tanto do caminho. Levando em consideração a viagem de seis dias (no quarto capítulo), fica claro que o continente é bem pequeno, mas essa rapidez cheira a distorção geográfica.
Devo dizer que gostei do desenrolar de Em Direção do Amanhã, mas alguns aspectos decepcionaram.
A retirada da tenda, por exemplo, foi uma passagem realmente interessante. Desorientação bem narrada, convincente... entretanto, os dois primeiros parágrafos descrevem o mesmo acontecimento e a separação fez parecer que existe uma pausa – quando se trata de algo muito rápido, esse tipo de divisão confunde o leitor. Precisei reler para compreender que tudo ocorreu em alguns segundos, desde o despertar até o questionamento.
E por falar em partes confusas, afinal, por que Angela demorou tanto tempo para utilizar exura vita? No terceiro capítulo, ficou claro que seu ferimento "doía e ardia muito". Já no quarto, depois de sentir uma fisgada, não demonstrou dificuldade para executar a magia de cura. A pergunta do minotauro foi altamente plausível, mas a resposta dela foi muita estranha e sem sentido.
Por sinal, é difícil engolir a personalidade da protagonista, ora preocupada, ora boba-alegre, quase sempre superficial. Ela não parece sentir o suficiente, fica complicado entender e compartilhar do seu drama. Essa estranhice não seria ruim caso existisse uma "química" com outro personagem, mas Zoroast revelou-se o que a maioria espera do coadjuvante-montanha-de-músculos... bruto, calado, guerreiro honrado, enfim, estereotipado.
Compreendo que algumas magias de Angela não necessitam de grandes explicações, simplesmente por que fazem parte de eventos banais que não interferem no enredo, mas, quando o narrador afirma que "escondiam-se habilmente graças as habilidades", surge a inevitável pergunta... que habilidades são essas? Ficou no ar. E, querendo ou não, soa a fuga roteirística. Nesse caso, alguns detalhes tornam-se indispensáveis.
E, por último e não menos importante, o final me pareceu previsível e apelativo. Senti como se estivesse voltando ao fim do segundo capítulo. Cliffhangers nem sempre são eficientes, pois o excesso de tensão desgasta a narrativa. Conhece a sensação de estar sendo forçado a se interessar pela história, pelo destino dos personagens? Enfim, foi isso que senti quando o perigo surgiu aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.
Desculpe-me pelo enorme comentário, mas peguei o bonde andando e escrevi menos do que pretendia nos anteriores...
Apesar de ter criticado bastante esse capítulo e alguns aspectos de sua história, acredito estar diante de um ótimo roleplay, pois você escreve muito bem e consegue elevar o ambiente tibiano a um novo nível.
O texto é agradável e o clima de aventura contagia, mas falta profundidade, aquele "quê" capaz de tornar essa aventura única.
Manteiga
30-07-2009, 12:32
Posts seus sempre são bem-vindos Emanoel, tanto faz se são grandes ou não :D [+ puxando o saco] Sobre essa questão do tempo que você citou, eu só me toquei que escrevi meia-hora agora. Eu uso MUITO meia-hora no cotidiano, qualquer coisinha eu uso esse marcador de tempo, mesmo que nada tenha com a realidade. Devo ter passado isso para o texto e escrito o resto sem perceber, o que soou estranho. Obrigado por apontar, vou editar esse deslize.
Quanto aos nossos dois amigos, vou começar falando de Zoroast. De fato, ele tem o bom estereótipo do companheiro bruto e bocó que só tá ali pra fazer número e que provavelmente sai da história na terceira temporada porque ele é chato. Mas eu não posso fugir disso, como personagem ele está sim estereotipado. Mas como minotauro eu o vejo bem mais inovador, só pelo fato de auxiliar um humano. Mas ele é um personagem com um grande futuro planejado, e posso garantir que ele fará grandes avanços que o mudarão completamente.
Já Angela vem a ser o grande problema da história. Há tempos eu tentava compreender os comentários e pensar em como fazer para torná-la a protagonista que eu precisava. E finalmente chego ao ponto da iluminação: ela não é suficientemente humana. Ela é controversa, estranha, não é o tipo de pessoa que se espera como protagonista. E esse "estranhismo" todo com ela era de fato esperado por mim. E vai se manter até chegarmos ao ponto onde mergulharemos nas raízes da história da personagem, onde enfim vamos ver o porque disso. Os próximos capítulos devem trazer mais de sua personalidade e definí-la melhor. E irei fazer o possível para humanizá-la o suficiente.
Quanto ao fim do capítulo, talvez tenha ficado chato mesmo. Mas foi o melhor jeito que encontrei para levar aos acontecimentos do capítulo cinco e para mostrar que de fato o Pentágono está fechando o cerco.
Manteiga.
Mais um capítulo bem escrito.
Ao contrário do Emanoel, gostei de Zorast. Acho que no outro capítulo, com aquelas falas, ele era um personagem sem carisma, quase um robô. Já nesse novo capítulo, com seu espírito rústico, ele tornou-se mais interessante. Estereotipado? Sim, mas e daí?
Sobre Angela, minha opinião se mantém, e, nesse ponto sim eu concordo com o Emanoel. Volto a dizer: ela ainda não me convenceu como protagonista.
No mais, adoro viagens que duram dias. Em qualquer texto. Sempre me fazem lembrar da jornada de Frodo e companhia.
Até. :happy:
Mais um capítulo bem escrito.
Ao contrário do Emanoel, gostei de Zorast. Acho que no outro capítulo, com aquelas falas, ele era um personagem sem carisma, quase um robô. Já nesse novo capítulo, com seu espírito rústico, ele tornou-se mais interessante. Estereotipado? Sim, mas e daí?
Sobre Angela, minha opinião se mantém, e, nesse ponto sim eu concordo com o Emanoel. Volto a dizer: ela ainda não me convenceu como protagonista.
No mais, adoro viagens que duram dias. Em qualquer texto. Sempre me fazem lembrar da jornada de Frodo e companhia.
Até. :happy:
Excelente crítica rapaz, estou de acordo com vc ;)
Elite Sorcerer
02-08-2009, 00:25
Ótimo capítulo! :P
Realmente esse minotauro é uma personagem cativante. Gostei da personalidade dele xD
Capítulo 5 plz :rolleyes:
Muito bom, Manteiga.
Eu tava até comentando outro dia com pessoal no chat do seu talento pra escrever histórias divertidas. Mas nem tudo é um mar de flores, acho que você ainda precisa melhorar a construção dos seus personagens, acredito que o desenrolar da história permita isso, só estou avisando para depois não ser tarde demais.
Não vou ficar generalizando aqui, esse último capítulo foi bem escrito, apesar da velocidade nos "intermédios" eu gostei. O final ali era pra criar um clima de "continua" que eu não gosto, mas ai fica a gosto do autor.
Enfim, estarei lendo. Parabéns.
Thomazml
04-08-2009, 16:41
MT Roooxxxx CoNtiNua PLZZZZZZ
+fake
Gostei bastante da sua história manteiga. Eu já disse, na outra narrativa que você NÃO acabou, que só por ter sido escrita por você e por se tratar de Tibia, já tenho garantia de uma boa história. Alguns erros ortográficos normais (que logo esqueço) que não comprometem a beleza do todo. Gosto do Tibia "aumentado", também o uso em minhas histórias.
Nunca gostei da Ângela, e continuo não gostando. Personagem pouco carismática, mas fazer o que?
No último capítulo, porém, a parte final - quando eles são atacados - ficou bastante confusa para mim.
Esperando novo capítulo...
EDIT
Obrigado, lendo sua história, me deu uma imensa vontade de continuar "A História de Ralf Greenwood". Vou tentar continuar a escrever.... só não vai desistir e deixar esta história inacabada!
Manteiga
05-08-2009, 01:11
Atualização :D O próximo capítulo deve sair só semana que vem, estou postando agora para recuperar o tempo perdido, bem como vocês sabem. Este é um capítulo com menos ação e potencialmente inútil. PLanejei umas mil coisas pra ele, mas preferi deixar desse jeito. Serve mais para tentar salvar Angela. Esse capítulo faz um avanço que permite o capítulo seis, sendo que os dois falam mais de Angela como personagem. Espero ter humanizado mais ela. E espero que vocês gostem um pouquinho mais dela depois que esses dois capítulos passarem :x
Capítulo Cinco
A Face Nua
Trevas eram emanadas de todos os cantos da escura e picotada sala circular de terra onde eles estavam. Por razões desconhecidas um frio espectral e uma sombra eterna e depressiva vagavam pela mente e pela alma daqueles aprisionados ali. Aquela dimensão sombria era habitada apenas pelos sons de um tilintar metálico de correntes colidindo-se umas com as outras e com as pedras pontudas das paredes.
Resmungando, Angela foi lentamente abrindo os olhos cinzentos. Foi registrando a forma circular do ambiente, o solo barrento e alguns móveis e objetos irreconhecíveis pela ausência quase completa de luz. A única iluminação era feita por duas tochas secas tomadas por um fogo azul pálido e contido, que tinha vergonha de impor-se naquele ambiente hostil. Ela sentiu um gosto agridoce na boca que fazia a cor púrpura entrar com força em sua cabeça. Meio desnorteada, virou a cabeça para os lados com uma lentidão tediosa em busca do companheiro meio humano e meio besta. Encontrou-o ao seu lado esquerdo, acorrentado pelas mãos à parede, exatamente como ela. Sentiu o metal cortando seus pulsos e o desconforto finalmente tomou conta dela. Foi despertando para a consciência aos poucos, até perceber-se completamente lúcida.
Forçou a visão para algo grande no centro de todo o lugar e constatou ser um grande balcão provavelmente de madeira, passado transversalmente ali. Sobre ele haviam coisas que pareciam ser livros, pergaminhos e uma pilha de quinquilharias irreconhecível. Exceto pelo seu chapéu, completamente discernível no topo da pilha. Mas que droga! Nada disso deveria ter acontecido! Já fora aprisionada antes, mas algo dentro dela dizia que dessa vez as coisas poderiam ser muito piores. Por alguma razão o Pentágono estava atrás dela. O que acabou mudando completamente sue jeito de ser, pensar e viver. Queria a calmaria do pântano de novo... Queria evitar essa guerra e poder voltar aos meus trabalhos!
As correntes de Zoroast colidiram com a parede provocando um som alto e que ecoou longamente. O minotauro despertou e resmungou, falando algo em sua língua logo em seguida. Tentou soltar-se à força, mas após perceber que era inútil, bufou alto e começou a chutar algumas pedrinhas próximas.
- Zoroast! Pare com isso! – Repreendeu Angela em um sussurro quase inaudível. Sua sorte era que os minotauros tinham uma boa audição. Ele parou e rezingou baixinho.
- Estou com raiva. Quero sair. Vou arrancar correntes! – Trovejou ele tentando soltar-se novamente, como se fosse um ser irracional. Talvez seja, maldosamente pensou a bruxa enquanto soltava um longo suspiro. De fato, seus amplos conhecimentos sobre quase tudo não chegavam ao estilo de pensamento dos minotauros, o que poderia ser uma perda lastimável. Devo pesquisar sobre isso depois que tudo isso acabar. Só não posso agora ficar depressiva! Procurou analisar o material das correntes por um tempo enquanto o companheiro ficava se remexendo debilmente. Decorreram longos minutos até a fera se cansar e, ofegante, voltar-se para a humana.
- Pode tirar nós daqui? Usar magia. – Disse ele, demorando um pouco antes de proferir a última palavra, como se evitasse pronunciá-la. Angela encarou-o longamente enquanto lambia o céu da boca. Após certo tempo, chegou a uma triste conclusão que demorou em anunciar a Zoroast.
- Não. Me deram uma Poção de Anulação Mágica. Posso tentar mil vezes, mas feitiço algum vai se realizar enquanto eu não beber um antídoto. – O minotauro ouviu tudo e fez uma expressão de espanto quando a bruxa terminou de falar.
- Como saber disso?
- Acredite em mim. De poções eu entendo. O gosto na minha boca e a cor que ele me lembra são bem característicos deste tipo de poção. Ou é isso ou eu bebi suco de limão com beterraba, mas acho improvável. – Ela deu uma risadinha que não foi compartilhada. Preciso me acostumar com a seriedade dele. Mas uma ironiazinha não faz mal a ninguém!
- O que nós fazer? – Indagou o minotauro enquanto tentava pela milésima vez se libertar usando a força.
- Não faço idéia. Mas pode parar de ficar forçando as algemas. Devem ser enfeitiçadas. Pelo menos seria bem a cara do Pentágono fazer isso, não acha? Apesar de conviver a pouco tempo com essa realidade, fica bem óbvio o que eles são e o que não são capazes de fazer. Se ao menos eu pudesse usar magia...
Houve então um leve ruído, quase imperceptível na extremidade oposta da sala. Apenas Zoroast o ouviu, apesar de estar se movendo barulhentamente. Pensou alto na sua língua-mãe e apertou os olhos na direção da sombra sem fim, buscando qualquer indício de presença de caveiras ou qualquer outra coisa capaz de produzir sons. O que viu o deixou desconcertado. Paradas perto de uma escadinha quase que o tempo todo estavam duas caveiras fortemente armadas e protegidas por amaduras pesadíssimas. O que as entregou foram as quase indiscerníveis sombras projetadas na parede pelo fogo fantasmagórico.
- Ter caveiras lá. – Disse ele indicando o outro lado com a cabeça.
- Eu suspeitei. Eles não seriam loucos a ponto de nos deixar sozinhos aqui, seriam?
O minotauro bufou.
- E agora, que fazer?
Angela baixou a face e deixou os cabelos negros caírem, ocultando a face. Começou a resmungar e a fitar os sapatos de coco, até que repentinamente ergueu a cabeça e explodiu em palavras.
- Eu não sei!... EU NÃO SEI DROGA! – O grito ecoou pela sala. Houve uma movimentação anormal do outro lado, causando um tilintar metálico que perdurou por alguns segundos, mas logo se perdeu no mar de frases que saltavam da boca de Angela. – Droga, é tudo culpa minha! Se eu não morasse com Wyda provavelmente o homem-corvo desgraçado nunca teria a matado! Ou se eu tivesse demorado mais na cidade eu poderia chegar lá e ele já ter partido... Eu não precisaria ter fugido então! E se eu não tivesse gritado daquele modo na ponte não estaríamos aqui!
- Não culpa sua... – Disse baixinho o minotauro que olhava nervosamente de tempos em tempos para o lugar aonde deveriam estar as caveiras, agora imóveis.
- Você não entende Zoroast. Tudo é culpa minha sim. Tudo graças a essa minha existência maldita e falsa! Eu tive uma longa e dolorosa vida, fada a aceitar a morte de pessoas queridas e a me tornar aquilo que eu não queria! O tempo juntou tudo isso e lapidou em uma máscara maldita, na qual eu lamentavelmente me escondi... E por medo! Medo! Eu me escondi atrás de uma Angela ridícula, metida a sábia e insensível por medo de tropeçar e cair! E sabe por quê? Por que eu não iria conseguir me levantar. Eu sou uma fraca, medrosa e infeliz. E sempre vou ser!
Pairou um longo silêncio depois que os gritos de Angela finalmente retiraram-se da sala. Ela ficou fungando por algum tempo enquanto o minotauro tentava formar uma frase em sua mente para tentar confortá-la. Quando decidiu-se pelas palavras, começou a proferi-las em um tom mais alto.
- Pois poder mudar agora. A máscara cair, ser agora outra bruxa. Ser sábia e calma, mas ser sensível. Ser humana.
- Eis o problema... Eu não consigo expressar o que eu sinto Zoroast... Eu sou muito artificial. Que droga, que merda de vida! – Gritando, ela chutou o chão com força, provocando um baque contido. Tal movimento fez voar uma pedra que estava parada ali na direção de uma das tochas. O projétil improvisado acertou o equipamento derrubando-o sobre uma mesinha de madeira coberta por papéis próxima. O fogo azul e outrora fraco cresceu e consumiu a mesa com vontade, passando depois para algumas estantes e para o balcão principal. Logo, todo aquele pedaço da sala estava mergulhado nas chamas mágicas.
- Há! Que ótimo, agora eu fiz mais merda ainda! Só eu mesma pra foder com tudo! – Falou Angela em um tom brutal e com os olhos fulminando os sapatos de coco. O minotauro olhava-a com uma expressão mista de confusão de ansiedade estampada na face. Decididamente nunca a vira tão alterada. Ela ficou resmungando e falando coisas auto-depressivas por algum tempo, até que o ser que a acompanhava encheu-se de tanta falação e urrou.
- Calar a boca, sim?! Ter que pensar sair daqui, não praguejar você! Quer ferrar mais coisas?
A bruxa parou o que estava fazendo e virou-se para o minotauro, encarando-o sem vida por alguns instantes. Foi revistando ele pelo olhar até perceber que o estava analisando profundamente, como se o visse pela primeira vez. Lembrou-se de como lidara com ele completamente desumana nos últimos tempos, como fora ingrata pelo fato de ter sido salva por ele e como pensara demais antes de fazer qualquer coisa. Viu nele um bom ser que só queria ajudar, do seu jeito rústico e irracional, de fato. Então começou a lembrar-se de toda sua vida. Das coisas difíceis, do incontável tempo que passara entre os elfos e como tentara se espelhar neles. Parou e começou a pensar. Eu sou humana. Não posso ser perfeita ou indiferente ao que ocorre aos meus semelhantes... Não posso fugir dessa guerra pois há muito tempo já me meti nela. Devo lutar... Por mim. Por Zoroast. Por Wyda.
- Tem razão. – Disse ela acordando de seu transe. Não podia mais submeter-se a fraquezas ou se esconder em sua máscara medíocre por medo de errar. Errar é humano, assim como sentir. E assim como eu! – Eu estava distraída demais vendo o lado pessimista de tudo. Mas eu não sou assim. Eu na verdade nem sei quem sou. – Ela soltou um risinho. - Mas eu sei que não posso fraquejar!
- Grande filo... Filosofia?! Mas como sair nós daqui?!
Houve um grande alvoroço do outro lado da sala e ambos viram quando o fogo avançou sobre uma das caveiras, consumindo-a. A outra rapidamente alarmou-se e saiu correndo escada acima, em um desespero notável.
- Não sei, e não estou me sentindo fraca por causa disso! – Angela disse animada, como se o fato de estar prestes a morrer carbonizada não significasse nada. – Mas eu vou nos tirar daqui. E rápido.
Ela voltou-se então para o resto do ambiente, buscando algo que pudesse ajudá-los a escapar. Encontrou o objeto de libertação pousado em cima da mesa, meio escondido embaixo do seu chapéu. Sua varinha branca estava apenas há alguns metros do fogo, e seu brilho costumeiro agora estava mais forte do que nunca.
- É isso. A varinha. – Ela indicou-a para Zoroast. – Se eu puder pegá-la, posso estourar essas algemas malditas e nos livrar daqui. Só não faço idéia de como fazer isso.
Mas ela não precisou pensar muito. As línguas de fogo azul tomaram as pernas do grande balcão e transformaram-nas em cinza. Com um forte rangido, o móvel cedeu, erguendo uma longa cortina de poeira. Os utensílios que estavam sobre ela foram arremessados em todas as direções, alguns até mergulharam nas chamas. A varinha simplesmente saltou no ar e cair no chão poucos metros à frente de Zoroast. Este alcançou a arma com uma das patas e chutou-a para Angela, que parou-a com um dos sapatos de coco. Enquanto o fogo dominava o ambiente, ela calmamente foi colocando – ou pelo menos tentando – a varinha entre os dois pés, erguendo-a em direção à sua cabeça.
- Ter certeza que funcionar? – Indagou o minotauro, que agora só assistia.
- Não. Eu posso errar e estourar a minha cabeça. E isso ia doer pra caramba. Mas não se preocupe, eu não vou errar. Não posso deixar você aqui para apodrecer por causa de um erro meu. Eu vou nos tirar daqui. – Ela então concentrou-se na arma e sentiu seu fluxo de magia. Virou a cabeça para a esquerda e deixou um espaço mínimo entre ela e a outra algema. Vamos Angela, você pode conseguir! A vida de Zoroast está em suas mãos! Ela soltou um berro quando uma mínima espiral arroxeada de energia pura saltou das argolas da arma, rodopiando com velocidade exemplar até a algema, acertando em cheio. O item soltou um chiado e estourou, libertando o pulso direito da bruxa. Ela comemorou e agarrou a arma com a mão livre, destruindo a outra algema. Massageou os pulsos e sentiu-se aliviada ao perceber que não estavam de fato cortados. Depois correu e soltou o minotauro, que agradeceu timidamente.
Com um calor infernal às suas costas, a dupla correu até o que sobrava do balcão principal e recolheu suas coisas apressadamente. Antes de partir, Angela pegou um certo livro de capa negra que estava ao lado de sua mochila. Eu e minha curiosidade! Depois correu junto com o minotauro para fora dali, emergindo pela escadinha tosca em um longo corredor de barro, que vinha a terminar em outra escadaria, esta feita na própria pedra. Subiram-na e sentiram-se reconfortados quando o sol banhou-os por completo. Ofegantes e suados pararam para respirar, enquanto olhavam ao seu redor. Estavam em uma grandiosa formação de pedra e barro com grama verde e viva por todos os lados. Era uma longa montanha cheia de barrancos e vales profundos. Distante, ao sul, estava clara a formação rochosa que era a Grande Velha. Olhando para o norte era possível ver uma grande floresta fechada e próxima do litoral.
- Vamos, temos que sair logo daqui. As caveiras podem voltar, ou até mesmo o necromante que nos atacou. – Ela então começou a correr para o leste, tentando chegar até a borda da montanha. Zoroast estava empacado.
- Não ir. Minotauros estar para o oeste. Ter de ir agora.
- Eu lamento muito Zoroast. – Disse Angela prontamente, como se esperasse tamanha teimosia do companheiro. – Mas eu não posso arriscar mais. Algo está me dizendo que será pior se você seguir para Carlin sozinho. E eu não posso permitir que algo ruim aconteça a você, não depois de tudo que fez por mim. – Ela fez uma pausa longa enquanto encarou o outro complacentemente. – Me desculpe meu caro amigo. Mas eu vou ter que te levar aos elfos.
Manteiga.
O que é uma sala "picotada"? Não consegui imaginar.
Deus ex machina. Expressão utilizada para designar – entre outras coisas – acontecimentos artificiais e altamente improváveis que ocorrem em obras de ficção.
Primeiro, a pedra acidentalmente "voa" – isso significa que era bastante leve – e derruba uma tocha (objeto que poderia estar preso em um suporte metálico [fixado ao chão ou parede], mas isso não fica claro no texto). Logo depois, as pernas (apenas as pernas) de um móvel são velozmente e convenientemente consumidas pelo fogo... e ele cede... e isso ocasiona no arremessamento de objetos em todas as direções (?).
Enfim, genuíno Deus ex machina, com os protagonistas sendo salvos por uma série de eventos forçadíssimos. Desculpe-me pela sinceridade, mas para uma história que possui a aventura como foco central, artifícios do tipo acabam sendo os grandes vilões: desestimulam e subestimam o leitor.
(O quote facilitará a explicação...)
Fiquei muito confuso com o balcão e a mesa. Cheguei a pensar que eram o mesmo objeto, mas depois percebi a incoerência...
Forçou a visão para algo grande no centro de todo o lugar e constatou ser um grande balcão provavelmente de madeira, passado transversalmente ali. Sobre ele haviam coisas que pareciam ser livros, pergaminhos e uma pilha de quinquilharias irreconhecível. Exceto pelo seu chapéu, completamente discernível no topo da pilha.
O chapéu está no balcão.
O fogo azul e outrora fraco cresceu e consumiu a mesa com vontade, passando depois para algumas estantes e para o balcão principal.
A mesa foi consumida pelo fogo.
Encontrou o objeto de libertação pousado em cima da mesa, meio escondido embaixo do seu chapéu. Sua varinha branca estava apenas há alguns metros do fogo, e seu brilho costumeiro agora estava mais forte do que nunca.
O chapéu está na mesa (contradição).
A varinha está na mesa (e não foi consumida pelo fogo!).
As línguas de fogo azul tomaram as pernas do grande balcão e transformaram-nas em cinza. Com um forte rangido, o móvel cedeu, erguendo uma longa cortina de poeira. Os utensílios que estavam sobre ela foram arremessados em todas as direções, alguns até mergulharam nas chamas. A varinha simplesmente saltou no ar e cair no chão poucos metros à frente de Zoroast.
A varinha está no balcão (contradição).
Erros de continuidade, objetos trocando de lugar. Lembrou-me uma cena do clássico A Clockwork Orange, além de tomadas psicodélicas que Lars von Trier adora filmar.
Não é uma crítica nem nada, só para comentar mesmo... Zoroast falando "praguejar" foi estranho.
Creio que esse foi o capítulo com a maior quantidade de pequenos erros. Por exemplo, assim como no anterior, você trocou "seu" por "sue".
E, na minha opinião, também foi o mais fraco. Realmente não gostei de nenhum aspecto. Torço para que você supere essas situações nonsense. Até o próximo.
Que bom que Emanoel me poupou do trabalho braçal, me resta então pegar a parte menos trabalhosa porém mais angustiante.
A personagem por nome Angela era até o momento intrigante, tinha um porque dentro de tudo o que ela dizia, no entanto acho que por causa dos comentários acabou-se colocando uma culpa sem tamanho sobre a personagem que acabou forçando-te a pensar que ela precisava de tal humanização.
Só que você acabou deixando-a forçada, muito mais robotica que minha maquina de lavar. Parece-me que ela tinha num momento enlouquecido quando na verdade de um momento pra outro ela tinha tudo em suas mãos. Minha dica é que você edite o capitulo e tente fazer outro de preferência totalmente diferente.
Um dos piores capitulos que eu já vi de sua pessoa.
Espero que retorne aos seus conceitos e concerte tudo novamente.
Desvendando a Sala Picotada, por Steve Do Borel.
Mapa da dita cuja:
http://img25.imageshack.us/img25/9859/analiseacadeiradecrista.th.jpg (http://img25.imageshack.us/i/analiseacadeiradecrista.jpg/)
Começando do começo.
A única iluminação era feita por duas tochas secas tomadas por um fogo azul pálido e contido, que tinha vergonha de impor-se naquele ambiente hostil.
Você não especificou aonde exatamente estavam as tochas. Vou supor que estejam perto dos dois prisioneiros.
A = Angela
Z = Zorak
M’s vermelhors = tochas
Forçou a visão para algo grande no centro de todo o lugar e constatou ser um grande balcão provavelmente de madeira, passado transversalmente ali.
L deitado e marrom = balcão de madeira.
Exceto pelo seu chapéu, completamente discernível no topo da pilha.
Seu chapéu está em cima do balcão. Não colocarei-o no desenho.
Observe que nesse ponto a descrição inicial acabou.
Depois de um diálogo entre os dois:
Paradas perto de uma escadinha quase que o tempo todo estavam duas caveiras fortemente armadas e protegidas por amaduras pesadíssimas.
C = caveira.
C = caveira.
Escada = escadinha.
Depois do ataque de TPM de Angela, outros objetos surgiram na sala.
O fogo azul e outrora fraco cresceu e consumiu a mesa com vontade, passando depois para algumas estantes e para o balcão principal. Logo, todo aquele pedaço da sala estava mergulhado nas chamas mágicas.
Quadrado marrom = mesa.
Retângulo marrom = estantes.
Vamos prosseguir:
Houve um grande alvoroço do outro lado da sala e ambos viram quando o fogo avançou sobre uma das caveiras, consumindo-a. A outra rapidamente alarmou-se e saiu correndo escada acima, em um desespero notável.
Observe que as caveiras esperaram o fogo chegar até elas. Mas deixa, elas são burras mesmo. E, como bons guardas, deviam estar dormindo. O que importa é que uma pegou fogo e a outra rapidamente fugiu e nunca mais foi vista (ou não).
Encontrou o objeto de libertação pousado em cima da mesa, meio escondido embaixo do seu chapéu. Sua varinha branca estava apenas há alguns metros do fogo, e seu brilho costumeiro agora estava mais forte do que nunca.
Em meio às chamas, Angela conseguiu avistar sua varinha embaixo do chapéu em cima da mesa. Mas não conseguia pegá-la, um empecilho que logo foi resolvido, como podem ver:
Mas ela não precisou pensar muito. As línguas de fogo azul tomaram as pernas do grande balcão e transformaram-nas em cinza. Com um forte rangido, o móvel cedeu, erguendo uma longa cortina de poeira. Os utensílios que estavam sobre ela foram arremessados em todas as direções, alguns até mergulharam nas chamas. A varinha simplesmente saltou no ar e cair no chão poucos metros à frente de Zoroast.
Eis a parte mais confusa e comprometedora do capítulo. O balcão se transformou em cinzas, utensílios voaram e a varinha, que estava na mesa, caiu perto de Zorast. Só para lembrar, havia ainda estantes entre o balcão e a mesa.
Antes de partir, Angela pegou um certo livro de capa negra que estava ao lado de sua mochila.
Enfim, Angela, que não havia notado nem onde estava sua varinha, no meio da confusão repentinamente achou um livro de capa negra e resolveu o pegar. E ele estava ao lado de sua mochila.
Nesse caso, eu teria que ler o capítulo todo pela quarta vez, coisa que não vou fazer. Mas não tenho certeza se a mochila já havia sido mencionada. Acho que não, embora possa estar errado.
E então a nossa dupla de heróis consegue enfim sair do conturbado recinto, pela escadinha.
Espero ter elucidado qualquer dúvida sobre a sala supracitada.
@Outros pequenos erros
Devo pesquisar sobre isso depois que tudo isso acabar.
Repetição.
- Você não entende Zoroast.
Não faltou uma vírgula antes de Zorast?
- Eis o problema... Eu não consigo expressar o que eu sinto Zoroast...
Denovo?
fada a aceitar a morte de pessoas queridas e a me tornar aquilo que eu não queria!
Fadada?
@No geral
Tirando a confusão da sala e os pequenos erros, o capítulo está inegavelmente bem escrito. Mas, dessa vez, a confusão foi grande.
Gastei tanto tempo pensando na sala que fiquei com preguiça de falar sobre Angela. De qualquer modo, esperarei outros capítulos para que sua personalidade se desenrole mais. Só quero dizer que não, você não salvou Angela, longe disso.
E também que, apesar de meus outros comentários, não acho que você deva salvar Angela, ou pelo menos não fazer um capítulo somente para isso. Um personagem sem carisma não necessariamente compromete uma história.
Em Senhor dos Aneís, por exemplo (e novamente esse exemplo), os personagens demoraram um bocado para adquirir carisma, e eu não larguei o livro nos primeiros capítulos por causa disso.
Até.
Kamus re
06-08-2009, 20:20
Fica até difícil comentar depois do Emanoel, mas...
Mesmo depois de tirar o atraso, achei que Ângela ainda ficou devendo. Você já deve estar de saco cheio de ouvir isso, mas sinto muito, repetirei até deixar de ser verdade.
Além disso, não se esqueça de trabalhar melhor os espaços dentro do Tibia. Olhe o mapa como se fosse de um mundo real, não de um jogo em que você cruza o mundo inteiro em 10 minutos.
Vou ter que ressaltar também a descrição de alguns cenários, como essa última sala, que me deixaram confusos.
E, aí é muito mais uma questão pessoal, não vejo os habitantes do mundo do Tibia usando os mesmos palavrões que nós. "Foder" e "ferrar" são, na minha cabeça, muito nossos. Mas lógico que isso pode ser piração...
Espero o próximo ;)
··Hail the prince of Saiyans··
Manteiga
13-08-2009, 14:24
Primeiramente, obrigado pelos comentários. Em segundo lugar, estou sem um monitor (os meus a Idade da Pedra Lascada têm o péssimo hábito de pifar) e então por tempo indeterminado terei de me afastar da seção. Creio que semana que vem eu consigo postar o cap 6, mas não garanto.
Em terceiro lugar, vou responder os posts. Como quase todo mundo citou esse negócio da Angela, vou falá-lo primeiro. Eu fui sim, e isso é inegável, influenciado pelos seus comentários e opiniões. Eu nem teria feito nada, pois, bem como o Steve citou, personagens podem demorar a criar o carisma (eu até agora não gosto do Frodo ._.). Mas eu vi de repente um nicho na história referente ao passado da Angela que me fez agir. Eram coisas que a tornavam mais contraditória e ruim. Comecei a mudar isso em tempo e pra isso tive de fazer esse exagero todo que lhes foi presenciado. Eu sei que é um saco falar essas coisas, mas os próximos dois capítulos cobrem esse nicho que eu achei e definemk de vez a Angela. E aí não será mais preocupação minha vocês gostarem ou não dela.
Outro ponto alto dos comentários (gerou até guia) foi a expressão picotada. Eu me expressei mal. Picotada = irregular. Fui mais claro agora? :s
Pra terminar, Kamus, também achei estranho usar esses xingamentos, tanto é que os evitei muito até então. Mas achei que em um momento de ódio como aquele em que ela interiormente se achava seria apropriado liberar isso. Talvez eu estivesse errado :x E depois que li o seu novo Ferumbras passei a imaginar melhor e farei o possível para trabalhar melhor o universo do jogo.
Pra terminar de novo (xD), tenho de admitir que a fuga de ambos foi muito forçada. Mas foi o melhor que pude encontrar para solucionar o problema que fiz. Isso que sirva de lição: não criar problemas que eu não saiba resolver lol.
Manteiga.
Manteiga
22-08-2009, 13:37
Eu lamento a demora, mas me foi difícil encontrar um modo de lapidar a rústica história de Angela. Devo dizer que o passado dela será uma incógnita provavelmente o tempo todo, mas que quando for revelado justificará tudo o que ela faz ou pensa. Como já disse, aproveitei seus comentários para preencher a tal brecha existente na lógica da personagem. Essa brecha era uma falta de lógica tremenda no porquê de ela ser tão fechada e insólita. Já costurei as pontas, e tudo deve ficar bem agora.
Esse capítulo ficou longo e cansativo, com poucos diálogos. Narra a chegada dos dois até a brilhante terra de Ab'Dendriel e apresenta mais um personagem de interesse. Algo sobre o passado de Angela é revelado. Mais comentários a respeito ao fim do post (com spoilers).
Capítulo Seis
Ab'Dendriel
Cada um seguia com seus fantasmas.
Zoroast ia atrás, fitando o chão e andando mais lentamente do que o habitual. Ora ou outra voltava-se para as árvores e as pequenas criaturas passantes, observando-as com simplicidade e um interesse forçado. Frequentemente resmungava qualquer coisa sobre o dia nublado que era aquele ou sobre seus cascos estarem sujos de lama depois da fuga dos dois. Falavam muito menos agora, e ambos sabiam que um clima tenso se estabelecera ali. Mas nada faziam para reverter a situação.
O minotauro sentia uma frustração enorme por não ter podido seguir para Carlin. Queria muito estar entre seus iguais mais uma vez e poder lutar contra aqueles que mataram sua tribo. Mas não era tolo. Sabia que jamais conseguiria chegar em segurança lá. As Tropas das Sombras estavam se aglomerando naquelas terras, principalmente naquele instante em que supostamente Catura, o grande rei do Condado do Norte, estaria retornando de uma longa temporada que passara em Ankrahmun. E estaria disposto a finalmente tomar sua porção da terra, fato que ainda não conseguira realizar. Seria burrice seguir sozinho até lá. Se tivesse sorte seria morto no caminho. Se tivesse azar, coisa pior poderia acontecer.
Passou então a encarar Angela enquanto ambos se embrenhavam na floresta escura que viram da montanha onde foram aprisionados. A bruxa habilmente cortava galhos e abria passagens, como se já conhecesse aquelas terras muito bem. De vez em quando começava a cantarolar como sempre, mas seu tom de voz era vago e sem vida. Não havia mais a alegria costumeira nela. Parecia ás vezes falar sozinha ou com o além, como se estivesse buscando respostas ou pensando em coisas que não importavam naquele momento. Ele queria poder ajudar. De algum modo, sentia-se tão próximo dela quanto de um irmão minotauro.
Já Angela evitava pensar no minotauro. Sabia que não tinha o direito de manipular o destino de alguém como estava fazendo, mesmo sem querer. Sabia que era insensatez levá-lo aos elfos, mas não tinha outra opção. Ou era isso ou ele morreria, e isso ela não poderia suportar. Desde que escaparam da sala irregular ela sentia uma bomba de sentimentos dentro dela, louca para explodir. Sua máscara de solidão e irresponsabilidade havia caído. Era agora alguém sem face. Esperava que Faluae pudesse a ajudar a encontrar seu eixo de novo.
O regresso à cidade dos elfos lhe era perturbadoramente reconfortante. Estaria de novo entre amigos indiferentes assim como ela. Veria seres reservados e potencialmente insensíveis, que buscam a perfeição acima de tudo sempre que fazem qualquer coisa. Estaria novamente entre seus semelhantes. Ou talvez não.
Queria poder voltar no tempo. Fugir de tudo aquilo. Do Pentágono, da guerra, das mortes, da confusão... Queria voltar aos tempos da calmaria. Voltar a viver no pântano. Um medo crescente e inexplicável, medo que ela nunca antes sentira, rondava-a, devorando lentamente sua lucidez. O medo se transformava em culpa, e então em fraqueza. Começou a reviver toda a crueldade que vira nos últimos dias, a perceber como evitara se importar. Pessoas estavam abandonando suas casas, deixando parentes para trás. Estavam abandonando histórias particulares e que podiam nada representar para ela, mas com certeza significavam muito em suas vidas. Pessoas comuns que nunca antes haviam lutado estavam agora morrendo e vendo a terra que achavam conhecer mudar, transformando-se em um antro de terror. Como pudera relevar tanta dor ao seu redor?
As pessoas desesperadas fugindo de Venore aos prantos, tentando buscar uma calma naquela tempestade mortal. A falsa calmaria na face de Ahamed que acreditava fortemente que podia lutar e vencer, pois sabia que se não fosse capaz de fazê-lo iria perder tudo que tanto amava. A solidão torturante de Zoroast quando se conheceram, como ele sofria calado pela morte de todos os seus companheiros e como devia estar sofrendo ainda mais por ter de partir com ela. Ela já não sabia mais o que sentir.
De repente, parou. A floresta fechada e verde que estavam percorrendo sumiu abruptamente em uma clareira plana e iluminada. Ela imediatamente reconheceu o lugar, enchendo-se de alegria. Da clareira erguia-se imponentemente um portão de madeira grosso e reforçado com diversos metais. Várias palavras estavam entalhadas em sua forma, todas elas em élfico. Raízes nodosas se enroscavam pelas toras que o formavam, brotando elas de uma grande e longa parede vegetal, que penetrava na floresta e desaparecia. Era rígida e verde como tudo por ali. Flores vermelhas e amarelas de várias pétalas e tamanhos enfeitavam a parede e o portão, exalando um aroma único e incontestavelmente calmante. Esporos amarelos rodopiavam naquele lugar de vento calmo e levemente gelado, varrendo as coisas ruins para longe. Angela foi sentindo-se invadida por memórias de sua infância passada ali, na cidade de Ab’Dendriel. A alegria e desejo de regresso aos tempos de ingenuidade eram fortes. Sua confusão cessou.
Já não havia mais porque fingir. Não havia mais porque ser uma bruxa reservada e que busca a perfeição, uma marionete de uma entidade maior que vivia dentro do seu peito. Vivera indiferente a tudo e todos por muito tempo, e sentia que ficaria louca se não rompesse seu casulo de hipocrisia logo. Viviam nela agora duas Angelas: a bruxa do pântano, séria e sábia, mas que não liga para nada. E a verdadeira Angela, que não se deixa abater, que sente e erra. Essa era quem ela queria ser. E era quem ela se tornaria ali, perante o portão de Ab’Dendriel.
- Me desculpe. – Disse ela virando-se para o companheiro que jazia quieto, encarando com certo desdém a parede viva. Ele não a encarou quando ouviu sua voz, mas ela insistiu em olhares até que ele retribuiu. Seus olhos negros estavam tempestuosos. – Não sabe como é difícil pra mim dizer essas coisas. Eu... Eu não costumo ser assim. Sabe, eu cresci aqui, no meio dos elfos. Não gosto de falar disso mas... Mas eu fui feliz aqui. Só que eu acho que... Sabe... Que um vazio cresceu comigo, mas dentro de mim. Eu nunca soube de verdade o que é viver, porque eu, humana, tentei por mais tempo do que posso contar viver como elfa.
Ele encarou-a com silêncio. O som de grama sendo amassada veio do outro lado do portão. Alguém escalou alguma coisa. Uma sombra apareceu entra algumas das raízes que formavam a parede viva.
- Sabe, eu não consegui me afirmar. Não sou a mais carismática das criaturas, e muito pouco sociável. É complicado pra mim liberar meus sentimentos. Eu prefiro assim. Mas quero que saiba que fico muito feliz por você estar perto de mim e... Queria lhe agradecer por aceitar vir até aqui e por salvar minha vida. É um amigo de verdade.
Ele resmungou e não disse mais nada, virando-se para examinar a trilha por onde haviam vindo. Angela suspirou e adiantou-se em direção ao portão. Confusa, examinou-o bem em busca de qualquer coisa que pudesse explicar sua existência. Isso não estava aqui no meu tempo. Passou os dedos carinhosamente pela madeira, exatamente onde estava escrito algo em élfico. Significa “Amigos são bem-vindos”. Ponderou por um tempo antes de se afastar da parede e olhar na direção da parede vegetal, confiante.
- Eu sou Angela, uma antiga bruxa que vivia na quietude do Pântano da Pata Verde. Parti daquelas terras distantes enfrentando muitos perigos em busca de abrigo e afirmação. Sou uma antiga moradora da cidade e grande amiga de muitos elfos que já viveram aqui. Peço permissão para regressar ao seio da terra onde cresci uma vez mais. Juntamente com o minotauro Zoroast. Peço que relevem qualquer indiferença entre as raças que possa ter existido, pois devo minha vida a este ser aqui presente. Peço do fundo de minha alma que o deixem entrar nestas terras. – Seu tom foi o mais formal possível. Falava e apontava, mas jamais retirava seus olhos cinzentos da parede. Até que houve um farfalhar do outro lado e o portão rangeu levemente. Uma voz leve como uma pluma e musical falou em um tom alto e imponente, saindo sabe-se lá de onde:
- Angela amiga-dos-elfos, sua presença nesta cidade é bem aceita por todos nós, mesmo nesses tempos difíceis e de desconfiança. Mas não podemos aceitar que o ser que traz consigo penetre em nossa floresta sagrada. Ele pode ficar nesta clareira, mas do portão não passará.
Sem nem pensar, ela simplesmente ficou rígida. Pegou a varinha e virou-se, aproximando-se do minotauro. Cochichou alguma coisa e então se virou uma vez mais para a parede, gritando:
- Então eu não quero ficar. Não irei dividir meu espaço com seres indiferentes e insensíveis como vocês. Prefiro ficar aqui e apodrecer.
Prolongou-se um longo momento de silêncio. O farfalhar cessou e então nenhum outro ruído foi ouvido do outro lado do portão. Angela fez uma careta e Zoroast cutucou-a, encarando fixamente a entrada de Ab’Dendriel.
- Não precisar isso. Poder ir, eu bem. Achar meu rumo. – Disse ele calmamente, em um tom mais carinhoso do que o habitual.
- Não diga isso. Eu não o irei abandonar aqui fora, é muito perigoso. Agentes de Yöer podem aparecer e matá-lo, ou fazer coisa pior. Eu não vou deixá-lo aqui fora para morrer.
Houve então uma movimentação anormal do outro lado. Não ouviram-se vozes, mas sons cortantes que interrompiam o vento. Houve então um grande rangido vindo do portão e este começou a dividir-se em dois, abrindo-se para o lado de fora. As recém-formadas portas de madeira ganhavam campo rapidamente, até que abriram-se ao máximo que podiam, deixando uma generosa abertura na parede vegetal. Angela e Zoroast afastaram-se um pouco e olharam fixamente para dentro da cidade no exato instante em que dela saía um elfo alto e de ombros largos, com braços e pernas compridos e uma cabeça triangular com um queixo redondo e orelhas pontudas. Seu nariz avançava imponentemente para frente até se dobrar minimamente para baixo. Tinha longos cabelos de cores adversas, sendo os fios ora dourados, ora prateados. Este estava transformado em uma longa trança presa com cipós que descia suavemente por suas costas. Tinha a pele muito branca e olhos verdes tal como são as árvores. Andava elegantemente com um suave balançar de ombros, como se dançasse interiormente em um ritmo calmo e eterno. Avançava com uma expressão de paciência tediosa pela clareira, até parar perante a bruxa de laranja. Ele usava vestes simples: uma túnica verde e longa que caía até os joelhos, calças de couro sem qualquer rasgo ou remendo, sandálias de madeira aparentemente desconfortáveis e que exibiam seus dedos. O que quebrava sua simplicidade era um monóculo com detalhes em ouro e extremamente limpo que cobria seu olho esquerdo. Angela reconheceu aquela peça de imediato.
- Faluae! Não tem noção de como é bom vê-lo! – Disse ela partindo para cima dele, abraçando-o energeticamente. Sorria de orelha a orelha e balançava o amigo enquanto o envolvia em seus braços curtos. Ele limitou-se a soltar um risinho e examiná-la com seus olhos calmos como uma tempestade em alto-mar. Os olhos verdes faiscaram como fazem as esmeraldas ao serem lapidadas após certo tempo.
- A alegria que tenho em mim é tão grande que mal posso narrá-la! – Disse o elfo em um tom contido e cortês, sem emoção evidente. Mas apesar disso, o modo musical com que falou e seu olhar denunciavam a sinceridade contida em suas palavras. Esse é o Faluae que eu conheço. Mestre nas palavras, nas entradas triunfais e na falta de emoção. Ela sorriu largamente e apresentou o minotauro ao amigo de longa data. Estes se cumprimentaram de modo frio e distante, como se pertencessem a mundos diferentes. Mas mesmo assim um grande avanço político ali foi dado, pois elfo algum ousaria dirigir a palavra a um minotauro. E Faluae o fez. Era um grande diplomata, vivendo isolado em sua casa na árvore com seus ideais revolucionários que só Angela sabia.
- Peço desculpas pelo modo hostil com que foram gratuitamente tratados ao chegarem até essas terras outrora tão acolhedoras. Mas peço também alguma compreensão, pois vivemos tempos tempestuosos nos quais não sabemos onde depositar nossa confiança. – O elfo fitou longamente o horizonte como se buscasse uma esperança longínqua. Se sentiu alguma coisa forte pelo reencontro ou pela sua terra, nada demonstrou. Depois de um momento de comoção contida, virou-se para o minotauro. – Conversei com os guardas e os convenci a permitir sua passagem para a nossa cidade. Não serei hipócrita de fingir que tudo estará bem, mas não quero que sinta-se mal pelos olhares que receberá; és meu convidado para entrar, e deverá ser tratado como um igual. Não deves ser punido por erros de antepassados, da mesma forma com que espero que não insulte-nos por nossos antigos. E saiba ainda que se és amigo de Angela, és meu amigo, e amigo ainda de toda essa terra. O que precisar, peça, sem acanho. Será-lhe dado com louvor.
Ele virou-se e passou a andar triunfantemente rumo ao interior da cidade. Os dois seguiram-no, Zoroast sentindo-se um pouco mais confortável, mas ainda desaprovando mentalmente a idéia de compartilhar do mesmo pedaço de terra que os elfos. Angela narrou detalhadamente tudo sobre os acontecimentos, desde que viu Wyda morta até a fuga dos dois do Monte Fêmur. Faluae ouvia tudo atentamente, ora ou outra fazendo alguma observação boba. Enquanto avançavam pelo território verde, enchiam-se com a graça e o esplendor da cidade-árvore: havia campos floridos, pastagens, pomares e plantações por todos os cantos. As casas eram esculpidas habilmente nos grossos troncos das árvores que ali cresciam, ou construídas sobre as menores. A grama era escura e alongada, curvando-se em seu auge. Pássaros brancos e insetos mínimos brincavam por ela, ora ou outra parando para observar os passantes, como se indagassem a si mesmos o porquê de toda aquela movimentação naquela terra de gigantes. Um doce aroma floral emanava-se de todos os cantos, e uma explosão de cores era detectada em cada paisagem.
Por todos os lados da cidade, fosse cuidando de animais ou flores, arrumando lares ou simplesmente apreciando a leve brisa daquela tarde estavam os elfos. Eram todos perturbadoramente iguais: altos, elegantes e de cabelos longos e louros. Tinham sempre expressões ilegíveis cravadas na face como estacas no chão. Seus olhares frios e inflexíveis eram tenebrosamente aprisionadores, contendo uma silenciosa inquisição descuidadamente camuflada em uma aceitação imparcial, como se aquilo ora ou outra tivesse de acontecer. Felizmente eles não acompanhavam os viajantes com aqueles malditos olhos. Examinavam-nos lenta e completamente de modo a constatar tudo o que pudessem para dissertar sobre aquilo depois, colocando todas as suas críticas, opiniões e preconceitos na mesa. Mas logo voltavam aos seus afazeres, relevando a presença deles ali. Outrora Angela achara aquela frieza estranhamente acolhedora, alimentando dentro de si a esperança de um dia ser indiferente como eles. Mas agora via-os como estranhos sem alma, como marionetes de um perfeccionismo errôneo e infundado. Como pudera algum dia sentir-se tão integrada àquela cultura agora tão distante?
Caminharam até chegar em um ponto próximo da irregular costa leste da cidade. Era uma pequena campina verdejante e clara com alguns arbustos cercando-a. Não havia flores sobre ela, nem insetos, nem aves. O que havia era o que outrora fora um fogueira, bem no centro, e algumas esteiras de bambu seco, semelhantes a que Angela usara na casa de Zoroast, espalhadas ao seu redor. Existiam ainda algumas caixas e pacotes grandes e amarelados empilhados perto de alguns arbustos verdes e cheios de frutinhas azuis. Não havia elfos por ali.
Os três pegaram cada um uma esteira e sentaram-se nela, aproximando-se do que fora a fogueira. Faluae escolhera uma ao lado dos pacotes, bem em frente à Angela. Zoroast pegara uma e se afastara um pouco, ficando mais perto de alguns arbustos. Após acomodarem-se, Faluae iniciou a curta conversação que se manteria:
- Fico feliz que tenham conseguido escapar da mão negra do Pentágono. Escolheram sabiamente quando decidiram vir até aqui. Estarão seguros. Os elfos os protegerão mesmo sendo contrários à estada de Zoroast nestas terras.
- Obrigado por persuadir os guardas. Nunca teríamos entrado sem sua ajudinha. – Disse Angela sorrindo em seguida. Depois disso percorreu os locais próximos com os olhos e foi sentindo-se invadida por lembranças acolhedoras da infância passada ali. – Parece que foi ontem que vivi aqui. Mas já faz mais de duzentos anos...
Faluae sorriu complacentemente.
- No entanto pareces apenas ter quarenta. Decididamente a magia é uma coisa muito, muito estranha. Mas pelo menos temos a ela para nos auxiliar nesses tempos de necessidade. Precisaremos fazer muitas preces ao primeiro dos magos quando tudo isso acabar.
- Bem, como já lhe disse, eu já não conto com essa magia... Pelo menos não até fazer um antídoto que recupere minha energia mágica. Eu vou precisar de...
O elfo encarou-a secamente, fazendo-a calar-se.
- Não pense em problemas agora. Descanse. Despertaremos cedo amanhã para partirmos uma vez mais.
- O que...? Mas... Levamos dias para chegar aqui! Como assim? – Angela balbuciava as indagações atropelando as sentenças frequentemente. Faluae nada disse, apenas indicando as caixas e o que todos os elfos estavam fazendo: organizando-se para uma ida sabe-se lá para onde. Espero que eu não tenha cometido um erro. Aprendera a confiar nos elfos, o que de certo modo a deixou mais calma em saber que fizera uma longa e perigosa viagem para nada.
- Só lamento ter arrastado Zoroast para cá. Ele teria encontrado seu caminho para os minotauros mais rapidamente sem mim. – Disse ela por fim, deitando-se na esteira para encarar o céu cinzento e escuro daquela tarde tenebrosa. Logo irá entardecer. Prolongou-se um momento de silêncio em que nada se ouvia. A bruxa virou a face para encarar o local onde estava o minotauro e constatou que ele havia sumido.
- Foi andar pela floresta enquanto falávamos. – Disse Faluae então. Angela agora voltou-se para ele, encarando-o nos olhos misteriosos. – Quanto ao que disse agora a pouco, não creia nisso. Chegou até essas terras há uma noite a notícia de que os minotauros sumiram dos Campos do Norte, onde estavam escondidos. Rumores dizem que foram vistos aglomerando-se naquele lugar horroroso a leste daqui, a Pedra de Ulderek, aonde vivem os orcs. Talvez estejam formando uma aliança ou simplesmente buscando um refúgio. Ouvi alguns elfos comentarem que acham que os minotauros estão pegando barcos de lá para o continente de Darama. Eu acredito fortemente nisso... Há muitos minotauros vivendo naquelas terras, especialmente no norte do deserto. Deve ser o lugar mais seguro para eles agora. Não se preocupe. Conversarei com ele depois.
Após esta brecha da conversa, Angela fechou os olhos e procurou acalmar a mente em turbilhão. Tudo que ela se empenhara para realizar e evitar nos últimos tempos não existia mais. Ela mergulhara em um oceano profundo que um dia já conhecera, mas que agora era um mistério para ela. Não sabia dizer o que aconteceria em seguida, apenas que seria algo grande e inesperado. Deixou-se levar pelos espectros do cansaço até chegar ao reino dos sonhos, onde reviveu toda sua dor dos últimos tempos. O céu estava caindo bem em cima de sua cabeça, e não havia para onde correr ou se esconder. Talvez uma força maior estivesse comandando todo aquele jogo, manipulando cada um como se fosse um peão em um tabuleiro de xadrez. Angela chorou. Deixou as lágrimas descerem pelos dois lados de sua face como uma enxurrada enlouquecida. E enquanto isso acontecia e sua mente mergulhava no sono profundo e inconsciente, a bruxa lembrou-se de sua antiga amiga. E a última coisa que se passou em sua mente antes de o sono dominá-la de vez deixou-a mais humana.
Oh Wyda, será que é muito tarde para chorar por você?
Notinha: "Faluae" lê-se como "Falue"
--
Bom, só quero pedir que não se façam comentários sobre o fato de Angela ter tal idade ou de ter vivido entre os elfos. Isso será sim explicado algum dia, e eu não creio que crie uma situação insólita com isso, afinal falamos de Tibia. E devemos considerar que os elfos são muito mais propensos a se socializar no Tibia. E que a magia é de fato uma coisa muito estranha.
Espero que gostem.
Manteiga.
Parabéns pela história, Margarin...ops, Manteiga.
Brincadeiras à parte, gostei muito da narrativa.Porém, acho que você deveria evitar a repetição de palavras.Por exemplo:
tudo atentamente, ora ou outra fazendo alguma
Ora ou outra voltava-se para
Pássaros brancos e insetos mínimos brincavam por ela, ora ou outra parando para observar
uma aceitação imparcial, como se aquilo ora ou outra tivesse de acontecer.
Seu nariz avançava imponentemente para frente até se dobrar minimamente para baixo.
Essa descrição me pareceu estranha, talvez redundante.
Por favor, não abandone a história !
Aguardando o próximo capítulo.
Antes de mais nada, peço que deixe todos os comentários sobre o capítulo para o final do post. Algumas considerações adiantam informações sobre a história e até mexem com o subconsciente e prejudicam o julgamento do leitor.
As passagens com potencial dramático soaram insossas, simplesmente porque pareceram justificativas inadequadas para o comportamento da personagem.
De qualquer maneira, espero que você não se preocupe tanto com o nível de agradabilidade da protagonista. Forçar aproximação entre personagens e leitores é um erro, apenas esforce-se para criar alguém verossímil e interessante – o suficiente para que não cause aversão aos leitores e consiga sustentar a história que está sendo narrada. (Assim como você, também não gosto do Frodo, mas esse detalhe é irrelevante quando comparado a grandiosidade da aventura que foi protagonizada pelo mesmo.)
Sinceramente, o capítulo não foi tão animador quanto os quatro primeiros, mas superou bastante o quinto e apresentou ótimas descrições – ficou fácil imaginar a cidade élfica e os próprios elfos. Sinto que a narrativa ainda está fora dos trilhos, mas você possui base para mudar esse quadro em dois tempos.
Só para comentar: logo no início do capítulo, fiquei me perguntando quais eram as "criaturas passantes". No nosso mundo, seria uma curiosidade ilógica, porém estamos tratando com um universo desconhecido e essa questão acaba ganhando certa relevância.
Gosto das expressões metáforicas que utiliza, por exemplo: "os olhos verdes faiscaram como fazem as esmeraldas ao serem lapidadas após certo tempo"; "expressões ilegíveis cravadas na face como estacas no chão". Por outro lado, algumas descrições como "deixou-se levar pelos espectros do cansaço" requerem cuidado, pois inspiram sensações perceptíveis, mas, levando definições formais em consideração, não fazem total sentido.
Infelizmente, repetições que desembelezam a obra apresentaram-se de maneira constante:
Ponderou por um tempo antes de se afastar da parede e olhar na direção da parede vegetal, confiante.
o portão rangeu levemente. Uma voz leve como uma pluma
até que abriram-se ao máximo que podiam, deixando uma generosa abertura na parede vegetal.
E dois (possíveis) erros que encontrei:
Uma sombra apareceu entra algumas das raízes que formavam a parede viva.
entre
- Então eu não quero ficar. Não irei dividir meu espaço com seres indiferentes e insensíveis como vocês. Prefiro ficar aqui e apodrecer.
ficar nessa cidade / entrar / (?)
Era uma pequena campina verdejante e clara com alguns arbustos cercando-a.
Todas as fontes que consultei definem "campina" como planície/terreno extenso ("com vegetação herbácea"). Mesmo a palavra sendo considerada um sinônimo para planície (que permite definição mais abrangente), devo dizer que escrever sobre uma "pequena campina" é comprometedor.
Até o próximo.
Manteiga
29-08-2009, 14:39
Capítulo Sete
Atormentação
Dançava pelo ar fresco da manhã recém-chegada um aroma fétido carregado de morte. Trazia a perturbadora sensação de perigo inevitável, como se as Tropas das Sombras fossem saltar do meio da floresta a qualquer momento e invadir a cidade. Os moradores de Ab’Dendriel andavam pouco pelos campos e ruelas locais, olhando desconfiados para tudo que se movia ou respirava. Qualquer som ou vulto na escuridão podia ser uma ameaça, o que fez florescer entre os elfos o péssimo hábito de se preparar para atacar antes de perguntar.
Estavam todos reunindo-se perante o portão gigantesco. Eram meados das cinco horas da manhã. O sol pouco levantava-se no horizonte, mas mesmo assim sua presença era festejada com largos sorrisos, afinal ele não surgira no dia anterior. O vento frio começava a acalmar-se lentamente, e todas as nuvens que outrora habitaram o céu agora já haviam se dissipado. Havia um clima de esperança e de uma ânsia colossal entre todos os presentes. Em questão de pouco tempo abandonariam sua terra por um período de tempo que ninguém sabia dizer se seria curto ou longo.
Todos ali possuíam caixas e mais caixas que continham desde simples utensílios de cozinha básicos até extravagantes peças de vestuário. Os elfos não estavam deixando nada para trás. Havia algumas carroças de madeira com aparência impecável próximas à saída da cidade, sendo carregadas com os bens rapidamente pelos guardas. Todas as bagagens pesadas eram etiquetadas de acordo com os donos.
Sentada em um toco ralo e levemente putrefato, Angela observava toda a movimentação que era feita para aquela travessia continental com uma confusão mental já costumeira. Não sabia se admirava-os pelo ato insano ou se lhes desejava os pêsames. Apesar de a concentração da maioria dos exércitos do Condado do Norte estar se dando em Carlin, viajar pelas estradas comandadas pelas trevas ainda era perigoso. Ela sabia bem disso. Mas felizmente agora tudo está bem. Acordara já há quase duas horas e empenhara-se ao máximo para fazer sua poção. Como ela esperava, Faluae tinha todos os ingredientes para fazê-la, o que resultou em um rápido e eficaz trabalho em equipe. Dois elfos feiticeiros amigos de Faluae a ajudaram nas partes mais complicadas, embora ela soubesse que poderia fazer tudo sozinha. Só precisava misturar umas ervas com um pouco de água... Não havia mistério! O antídoto funcionara como o esperado, e ela já podia sentir sua energia mágica por todo o corpo.
E agora ela estava ali, parada melancolicamente observando toda aquela movimentação que lhe lembrava tanto o que vira em Venore alguns dias atrás. No dia em que perdera sua vida. Ouviu então o som de alguns passos serem dados na grama fofa perto dela. Ergueu a face e viu seu amigo elfo sentando-se no colchão verde ao seu lado. Ele sorria.
- É triste abandonar essa terra, mas sei que se não formos embora o Pentágono a destruirá. Prefiro vê-la triste e vazia do que cinza e mortuária. E sei que um dia voltarei a viver aqui como se nada tivesse acontecido.
- É, pode ser. – Disse ela emburrada. Brincou com a varinha que estava em seu colo e desviou levemente o olhar para sua mochila velha. – Onde está Zoroast?
- Na clareira. Quando lhe falei que os minotauros haviam partido ele ficou muito abalado mesmo... Acabou aceitando e creio que até preferiu assim, pois de outro modo teria vindo inutilmente até aqui, expondo-se ao ridículo. Deixei-o lá para pensar um pouco... Pobre coitado. – Ele fez um silêncio acolhedor que indicava claramente que não havia mais nada a ser dito sobre o assunto. Depois encarou-a com seus olhos verdes espectrais. – E você? Está taciturna demais. Duvido muito já a ter visto de modo tão depressivo.
- Não estou de bom humor hoje.
- Isso eu reparei. Aliás acredito que todo mundo já reparou. – Como se adivinhasse no que ela pensava, disse em seguida: - Não vai adiantar se culpar pelo que aconteceu a Wyda e muito menos ficar olhando o chão como se o mundo não estivesse desabando ao seu redor. Vai acabar cavando um fosso sombrio e se atirando dentro dele.
- E se for isso mesmo que eu estiver procurando? – Ela encarou-o longamente, tentando forçar um olhar triste e sem vida ao máximo, mesmo sabendo que não adiantaria.
- Eu a conheço a mais de um século, acho que tenho autoridade para falar. Você não é nem nunca foi assim Angela.
Ela soltou um risinho debochado e largou a varinha, que rolou do seu colo para o gramado.
- Então como é que eu sou? Estou tentando descobrir isso desde que saí de Venore, e até hoje não achei a resposta! Não sei se sou brava, se sou burra, feliz, imbecil, insensível ou fraca! Me diga Faluae, o todo-poderoso, quem eu sou?
As últimas palavras foram ditas tão alto que chamaram a atenção de alguns elfos próximos. Faluae pensou por algum tempo e encarou-a bem, como se a analisasse profundamente. Então falou com o mesmo tom calmo de sempre.
- Você é como um labirinto, no qual todas as paredes estão constantemente mudando. Você é um quebra-cabeça sem solução, onde sempre sobra uma peça sem encaixe. Você é como os camaleões que mudam sua cor para se adaptar ao ambiente ao seu redor. Você é a entidade mais misteriosa que eu já conheci. Acho mais fácil compreender a morte do que sua personalidade. – Ela fez silêncio e encarou-o de modo vazio. – E eu gosto de você assim. Eu quando falo com você nunca sei o que você está pensando, o que pretende fazer. Estar contigo é sempre uma aventura nova, na qual eu nunca sei se vou sair rindo ou chorando. Quando encontro-te não sei se vai cantarolar e saltitar por aí ou se vai traduzir um livro de setecentas páginas em uma tarde.
Os olhos dela começaram a marejar.
- Você é o apoio que toda construção precisa. Se estou necessitado de risos você os dá, se quero conselhos, idem. Se faço algo errado você habilmente me dá uma bronca, se eu acerto é a primeira a me dar os parabéns. És uma incógnita maravilhosa, um livro de páginas inacabadas. Quando leio você, nunca sei o que virá na linha seguinte. Mas acima de tudo isso, Angela, você é uma bruxa habilidosa, sábia, divertida e que nunca desanima ou deixa transparecer o que sente.
A essa altura ela já estava fungando, tentando disfarçar os olhos molhados com os cabelos ralos. Faluae ficou encarando-a até que ela secou as lágrimas.
- Eu... Eu tenho uma tempestade na cabeça! Não sei se devo me comportar como uma elfa ou como uma humana. Não sei o que fazer, o que dizer... Faluae, eu estou confusa como nunca estive antes. Eu estou com medo.
O elfo ficou em pé.
- Pois livre-se das amarras que te prendem. Solte-se dessa teia confusa imbecil que você mesma criou. Wyda está morta, está. Mas isso é passado. Não pode mudar isso. – Ele fez uma pausa. – O que você pode fazer é lutar para impedir que outras pessoas sintam o que você está sentindo agora. Evitar que os demais se metam no buraco onde você se meteu. E sabe como você faz isso? Se aliando à Unie.
O vento soprou forte, fazendo algumas árvores em um morro próximo dançaram e gritarem de dor. O sol começou a invadir os campos com sua imponência dourada.
- Que... Que é isso?
- A única esperança. É a união de todas as forças revolucionárias que combatem o Pentágono. Faz uns seis meses que se uniram de vez, criando uma sede secreta em Venore. E é justamente pra lá que estamos indo agora. Os elfos decidiram se unir de uma vez por todas à Causa. Temos um bom número de soldados, sendo eles humanos, elfos, trasgos e até minotauros. Toda manifestação de vida capaz de lutar está se unindo a nós. Mas precisamos de ajuda. Precisamos de gente capaz de destruir exércitos inteiros com apenas algumas palavras, ou nunca seremos capazes de vencer essa guerra. Angela, você é uma grande bruxa. Pode vingar-se pelo que fizeram a Wyda. Eu a ajudaria. Sou o diplomata mais conceituado da Unie.
- Pare de tentar me controlar com suas palavras afiadas como facas. Não vai me pegar nesse joguinho de versos. – Ela ficou em pé e ajuntou a varinha, parando então para encará-lo da mesma altura. – E eu detesto lutar. Não quero me engajar ainda mais nesse combate que só vai resultar em mais morte! Faluae, o Pentágono precisa de tudo que é mal. E lutar é mal. Só iremos os fortalecer mais.
- Lutar pela justiça não é um pecado. E de qualquer modo, irá acabar se metendo nessa luta, cedo ou tarde. Raven não irá desistir até que tenha você em suas mãos. Esteja você aqui, em Thais ou no inferno, ele irá atrás de você para cumprir as ordens que recebeu.
Ela arregalou os olhos. Deu alguns passos para trás e olhou o chão desnorteada, como se tivesse levado uma bofetada na cara.
- O que foi que você disse? – Disse ela em um tom engasgado. A menção daquele nome estranho lhe era perturbadoramente familiar, causando um arrepio em sua espinha.
- A criatura que lhe atacou. Chama-se Raven. É o mais importante dos membros da Mão da Morte, a guarda pessoal de Konar, líder do Condado do Sul. É leal até o fim e nunca falha em suas missões. Dizem inclusive que ele participou do assassinato de Tibianus III, seja lá como foi que se deu. Ele nunca faz nada sem ter sido ordenado diretamente por Konar. Angela, se ele realmente mandou Raven ir atrás de você, pode estar certa que ele não vai parar até completar seu objetivo. E não adianta suplicar ou falar. Só poderá detê-lo se o matar.
- Mas... Faluae, isso é incabível! O que eu poderia fazer para que o Pentágono tivesse tanto interesse assim em mim?
- Isso não importa. Enquanto você estiver a solta, será procurada. Pessoas morrerão e cidades serão destruídas enquanto a procuram. E não adianta acreditar cegamente que pode com Raven. Aquela coisa transpira maldade. Você pode sentir ele antes mesmo de o ver, e tudo por que ele faz o ar ficar pesado e tudo que há de ruim dentro de você aflorar de repente. Enquanto estiver sozinha e confusa como está, não terá chances.
- Oh Faluae... Eu não desejei carregar esse maldito fardo em momento algum! O que eu fiz para merecer essa perseguição insensata? – Sua voz estava espremida e ás vezes reduzia-se a um quase silêncio involuntário. As coisas ditas pelo amigo caíam como bombas em seu ânimo, mas de um jeito ou de outro ela sabia que tudo era uma verdade tenebrosa. Eu sou a caça.
- Eu acredito no destino. Talvez tudo isso seja apenas para você entrar na Unie. Talvez os deuses estejam jogando com seu futuro. Talvez você esteja destinada a destruir o Pentágono e vingar-se de Raven. Ou talvez tudo não passe de uma coincidência ou obra de um plano maior de Konar. Provavelmente nunca saberemos. Mas... O que me diz, afinal? Irá ficar sozinha e fugir até morrer ou irá se unir a nós e partir para Venore?
E ela pensou. Relembrou mais uma vez toda a sua trajetória desafortunada desde que abandonou os pântanos até o momento em que chegou ao antigo lar. Acabou lembrando-se de como achara Wyda morta, caída perto da casa, com a garganta cortada e uma expressão de serenidade absurda cravada no rosto. Ela morreu para me salvar. Deve ter tentando enganar Raven... Pensou em como Zoroast se expôs para destruir uma caveira que a ameaçava, sendo que ele era um minotauro e eles nunca antes haviam se visto. E por fim reviveu o momento em que viu Faluae novamente após tanto tempo. Ele fez de tudo para me deixar entrar porque sabia que eu corria perigo. Todos ao seu redor haviam lutado por ela. E agora era chegada sua vez de decidir se ia ou se fraquejava. Era difícil, pois ela teria de lutar não só contra a morte, mas ainda contra todos os seus princípios. Mas nada disso importava mais. Sua confusão definitivamente morreu no momento em que seus lábios se moveram para recitar duas palavras que rodopiaram pelo campo em um tom decidido.
- Eu irei.
"Unie" é "união" em holandês. Lê-se como "Uni". Espero que tenha ficado um nome apropriado, pois demorei semanas para escolher.
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Bem, nada de muito novo ou inesperado. Capítulo singelo com diálogos bme superficiais e diretos, apenas para não adiar o inevitável. Terminamos aqui o épico "Angela confusa" para entrar agora nos rumos da hitória (e já não era sem tempo). Criamos mais algumas situações aqui e veremos aonde vai dar tudo isso. Não quero que pensem que Angela é uma sem opinião por ter decidido tudo tão rápido. Devemos sempre lembrar que Faluae é muito convincente e que ela encontrava-se fragilizada devido aos últimos acontecimentos. E Angela não é uma pamonha: reconheceu que não havia outra saída. É, fiz uma boa armadilha para nossa amiga.
Anotei os comentários feitos, principalmente sobre repetições. Acho que não ficou muita coisa nesse estilo no capítulo, eu pelo menos cuidei muito para que não ocorresse. Por fim, sei que não ficou muito empolgador, mas era um capítulo simples para se introduzir o resto da história. Se eu colocasse essa parte em qualquer outro capítulo ficaria ruim e se eu criasse mais situações nele eu estaria enchendo linguiça.
Manteiga.
Capítulo de transição bastante monótono, praticamente um excerto do sexto. Admiro o potencial dramático que a história possui, mas explorar insistentemente uma tragédia desinteressante não foi boa ideia, principalmente quando o clima é de justificativa. De qualquer maneira, tudo indica que você está ciente disso e apenas quis finalizar esse arco; amém.
O enredo andou desagradando pelo excesso de enrolação e inconsistência, mas Atormentação abriu espaço para um caminho mais interessante e definitivo: a história parece estar ganhando forma. Meu conselho é que você não force nas personalidades ou situações esdrúxulas; deixe fluir, com coerência e naturalidade.
Só agora percebi que tinha gostado da "poção de anulação mágica", mas sou suspeito, pois nunca simpatizei com feitiçaria. Fiquei decepcionado com a solução simples. Entretanto, não se incomode, pois isso é totalmente pessoal.
O vento soprou forte, fazendo algumas árvores em um morro próximo dançaram e gritarem de dor.
dançarem
Anotei os comentários feitos, principalmente sobre repetições. Acho que não ficou muita coisa nesse estilo no capítulo, eu pelo menos cuidei muito para que não ocorresse.
Última frase do segundo parágrafo. Todavia, é um detalhe irrelevante.
Até o próximo.
Finalmente estamos chegando ao desfecho da história: a guerra entre o Pentágono e a Unie, que exprimem os "supostos" bem e mal.Acredito que ainda possa haver reviravoltas, não gostei muito do Faluae.
estava espremida e ás vezes reduzia-se a um quase silêncio
Acredito que a expressão destacada seria craseada, não?
No mais, parabéns.Só não force muito diálogos e ações.
Aguardando o próximo.
Manteiga
29-08-2009, 20:00
@Emanoel
Haha, eu ri quando vi a última linha do segundo parágrafo depois do que eu disse. Isso que eu reli umas duas vezes o capítulo. Preciso ter mais atenção. E você está correto, foi para fechar esse ciclo confuso. Mas eu seria hipócrita se dissesse que a história vai dar uma guinada grandiosa pelos próximos capítulos. Temos mais o que fazer, enrolar e enrolar muito esse fio até tecer a história.
@Ldm
Eu não teria tanta certeza disso. Muita água ainda há de passar por debaixo dessa ponte. Talvez a guerra demore muito, talvez não. Só acompanhando pra saber :x Faluae de fato não é uma das pessoas mais simpáticas do mundo, mas acho que aprenderão a gostar dele. Ou odiar de vez.
E sobre a crase, me pegou mesmo nessa. Sou péssimo com crases e afins. Se souber me dizer qual o correto, por favor o faça. Embora eu acredite ser desse jeito mesmo ô.o
@All
Podem comentar viu :x Não me façam doublepostar sábado que vem.
Manteiga.
Manteiga
04-10-2009, 15:40
Quem é vivo sempre (re) aparece
Capítulo Oito
Você tem medo de escuro?
O pesado portão rangeu alto antes de se abrir. Os elfos viraram-se categoricamente para encarar o espaço criado na parede vegetal, avistando o outro lado pela primeira vez em meses. Havia um misto de espanto e ansiedade estampado em suas faces iluminadas. Uma nova era estava iniciando-se ali. Muitos teriam aquilo como um sinal que algo muito grande estaria para acontecer. Os elfos estão abandonando sua terra.
A morte estava próxima. Seu cheiro era perceptível no ar que envolvia a todos no campo. As Tropas das Sombras estavam mais perto do que se imaginava. Era preciso viajar rápido e sem descanso. Todos parecem dividir dessa idéia, pois as carroças puxadas por belos cavalos brancos começaram a avançar pelo verde, em direção ao campo recém-aberto. A multidão começou a imitar o gesto e a seguir em frente. Pouco a pouco todos foram partindo, deixando para trás um vazio que provavelmente Ab’Dendriel nunca antes experimentara.
O pombo cinzento alçou seu vôo no instante em que todos saíram. Suas asas batiam em fervor e seu bico empinava-se para frente enquanto ele lutava bravamente contra a carga de vento que vinha contra seu minúsculo corpo. Jazia amarrado a uma de suas patas um pequeno bilhete branco.
- Não se preocupe – Disse Faluae protegendo os olhos do sol forte que surgira enquanto vigiava o pombo. – Ele já viajou até Venore diversas vezes, vai saber o que fazer. No bilhete estou comunicando nossa partida, da perspectiva de chegada, sobre Raven, Zoroast e você.
- Ele pode ser interceptado? – Indagou Angela acompanhando o pombo com os olhos até o instante em que sumiu no céu.
- Improvável. No tempo em que essa rota era vigiada constantemente por caveiras ele nunca foi visto, porque agora que está vazia ele seria? – Ele fez uma pausa e olhou ao redor, constatando que todos já haviam ido. Só restavam alguns guardas armados perto do portão. Faluae abaixou-se e pegou sua mochila avermelhada e larga que deixara no chão. Passou uma alça pelo torso e virou na direção da clareira distante. – Fico feliz que tenha decidido vir conosco.
- Você praticamente não me deu outra opção. – Ela retrucou, indiferente.
- Por isso eu sou diplomata. – Ele sorriu de leve, da forma tola e breve que os elfos têm o péssimo hábito de fazer. – Onde raios está Zoroast? Tive muito trabalho para fazê-lo aceitar meu convite de se juntar à Unie. O que me falta é ele ter desistido!
Como se estivesse ouvindo tudo e só esperando ser citado para dar as caras, o minotauro surgiu do alto da elevação onde ficava o campo onde haviam dormido na noite anterior. Trazia seu saco bege e sujo e sua maça negra e pronta para o ataque, manchada de sangue seco. Trazia ainda uma expressão cansada na face, olhando fixamente para frente e arrastando os cascos no chão, com as costas levemente curvadas para frente. Bufava a cada passos dado e passou por Angela sem a cumprimentar. Depois falou alguma coisa em sua língua-mãe com Faluae e se aproximou do mesmo modo sem-vida dos portões, olhando feio para os guardas antes de seguir a multidão.
- Que deu nele? Está certo que nunca foi a criatura mais sociável do mundo, mas ele pelo menos costumava me cumprimentar! – Disse a bruxa erguendo uma sobrancelha e coçando o queixo.
- Está emburrado por que queira estar em Darashia, com os outros minotauros. Deixe-o, vai acabar se acostumando à idéia de que sobrou. Mas não se preocupe com ele; temos minotauros na Unie. Ele logo vai se integrar. Teoricamente falando, é claro. – Disse o elfo em um tom alegre enquanto analisava a posição do sol. – Vamos antes que nos deixem pra trás.
Começou então a avançar decididamente para fora da cidade. Angela seguia-o correndo para tentar acompanhar sue ritmo frenético. Em pouco tempo estavam cruzando a floresta escura que precedia a parede vegetal. A multidão em fervura estava logo à frente deles. Já não se podia mais ouvir as carroças. Angela podia observar que os elfos andavam com certa relutância, ora ou outra virando suas cabeças para tentar buscar um pedacinho da cidade. De longe, ouviu-se fechar o pesado portão. Um novo ciclo começa.
O tempo corria e os elfos não diminuíam seu ritmo empolgado. Pareciam determinados a chegar a Venore o mais rápido que fosse possível. Conversavam sem perder o fôlego sobre a natureza e sobre como seria aquela nova experiência tão “rica e culturalmente benéfica para todos”. Faluae já havia se integrado com um grupinho de elfos que andavam mais a frente e deixara Angela no vácuo, andando sozinha para fechar o cortejo. Zoroast estava enfiado no meio da multidão, e a bruxa se perguntava se os elfos estariam o encarando feio. Espero que ele volte a falar comigo logo. Cabeça-dura. Não pôde deixar de sorrir. Estava começando mais um capítulo de sua vida. E era bem neste que ela obteria sua vingança. Pagarão pelo que estão causando a todos nós. E isso era uma promessa.
Foi quando colocou um pé para fora da floresta que ela travou. Simplesmente ficou paralisada com um pé sobre uma raiz retorcida e outro cravado no chão, apoiada a um tronco meio putrefato e coberto de musgo. Seus olhos vidraram no além, acompanhando vaziamente a multidão ir lentamente desaparecendo no horizonte. Suas pupilas estavam se comprimindo em uma súplica para que Faluae se virasse e a visse naquele estado misterioso. Sentiu um vento anormal perpassar seu corpo e agitar suas vestes. Era um vento que trazia presságios malditos. Um forte arrepio congelou todos os ossos de seu corpo e a fez cair de joelhos. Começou a bater os dentes e a tremer de frio, mesmo estando com o sol diretamente sobre sua cabeça. Pode sentir então um rancor e uma tristeza profundos brotarem do fundo do seu coração e irem contaminando cada gota de seu sangue como o veneno faz. Pensamentos raivosos e obsessivos foram tomando sua mente aos poucos, enquanto ela largava a varinha e a deixava rolar para longe. Distante, uma voz desesperada chamou-a bem quando tudo ao seu redor sumiu. Piscou. O campo sumira. Só existia sombra. Estava tudo escuro ao seu redor. Não conseguia sequer ver suas mãos. Sentia-se dentro de um vazio que a consumia rápida e satisfatoriamente. Seus medos foram aflorando e fazendo-a perder a capacidade de pensar. Ela não precisava ver nada para saber exatamente o que estava acontecendo ali. Raven. Sua alma dizia que era isso. O medo que sentia dentro de si era igual ao que sentira quando o vira pela primeira vez.
- Você tem medo de escuro? – Sibilou uma voz cruel e fria em algum lugar da escuridão. Ouviu-se o som leve do farfalhar de penas e um grunhido alto. Uma gargalhada que agia exatamente como o fio de uma navalha. – Aposto que sim.
- Revele-se seu covarde! Vamos! Mostre essa sua cara nojenta para que eu possa queimá-la! – Bradou a bruxa com todas as suas forças. Mas não saiu voz alguma de sua garganta, deixando-a fortemente assustada. Começou a olhar para todos os lados, pronta para atacar, mesmo sabendo que era impossível acertar qualquer coisa naquela escuridão assombrosa. Estou ficando louca ou o que? Começaram então a surgir em sua mente dúvidas bobas sobre o que era verdade e o que não era. A incerteza se estava fazendo o que era certo começava a crescer, junto com uma melancolia profunda por não ter estado em sua casa apara salvar Wyda. Mas nada disso era comandado por ela. Era como se uma força maior estivesse manipulando seus sentimentos ruins.
- Hm... Onde será que eu estou? – Disse a mesma voz de antes, desta vez debochando. – Eu posso estar aqui... Ou posso estar acolá. Quem sabe eu esteja bem atrás de você... Ou posso estar flutuando sobre sua cabeça. – Ao terminar de falar a criatura sempre gargalhava alto, provocando mais e mais arrepios, cada vez mais fortes, tomarem todo o corpo da bruxa. Estou sendo vencida por uma ilusão. Não. De algum modo estranho ela sentia que Raven estava por ali, por perto, apenas esperando ela ficar completamente fora de si. Ela estava tão trêmula que mal conseguia sustentar seu corpo. Ela só não sabia se estava tremendo de medo ou de ódio. Rangia os dentes e sentia um fogo imponente queimar em seus olhos. Seu maior desejo naquele momento era destruir o maldito homem-corvo. E isso atropelava o bom-senso e a racionalidade. Não importava o que iria acontecer com ela depois. O que importava era que ela precisava matá-lo. Sentia como se fosse morrer caso não conseguisse destruir seu inimigo. E isso tomou-a por inteiro, dando-lhe forças para ficar em pé.
- Eu vou te matar seu desgraçado, eu juro pela minha alma que irei! – Ergueu os braços, apontando a palma de cada mão para um lado diferente. Concentrou-se em sua energia mágica, que agora fluía enlouquecida por suas veias, e gritou: - Exori Flam!
Suas conhecidas bolas de fogo foram disparadas, indo na direção do nada e sumindo sem causar danos. Mas ela não se importava. Começou a apontar e atirar para todos os lados, na vã tentativa de atingir seu objetivo. Cada erro lhe dava mais vontade de sentir o cheiro de penas carbonizadas.
- Talvez você deva praticar um pouco mais... Opa! Essa passou perto. Quer dizer, mais perto que as outras. – Raven devia estar se divertindo vendo aquela cena. Uma pontada de razão brotou na mente de Angela naquele instante, fazendo-a refletir sobre a possibilidade de ser justamente aquilo que Raven estava desejando: esgotar sua energia. Então parou de atacar. Houve então um prolongado silêncio assassino no qual tudo pareceu mergulhar em um quartinho sem ar. Angela sentiu sua vida ser sugada pela proximidade perturbadora de alguma coisa muito má. A morte estava chegando para buscá-la e a levar junto de Wyda. Foi fechando os olhos e se entregando ao espírito das trevas que consumia-a por inteiro. Leve-me, por favor! Tire-me deste universo tão mundano!
Lágrimas foram aflorando de seus olhos com força inominável, rolando por sue corpo. Mas tais gotas de água, tão puras e inocentes, congelavam antes de chegar ao seu busto. E depois caíam ao chão, como granizo. Suas pernas estabeleceram um ritmo de tremedeiras constantes que pareciam dispostas a jogá-la ao chão. O escuro ia a envolvendo cada vez mais, penetrando em sua pele e rasgando suas entranhas. A agonia foi crescendo até existir somente ela em sua mente. O fim chegara. Mas toda aquela malevolência concentrada fazia Angela perceber a proximidade de Raven. Sabia que ele estava ali, ao sue lado, encarando-a como o leão que afugentou sua presa no deserto. Ela podia sentir em seu cangote o ar nojento que saía do corpo transfigurado daquela coisa. E isso foi sua salvação.
- Não... Deixarei... – Murmurou ela com o peito em brasa. Cada sopro de ar que saía de sua garganta queimava-a.
- Sua longa jornada termina aqui. – E dizendo isso, o corvo pousou sua mão podre no na dela. E então aconteceu. Fora tudo muito rápido. No instante em que os membros se encostaram, uma energia púrpura anormal brotou dos dedos da bruxa e penetrou no corpo do ser, fazendo-o urrar de dor. Era como se milhões de raios convergissem dentro de sua boca. Fechou os olhos e grasnou alto, como nunca antes fizera, caindo de joelhos e implorando que Zathroth tivesse piedade dele. Então deitou-se de lado, tendo espasmos e vendo seus membros moverem-se involuntariamente de um modo débil. Começou a cuspir sangue.
Angela, por sua vez, nada sentira ao toque de Raven. Simplesmente foi sentindo tudo que a havia infestado nos últimos minutos – que confundiam-se com eternidades – esvair-se rapidamente. A agonia, a tristeza e a dor foram evaporando junto com a escuridão eterna, que vacilou até desaparecer por completo. Sentiu o ar voltar com força aos seus pulmões e o sol tomar seu corpo, fazendo o sangue correr de novo. Ela endireitou-se e sorriu de leve ao deixar a ilusão criada pela criatura.
- Jamais permitirei que toque em mim, infeliz. – Ela falava para o alto, em direção ao céu, pois não se via corvo algum ali. A única evidência da passagem, mesmo que momentânea, de Raven por ali, era um punhado de penas negras e familiares dispersas na grama amassada e infestada com algumas gotículas de sangue.
O que de fato acontecera, ela não sabia explicar. Raven simplesmente estivera ali, e ela sabia que era verdade. Ele fizera o possível para destruí-la. Mas falhara miseravelmente quando tocou em sua pele. Wyda me salvou. De algum modo, ela intercedeu por mim. Levou alguns segundos para recuperar sua total capacidade motora e mental. Então seguiu lentamente até o local onde estava sua varinha, deitada, inerte. Agarrou-a e arrumou o chapéu na cabeça. Lançou um último olhar para as penas negras jogadas ali e cuspiu sobre elas imediatamente. Restos de lixo. Agradeceu uma última vez pela proteção que Wyda supostamente lhe concedera e virou-se para o sul, para recomeçar a sua caminhada.
Foi só então que percebeu que era de noite e que ela estava completamente sozinha ali.
Acho que falar "eu lamento por não ter postado no último mês inteiro nessa seção" não resolve muita coisa. Não que eu ache que deva explicações, até porque isso é um forum de internet, mas eu queria salientar apenas que foi por causa deste tópico. Perid simplesmente o fio da meada da minha história, me perdi nas idéias e fiquei sem ânimo. Setembro foi um mês horrível pra mim. Não que Outubro esteja melhor. Mas enfim, antes tarde do que nunca. Este capítulo finaliza o primeiro ciclo da história (Livro Um).
Fiz mudanças importantes. Encurtei muito A Cadeira de Cristal de modo que eu ainda possa ter alguma motivação para escrever a segunda das cinco partes que A Espinha terá. Nesse ritmo até 2012 terminamos, haha.
Bom, sobre o capítulo, simlpes e bobinho, sme muita coisa para falar. Ainda estou temeroso sobre escrever capítulos muito grandes como o Kamus faz em Ferumbras, isso pode ter deixado a cena narrada insossa e aparentemente inútil. Mas ela determina os rumos da história daqui para frente. A próxima atualização virá quando eu sentir que estou pronto. Pode ser semana que vem, pode ser mês que vem. Pode ser nunca mais.
Pra terminar esse momento agonia, DESDE QUANDO EMANOEL É SUB-MODERA? Não me chamaram pra festenha per quê? Não gostam mais de mim (algum dia gostaram?)? Tem algo contra meu nick, minha família e minha casa? Anyway, gratz tio Papis Noélis. Agora a seção se salvará o/ Ou irá pro poço de vez :*
PS: Revivi o tópico, mas como atualizei isso não é flood neah? :x
Manteiga.
Lucas CS
05-10-2009, 14:57
Pra terminar esse momento agonia, DESDE QUANDO EMANOEL É SUB-MODERA? Não me chamaram pra festenha per quê? Não gostam mais de mim (algum dia gostaram?)? Tem algo contra meu nick, minha família e minha casa? Anyway, gratz tio Papis Noélis. Agora a seção se salvará o/ Ou irá pro poço de vez :*
PS: Revivi o tópico, mas como atualizei isso não é flood neah? :x
Manteiga.
Ele, eu, Professor Girafales, Edu Apocalypse e Onigiri nos tornamos sub-modereas já há alguns dias atrás ^^
Eu sou o que vai tomar as rédeas daqui rairiaiar.
Ema vai tomar conta do board das cidades ^^
Nem é flood, não se preocupe.
@~
Maravilhoso, cara, essa foi uma das melhores histórias que já ví na seção. Suas descrições são geniais. Espero por continuações :o
Receava por sua desistência! Como é de costume, os comentários são escassos... mas peço que não desanime. E torço para que o pessoal tome coragem para comentar.
Eu gostei, apesar da situação apresentada ter sido bastante obscura. Após alguns parágrafos, achei que seria um capítulo típico, mas tomou um rumo estranho e imprevisível. Ótimas descrições; aquele "conflito" na escuridão ficou excelente.
Lágrimas foram aflorando de seus olhos com força inominável, rolando por sue corpo. Mas tais gotas de água, tão puras e inocentes, congelavam antes de chegar ao seu busto.
Provavelmente estou sendo chato, mas lágrima não é água!
E alguns outros (possíveis) erros:
Bufava a cada passos dado e passou por Angela sem a cumprimentar.
passo
Angela seguia-o correndo para tentar acompanhar sue ritmo frenético.
seu
Pode sentir então um rancor e uma tristeza profundos brotarem do fundo do seu coração e irem contaminando cada gota de seu sangue como o veneno faz.
Pôde / profunda
Estou ficando louca ou o que?
quê
A incerteza se estava fazendo o que era certo começava a crescer, junto com uma melancolia profunda por não ter estado em sua casa apara salvar Wyda.
para
Ao terminar de falar a criatura sempre gargalhava alto, provocando mais e mais arrepios, cada vez mais fortes, tomarem todo o corpo da bruxa.
<confuso>
Lágrimas foram aflorando de seus olhos com força inominável, rolando por sue corpo.
seu
Sabia que ele estava ali, ao sue lado, encarando-a como o leão que afugentou sua presa no deserto.
seu
Agora a seção se salvará o/
O fórum está passando por mudanças...
In Lucas we trust! :riso:
Você sumiu! Aparece no chat!
Como vai, cara?
Desculpe-me pela demora de postar. Estive com um pouquinho de preguiça :P
Sobre a história, ela está seguindo um rumo, digamos, interessante. Assim como muitos, receei pelo pior. Felizmente, quem é vivo sempre aparece.
Até qualquer hora.
P.S.: Desculpe pela escassez de palavras.
Manteiga
06-10-2009, 21:01
@Lucas
OMG, gratz tiow :O Confesso que não é uma grande surpresa, não depois da Biblioteca e do Concurso [+ puxando saco]. Espero que divirta-se cuidando do emocionante board roleplaying :x Pelo menos podemos contar com alguém da equipe agora, aeae o/ Valeu pelo comentário :d
@Noel
Sentiu saudades foi? xD Não importa que sejam poucos comentários, o que importa é que sejam úteis para o crescimento da história [+ temos que puxar o saco de Emanoel também :d] Anyway, obrigado por ter passado e apontando os errinhos bobos que eu fiz aí pelo meio. Queria já ter voltado no MSN, mas eu não consigo baixar o novo ;-;
@Ldm
Don't worry, só o comentário já vale a pena ^^ Mas... Bem, até você postar, apenas sub-moderas tinham postado nesse capítulo, e assim eu ia me achar pors meus amiguinhos :( Droga Ldm, estragou minhas ilusões. Brinks :x Agradeço por ter passado mais uma vez! Pode esperar que logo eu posto de novo :p
Manteiga.
Manteiga
10-10-2009, 12:43
LIVRO DOIS
Capítulo Nove
Ensaio sobre o Pentágono de Yöer
Com origens demasiadamente enigmáticas, que remontam antigos tempos de paz entre os humanos e de considerável “respeito” pelos poderes da Coroa de Thais, o Pentágono de Yöer, por vezes intitulado Pentágono das Sombras ou Espalhador do Pesadelo, é uma entidade cruel com longos tentáculos negros, que estendem-se atualmente por todas as instituições de poder que existem em Tibia.
Érbio leu e releu a pequena passagem de poucas linhas que rabiscara displicentemente em um pergaminho cinzento e assentiu brevemente com a cabeça. Estava bom. Seria uma introdução suficientemente boa para situar os mais iluminados nos acontecimentos, quando aquele documento fosse lido, no futuro. Não sabia dizer se sairiam ou não daquela crise histórica, mas sabia dizer com perícia impecável que não faltariam registros sobre as crueldades realizadas por aqueles cinco que se intitulavam “Filhos dos Saberes”. Ficou examinando o primeiro parágrafo de Ensaio sobre o Pentágono de Yöer e sorriu internamente, apesar da hora ser pouco propícia. Pigarreou e buscou um copo de vidro repleto de um líquido cristalino, que bebeu sem hesitar. Sentiu a água limpar sua garganta por inteiro. Pousou o copo então no mesmo lugar de onde acabar de sair: sobre um paninho imundo dobrado cuidadosamente e localizado diretamente ao lado do tinteiro azulado.
Examinou o resto de sua mesa, apreciando a pequena coleção de raridades ali presentes. Havia folhas de pergaminho enroladas cuidadosamente dentro de uma cesta de palha, o tinteiro e o copo, e alguns pertences pessoais irrelevantes. Mas o que de fato chamava sua atenção era a caveira dourada e meio rachada sobre um pequeno pedestal de mármore; a pena negra e alongada, já gasta pelo tempo, que provavelmente pertencera a um corvo gigante; o livro de capa de couro duro em que se lia Os Segredos dos Saberes; e por último, mas não menos importante, um longo cabo totalmente negro e encouraçado, que terminava abruptamente em um retângulo pesado de um material misterioso. Incrustado no meio daquele retângulo perfeitamente plano estava um olho de jade brilhante, que parecia despi-lo por inteiro. Dispostas pelo cabo em forma estranha estavam algumas frases douradas de uma língua perdida. Érbio pegou o martelo para si e girou-o nas mãos, lembrando-se do dia em que o líder da Unie, Ahamed, entregara-o sob sua responsabilidade. Quero que decifre a inscrição no cabo, dissera ele na ocasião. A relíquia foi encontrada em Darashia, e isso me dá esperanças de ter relação com o Pentágono.
O escrivão largou calmamente a arma sobre a mesa e deixou seu olhar morrer sobre ela. Era um pesquisador excepcional, uma lenda viva da literatura thaiense. Todos na cidade conheciam suas grandes obras Lendo runas antigas e Passos na Areia de Devourer. Era um historiador renomado e grande conhecedor das artes da lingüística. Talvez tivesse sido chamado a se unir ao movimento revolucionário por aquelas qualidades, ou talvez porque suas pesquisas o levaram a grandes informações a respeito do Pentágono de Yöer. Repentinamente, pareceu lembrar-se de alguma coisa. Agarrou uma bela pena branca e curta que descansava sobre o papel, mergulhou sua ponta no tinteiro e voltou a escrever, com rabiscos negros quase ininteligíveis.
O nome do movimento demoníaco originado nas profundas catacumbas da cordilheira de Kha’Zeel deriva da palavra antiga “Iaor”, cuja significa “nosso pai”, caso fosse traduzida para os dias atuais. O Pentágono do nome é uma clara alusão ao símbolo satânico de cinco pontas, o pentagrama, e ao fato de o movimento ser liderado por cinco lordes mortos-vivos em questão, cada um dominando uma das cinco áreas da magia negra, de acordo com as tradições: maldições, pragas, necromancia, magia negra propriamente dita e conhecimento perverso.
Suas origens, como já foi citado nesta introdução, deram-se nas montanhas afastadas de Kha’Zeel, em uma depressão conhecida por eles como Katelchetroff, termo que significa basicamente “Terra dos Mortos”. Tal depressão atualmente é um pequeno deserto de areia de onde ergue-se a vila destruída de Drefia do Oeste, chamada no passado por um nome mais apropriado aos ideais yoereanos: Saberon (significa basicamente “Cidade da Sabedoria”). Ao contrário do que muitos estudiosos pensam, o Pentágono não surgiu inicialmente como uma espécie de culto aos demônios ou um antro de reunião daqueles que já morreram. Seus objetivos primários na realidade eram a incansável busca pelo conhecimento absoluto.
Ele parou para descansar a mão e olhou pela sala. Era oval, pequena, composta pela mesinha tosca de madeira, por um tapete de cores vinho e alaranjado tecido em Ankrahmun e por um pequeno sofá verde e aparentemente muito convidativo. Existiam ainda cerca de quarenta lampiões rubros que prendiam chamas dançantes e quentes, espalhados vinte de cada lado da mesa presos no teto por correntes finas. Sua iluminação era eficaz para a escrita, mas criava sombras assustadoras que de vez em quando faziam o escrivão tremer no meio das noites de tempestade enquanto dedicava-se ao seu trabalho. Já havia terminado quase tudo: só faltava a introdução e as considerações finais.
Longe, ao sul, houve uma grande explosão. Manifestou-se brevemente pelo estrondo fascinante, mas logo perdeu-se numa infinidade de gritos. Uma variedade anormal de passos ecoaram pelas ruas de mármore branco da cidade. Alguém bradou que eram caveiras, e que as Tropas das Sombras haviam chegado. Outro alguém urrou dizendo que finalmente as trevas venceriam o bem, e, pela movimentação que se seguiu, Érbio imaginava que o homem fora espancado e estava provavelmente inconsciente a essa altura, se é que estava vivo. Estou na cova dos leões, pensou ele, calmamente, a diferença é que estou em uma torrezinha um pouco mais elevada da morada dos felinos.
Não agradava-lhe a idéia de estar tão distante de casa. Yalahar era um lugar estranhamente pouco acolhedor aos forasteiros, apesar de praticamente todas as raças existentes no mundo se manifestarem por seus quarteirões selvagens e monstruosos. Érbio não podia negar que a cidade possuía uma expressão cultural exemplar, fosse pelas lendas impressionantes que cercavam sua origem e decadência, fosse pela brilhante arquitetura inenarrável que tornava o coração de Yalahar um lugar perturbadora e inapropriadamente belo. Um ótimo lugar para uma guerra entre homens e mortos-vivos. Já fazia pelo menos dois meses que estava morando ali. Ahamed enviara-o juntamente com um pequeno grupo de soldados e alguns agentes pouco conhecidos da Unie. O líder do grupo dissera-lhe que estava os enviando com a missão mais nobre de todas: salvar o Império dos Anões.
Ele suspirou. Virou-se para a esquerda e puxou uma caixinha de madeira totalmente quadrada de baixo de sua cadeira. Abriu o fecho cuidadosamente e pegou o considerável número de pergaminhos enrolados que dormiam alegremente ali dentro. Buscou atentamente pelas anotações no rodapé e logo encontrou a folha que estava procurando. Preciso de mais inspiração. Abriu-a com o carinho de um pai por um filho e começou a ler em silêncio o que escrevera até agora. Demorou-se um pouco mais em determinado trecho do capítulo inicial, como se revivesse a aventura que fora obter tais informações.
[...] o Pentágono de Yöer inicia basicamente com a ascensão dos saberes nas terras do Devourer, o quente e curto deserto que envolve a cidade de Darashia. Muitos acreditam que a palavra “saberes” seja o simples plural do verbo “saber”, mas na realidade a palavra distingue um antigo grupo de humanos que migrou de Carlin em direção ao deserto antes mesmo de sua descoberta. Este grupo passou a ser denominado pelos moradores de Carlin como saberes (cuja sílaba tônica na realidade é o “sa”), um termo que significava “aqueles que vivem de pensar”. De fato, os saberes eram caracterizados como homens e mulheres brilhantes, que abandonaram a sociedade humana após constatarem que jamais seriam aceitos. Eram muito questionadores, buscando compreender tudo que pudessem sobre qualquer coisa. Suas buscas inquisitivas pelo conhecimento absoluto levaram-no a conhecer a existência de um deserto a sudoeste do continente, deserto este que só seria descoberto pelos demais humanos muitos anos depois.
Os saberes rumaram imediatamente rumo ao tal deserto, e desembarcaram após uma longa e tortuosa viagem, na qual seguiram um mapa desenhado pelos próprios, baseando-se em informações de alguns orcs viventes no sul das Planícies do Caos. Evidências históricas indicam que eles chegaram exatamente em uma pequena parcela do deserto cercada por Kha’Zeel, onde atualmente fica Drefia do Oeste. Por isso não tomaram conhecimento da existência de outros desertos por muitos anos. Apesar disso, acredita-se que no apogeu de sua civilização brilhante, os saberes tenham mantido conversações diplomáticas com os lagartos, em Tiquanda, e com os mortos-vivos, em Ankrahmun. [...]
Érbio assentiu com um breve aceno da cabeça e rabiscou alguma coisa na folha onde escrevia a introdução de seu livro. Então, coçou a barba longa e espessa, de cor cinza, deliberadamente. Pigarreou alto e bebeu o resto da água existente em seu copo. Antes de voltar à sua leitura, deu uma olhadela no martelo negro.
[...] passados alguns anos, os moradores do continente esqueceram-se de quem eram os saberes e de como eles podiam ser inconvenientes. Alguns testemunhos de historiadores como Tael Moureau dizem que os saberes chegaram a questionar a existência dos deuses, e que provavelmente isso significou sua derrota na terra de Carlin. “Os moradores não estavam dispostos a se soltar de suas crenças por meia dúzia de fatos lógicos divulgados pelos saberes, então os expulsaram”, diz Moureau. Os saberes haviam constituído um duradouro império em Drefia, que na época chamavam de Saberon. Saberon possuía grandes vias para o trânsito de carroças avançadas para a época, um pequeno porto, grandes áreas residenciais e comerciais, pomares e hortas criados nas montanhas, regados pela água represada de um riozinho que cortava a cidade. Lá, os saberes tiveram sua liberdade de pensar e de se desenvolver. Representaram grande influência na formação da cidade de Ankrahmun, na época já uma cidade-morta (suas origens misteriosas não precisam ser discutidas neste volume).
Mas os moradores do continente também eram ambiciosos. Mesmo décadas depois, ouviram falar da existência de um deserto e foram logo averiguar. Sem saber o que encontrariam, os venorianos desembarcaram onde atualmente fica a cidade de Darashia. Fundaram ali um pequeno vilarejo, e começaram a explorar e mapear as terras ao redor. Inesperadamente, porém, todos os homens enviados para a direção oeste de Darashia não retornavam. Exércitos foram enviados para a região, como se para enfrentar uma guerra, e surpreenderam-se ao encontrar Saberon e seus ilustres moradores. Aparentemente, nos anos que permaneceram isolados, os saberes desenvolveram fantástica habilidade para a magia negra. Com suas habilidades, os saberes combateram e venceram os venorianos facilmente. Mas logo foram atacados em massa por tropas vindas de todas as demais cidades, e assim, em um rápido e inesperado movimento, Saberon foi tomada e convertida em ruínas. [...]
Ele fez uma pausa, rabiscou mais alguma coisa, e continuou a ler. O capítulo estava quase no fim.
[...] Naquele tempo, os saberes eram regidos por um único senhor, chamado de Zeed. O Zeed era o iluminado maior, aquele que realmente tinha todas as respostas. Os saberes viam Zeed como uma espécie de deus, mas um deus que tudo sabia e tudo podia. Assim, fundaram sua própria religião, na qual passaram a adorar uma entidade chamada de Noor, termo sinônimo de Yöer. Eles defendiam que este era uma espécie de irmão de Zathroth, mas bondoso e que só deseja obter o conhecimento. Os venorianos porém, ao ficarem sabendo do culto ao “Deus do Saber”, que na terra era representado pelo líder espiritual dos saberes, enfureceram-se e invadiram a cidade em massa, que foi justamente o que de fato causou sua ruptura.
Mas a história não termina ali. Alguns saberes sobreviveram ao ataque, e, cheios de ódio pelos tuquos (que era como eles chamavam os “não iluminados pela verdade absoluta”), os saberes se reorganizaram sob a liderança do Zeed mais famoso de toda a história: Teoth. Teoth dizia ser a personificação verdadeira de Noor em Tibia, e que apenas ele poderia levá-los ao saber verdadeiro. Não sabe-se exatamente como, mas Teoth aparentemente rompeu a fina camada que separa o nosso mundo do mundo dos demônios. Mago excepcional que era, Teoth conjurou as entidades diabólicas e supostamente teria deixado que cerca de cinco demônios incorporassem em seu espírito, transformando-o em uma hedionda entidade maligna com poderes equiparáveis aos de um deus de verdade. Teoth, que agora adotara o nome de Yöer, transformou os saberes originais (aqueles que resistiram ao ataque) em serem imortais pela ação do tempo e infiltrou-os nas instituições mais notáveis do mundo, como a TBI e a Sociedade Exploradora. Mas nada teria acabado ainda. Yöer reuniria em Saberon diversas criaturas inocentes, como peixes, pássaros e répteis, e transfiguraria tais criaturas em entidades monstruosas, meio humanas e meio feras, que também receberiam grandes dons e a incapacidade de morte pelo tempo. Estas criaturas bizarras passariam então a habitar a mente das pessoas como os verdadeiros saberes, razão esta responsável pelo equívoco comum de que os saberes seriam monstros, e não humanos. Na realidade, os saberes não todo e qualquer um que viveu em Saberon no seu tempo de glória.
Yöer iniciaria ali uma guerra inigualável, na qual confrontou milhões de exércitos no Devourer. Os líderes de estado da época, para evitar explicações complicadas, omitiram a informação básica de que a guerra se dava contra demônios e entidades nunca antes vistas, e declarou que os homens estavam lutando contra dragões que viviam em Kha’Zeel. A batalha duraria apenas um ano, no final do qual, Yöer teria sido morto. Com a morte do líder, suas criações ficaram desorientadas, e foram facilmente superadas. Porém, cerca de meia dúzia de saberes resistiram ao embate (segundo antigos depoimentos de soldados combatentes). Seu paradeiro é desconhecido até hoje, mas se de fato não foram mortos por agentes externos, com certeza não foi o tempo que os destruiu. Yöer foi enterrado em uma cripta nas profundezas de Saberon, e nunca mais se ouvir falar dele. [...]
Até agora, pensou Érbio, abandonando a leitura. Guardou o pergaminho junto com os demais na mesma caixinha e recolocou-a no local de origem, com o mesmo cuidado costumeiro. Não precisava ler mais nada para se lembrar com perfeição do que ocorria em seguida. A Redenção. Cinco entidades misteriosas, provavelmente desprovidas de vida, surgiram do além, cada uma de uma região específica do Tibia. E como se acessassem uma biblioteca antiga, pareciam saber tudo sobre aquela história negra e há muito esquecida. Reergueram os ideais sanguinários da segunda geração de saberes liderados por Yöer, e, da noite para o dia, tomaram todo um planeta. Se não fosse ele mesmo, se não conhecesse a história, se não tivesse visto o corpo mutilado de Tibianus III pendurado naquele poste desoladamente, Érbio provavelmente não acreditaria no que estava acontecendo. Os cinco repartiram o planeta entre si como crianças fariam com um punhado de amoras, e passaram a se intitular Pentágono de Yöer, em uma clara alusão ao símbolo máximo de Saberon, o pentagrama. Érbio perguntava-se se o nome traria a definição de Noor por acaso, ou se eles realmente idolatravam aquele deus fajuto.
O que era mais perturbador era que aqueles cinco, que nem usavam o título de saberes, simplesmente dominavam todos os campos das artes das trevas, e ao, contrário das gerações anteriores de sua laia, não eram puros ou invocavam demônios. Preferiram colocar todos os mortos-vivos do seu lado. Com um exército ilimitado, os Cinco Lordes das Sombras conseguiram o que nenhum outro Zeed conseguira: ter o Tibia nas mãos. Naturalmente, a Unie e tantos outros movimentos revolucionários já haviam retomado algumas cidades. Edron, Carlin, Venore, Darashia e Yalahar erma agora lugares seguros para se viver. Pelo menos por enquanto. Mas apesar de praticamente já terem assegurado seu triunfo sobre os humanos, Érbio tinha o péssimo palpite de que os cinco queriam algo além. E infelizmente, Érbio costumava acertar seus palpites.
Agora estavam naquela guerra caótica, na esperança provavelmente em vão de lutar contra o Pentágono. Cada lorde parecia relevar o que se dava com os seus vizinhos, cuidando apenas de suas terras, seus exércitos e seus tesouros. Isso talvez facilitasse o trabalho deles. Mas se eles resolvessem se unir como já fizeram um ano antes, quando Thais caiu, eles teriam sérios problemas. Que os deuses nos ajudem. Olhou para uma pequena janelinha triangular que estava logo às suas costas, quase imperceptível. Através dela ele viu, distante, o continente. Uma nostalgia incomum invadiu seu peito. Era a primeira vez em mais de trinta anos que Érbio abandonava sua terra. E tudo culpa de cinco imbecis que mereciam morrer de novo.
Seus nomes não deviam em voz alta serem pronunciados. Transpiravam crueldade e espalhavam medo. Mas ele não tinha medo de gritá-los se fosse preciso. Cada um deles merecia um castigo pior do que o último, e Érbio esperava ansiosamente o dia em que seriam punidos. Ele suspirou, lembrando-se daquilo que ninguém deveria lembrar. Konar, o senhor das trevas, rei absoluto do Condado do Sul. Catura, o grande sábio amaldiçoado, o grande rei do Condado do Norte. Razan, aquele que não possui corpo físico e que entende a morte melhor do que todos os outros juntos, sultão absoluto das terras da Parcela de Darama. Ternur, a mulher que era meio inseto e que era capaz de controlar todas as pragas, sendo ela a rainha do Reino de Tiquanda e Ilhas Próximas. E por fim, Ylana, a cruel feiticeira do gelo, que assassinara o lorde original – e seu marido, Azzard – e que representava a magia negra. Suas terras eram o distante Estado de Hrodmir e Ilhas de Gelo. Os Cinco Lordes.
Uma batida suave na portinha de madeira negra arrancou-o de seu devaneio. Já sabia que ele viria. Só esperava terminar o manuscrito antes para poder entregar a ele.
- Entre. – Disse com sua voz tristonha e baixa. Houve um momento de espera e a porta abriu-se, revelando um elfo extremamente alto e com uma expressão apática. Seu monóculo dourado estava sujo e levemente lascado. – Veio mais cedo Faluae, ou eu que me perdi demais em meus pensamentos, sem ver o tempo correr?
O elfo sorriu de leve, revelando rugas inexistentes alguns dias atrás.
- Provavelmente a segunda opção, meu bom amigo. – Ele observou o pergaminho rabiscado sobre a mesa. – Concluiu finalmente?
- Não, ainda não. Falta pouco. Quero dizer, com o que tenho até agora. Mas ainda falta muito para se pesquisar, para que eu enfim compreenda nosso inimigo por completo.
- Estamos contando com isso. Todos nós. – Disse ele, sério. Érbio guardou o manuscrito junto aos demais e mergulhou a pena no tinteiro, deixando-a lá. – Não posso me demorar... Vernac quer me ver. Parece que tem novidades sobre o Assassino de branco. Só vim avisá-lo que os guardas chegaram para o escoltar até Beregar. Os chefes anões estão ansiosos para ouvir suas palavras.
Érbio assentiu levemente, com o olhar perdido na janelinha triangular.
- Diga a eles que me aguardem no térreo. Logo descerei para irmos. Preciso trocar de sapatos, afinal, pelo que me disseram, o caminho até Beregar é muito acidentado.
O elfo sorriu em resposta, levantando-se de imediato e caminhado demoradamente rumo ao portal que ainda jazia aberto.
- Espero que consiga o que nenhum de nós conseguiu, Érbio.
- Um milagre?
Ele balançou a cabeça, perdido em devaneios antigos.
- Sim. Um milagre. – E dizendo isso, Faluae virou-se e rumou para a porta, saindo e fechando-a ao passar.
- Faluae! – Gritou Érbio repentinamente, como se lembrasse de alguma coisa. O elfo parou e enfiou a cabeça pela fresta ainda aberta da porta, esperando-o continuar. Érbio indicou o martelo negro sobre a mesa. – Diga a Ahamed que consegui traduzir uma linha. Está escrito Belzeebub.
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Creio que todo mundo entendeu como se lê "Érbio"
"Belzeebub" seria lido como "Belzebú"
Dos Cinco Lordes, três a pronúncia ainda não havia sido apresentada, imagino eu:
"Razan" = "Razân"
"Ternur" = "Térnúr"
"Ylana" = "Ilâna"
A palavra "Zeed" lê-se como "Zid"
Da mesma forma que "Noor" é "Nûr"
Acho que agora chega. Ufa!
Um capítulo longo, insosso e muito chato de se ler, eu sei e entendo que possam torcer o nariz pro que eu escrevi. Não é exatamente o que vocês esperavam para o começo do Livro Dois, mas eu só podia fazer isso perante todas as modificações que fiz no curso da história. Originalmente a história do Pentágono seria narrada quando Angela e companhia ficassem cara a cara com Ahamed, lá pelo capítulo doze no planejamento original. Mas eu removi essa cena, mudei muita coisa pra deixar a história mais legal e essa cena aqui teve de ser feita por diversos motivos, não só contar a história. Que por sinal, está só pela meta aí em cima. Espero ter sido claro na explicação.
Agora teremos mais dois capítulos meio parados e pouco informativos até que a história retome seu ritmo habitual. Isso se deve a passagem de tempo que se dá entre o capítulo oito e o nove. Espero que compreendam :x
Manteiga.
Lord Callipso
10-10-2009, 15:08
Opa, que bom ter a história de volta, Manteiga!
Só fui constatar a volta d'A Cadeira de Cristal agora, com este capítulo. Enfim, não sou mestre nisso, mas vou destacar algumas coisas que gostaria de rever.
[...]a caveira dourada e meio rachada[...]
Não captei a idéia de "meio rachada". Tenho para mim que ou ela está rachada, ou não está :P
[...] Naquele tempo, os saberes eram regidos por um único senhor, chamado de Zeed. O Zeed era o iluminado maior, aquele que realmente tinha todas as respostas. Os saberes viam Zeed como uma espécie de deus, mas um deus que tudo sabia e tudo podia. Assim, fundaram sua própria religião, na qual passaram a adorar uma entidade chamada de Noor, termo sinônimo de Yöer. Eles defendiam que este era uma espécie de irmão de Zathroth, mas bondoso e que só deseja obter o conhecimento. Os venorianos porém, ao ficarem sabendo do culto ao “Deus do Saber”, que na terra era representado pelo líder espiritual dos saberes, enfureceram-se e invadiram a cidade em massa, que foi justamente o que de fato causou sua ruptura.
Não está em itálico :D.
[...]cada uma de uma região específica do Tibia.
[...]ter o Tibia nas mãos.
Não sei o porquê, mas os dois trechos me pareceram estranhos. "O Tibia" me parece um tanto quanto errado, visto que imagino "O Tibia" como O Jogo. Busquei um pouco mais e achei no Gênese um trecho:
Ele uniu-se com a terra que como sabemos é chamada de Tibia.
A terra é chamada, mas fico em dúvida se não queria ter escrito "do continente de Tibia" e "ter o continente de Tibia" nas mãos. Todavia, esperemos alguém se manifestar sobre isso.
[...]– Veio mais cedo Faluae[...]
Só mais uma vez aquele errinho de vírgula, pra arrumar: "[...]- Veio mais cedo, Faluae[...]".
Todavia, a história continua fantástica. No começo do capítulo nono, me assustei com a mudança de foco da história, passando de Angela para Érbio. Fico curioso, o foco voltará para a bruxa de laranja?
Enfim foi interessante saber mais sobre o Pentágono. Mas espero... talvez um pouco mais de ação no próximo capítulo :P.
Sinceros parabéns, e boa volta.
Manteiga
13-10-2009, 12:07
@Lord Callipso
Obrigado por indicar aquele parágrafo que não estava em itálico, já fui lá e arrumei :p A caveira "meio rachada" na realidade está trincada, só me faltou a palavra na hora :x Imagine como um copo que bate em algo e racha mas não quebra. Sobre o Tibia, bem, ficou estranho mesmo. Mas podemos imaginar esse o Tibia como o mundo, o planeta ou algo assim, não? Enfim, é uma questão de interpretação, eu acho ._.'
Obrigado por ter passado e comentado o/ Érbio assumiu as funções desse capítulo porque com certeza ele era o melhor para passar essa história adiante. Infelizmente não posso prometer mais ação nos próximos capítulos visto que há muito para ser completado, mas eu prometo que um dia essa ação vem :x E quem sabe a Angela apareça junto com ela...
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Aos demais, podem comentar viu ._. Eu deixo.
Manteiga.
Nossa. Li os nove capítulos Estão bem extensos alguns deles, isso é legal, a história parece se encaminhar para uma grande história épica cheia de ação, então é normal haver muita explicação em partes como o capítulo 9, que por sinal pensei que esse mesmo capítulo estivesse mostrando uma cena isolada no futuro, depois entendi que você disse que teve mesmo um salto no tempo.
A história está boa, e acredito que mais personagens principais aparecerão com o tempo, não é? Se não aparecerem tudo bem, o Zoroast é um personagem bem interessante. :D Só não gostei muito da Angela ainda... Mas ainda tem coisas interessantes a se mostrar sobre essa personagem.
Valeu, e parabéns pela história. :D
OBS : Se quiser dá uma olhada na minha história também: Terras Distantes!
Manteiga! Bom dia. Havia dito que leria tudo e só depois comentaria. Mas vi que há muita coisa, então vou lendo, comentando, lendo, comentando... e assim por diante. As duas primeiras partes têm uma escrita excelente, embora saiba que todo o restante também esteja muito bem narrado. O prólogo, como você mesmo disse, ficou mais explicativo, o que, a meu ver, quebrou um pouco da dinâmica da narrativa. Sabe, muitas informações, me deixaram meio perdida :P O primeiro capítulo, devo dizer, ficou ótimo, muito bem descrito e coerente. Ansiosa por continuar a leitura, logo postarei mais comentários. Até, Manteiga ;)
Bela~
Como você mesmo previu o capítulo ficou bastante cansativo. Achei um pouco exagerada a carga de nomes e citações feitas, me lembrou o que Dan Brown faz as vezes, contando pedaços da história da humanidade. Érbio foi bem construído, nada mais justo que um historiador seja perfeccionista, seus devaneios foram bem naturais para um homem comum, o que ajudou a torná-lo bem verossímil. Tome cuidado para ele não ganhar a mesma falta de emoções que a personagem Angela trasmite.
Achei o capítulo bem confuso também, exatamente por causa da quantidade de nomes, como eu disse. Essa história de lordes é um pouco manjada, então você terá que tomar muito cuidado para não acabar preso numa simples história de batalha com cada um deles, deixando seu roleplay oco.
Outra coisa, você está descrevendo muito bem, parece até Dan Brown, bastante detalhado e claro nas descrições. Parabéns.
Esperando o próximo.
RoxZin xD
17-10-2009, 19:02
A história tá moh rox
tô esperando os próx capitulos :D
gogo :D
cya
Desculpe-me pela demora. Já fui o escritor e sei como é chato esperar vários dias por comentários...
Por um instante, me senti lendo uma estranha mistura de O Mundo de Sofia com O Silmarillion. O capítulo ficou realmente cansativo e didático, mas admito que conseguiu inspirar curiosidade pelos próximos acontecimentos.
Na minha opinião, o problema é que o mote parece muito clichê e, de certa forma, infantil. A luta do bem contra o mal é um tema extremamente batido que necessita de renovação. Todavia, é claro que a história pode ser muito boa, só depende da abordagem e nível de profundidade.
Esse nono capítulo está muito bem escrito, mas algumas partes ficaram confusas, frases repletas de informações embaralhadas ou inseridas fora de contexto (o quarto parágrafo é o melhor exemplo).
Mais dois pontos:
O trecho "pergaminhos enrolados que dormiam alegremente" ficou muito estranho.
Tenha cuidado com as vírgulas antes da letra E. Nem todas estão erradas, mas muitas são desnecessárias, apenas travam o texto.
Pousou o copo então no mesmo lugar de onde acabar de sair: sobre um paninho imundo dobrado cuidadosamente e localizado diretamente ao lado do tinteiro azulado.
acabara
Érbio não podia negar que a cidade possuía uma expressão cultural exemplar, fosse pelas lendas impressionantes que cercavam sua origem e decadência, fosse pela brilhante arquitetura inenarrável que tornava o coração de Yalahar um lugar perturbadora e inapropriadamente belo.
perturbador
Na realidade, os saberes não todo e qualquer um que viveu em Saberon no seu tempo de glória.
são
Edron, Carlin, Venore, Darashia e Yalahar erma agora lugares seguros para se viver.
eram
Até!
Manteiga
23-10-2009, 13:07
Capítulo Dez
Medidas Emergenciais
Os ventos agitavam-se em fúria entre os altos e pontiagudos prédios de Yalahar. Provocavam ruídos fantasmagóricos quando encostavam nas edificações de mármore e tinham um potencial excepcional de arrastar qualquer coisa que não estivesse presa ao chão. Nuvens de tempestade aproximavam-se do sul, trazendo consigo presságios de uma catástrofe. Entre os chiados do vento arrastando-se pelas ruas e as minúsculas gotículas de água caindo do céu, notou-se uma movimentação anormal em dada parte da cidade.
Uma luminosidade trepidante era emanada de uma janela oval no térreo de uma suntuosa torre de mármore em um lugar afastado do centro da cidade. A fonte de luz alaranjada passaria despercebida se não viesse acompanhada de algumas vozes até certo ponto alteradas.
- Devemos entrar em ação imediatamente. – Declarou um homem alto, de porte atlético e expressão meio séria e meio divertida na face. Analisava os demais integrantes do recinto com certa compenetração, tentando decifrar o que se escondia por trás de seus olhos. Infelizmente, não era bom nessas coisas.
- E o que pretende fazer, Drago? – Disse uma voz calma pertencente a outro homem. Os três ocupantes do lugar viraram-se, espantados, quando viram o elfo Faluae parado na janela, admirando-os com seus olhos inquisidores. Ele sorriu e displicentemente entrou pela janela, acomodando-se em uma cadeira de madeira ao lado do homem que acabar de falar.
Drago corou.
- Eu... Bem... Temos tropas, não temos? Podíamos erguer uma armadilha nas muralhas de Yalahar e ver se conseguíamos por as mãos no cara, Faluae. – Percebendo que ninguém mais defendia sua idéia, adiantou-se: - Claro, é só uma... Suposição.
- E você estaria disposto a ficar horas a fio de tocaia nessa tempestade apenas para por suas mãos em um único homem que nada tem a ver com as instruções que recebemos de Ahamed? – Quem falou dessa vez foi Vernac, um homem que transpirava mistério e que trajava uma completa armadura negra e resistente, que não produzia ruído algum enquanto este se movia. Possuía uma longa cimitarra prateada presa à cintura. Os furos em seu elmo deixavam seus olhos azuis transparecerem, ameaçadores. Apesar do porte aterrorizador de da voz estrondosa, Vernac era um homem leal e de bom coração. – Eu mesmo responderei. Claro que não. Todos aqui sabemos que não é capaz de se expor tanto assim.
- Não me ultraje Vernac. Eu apenas... Bem... Eu sou meio... Inseguro.
- Não há espaço para insegurança nesta guerra meu caro amigo. – Adiantou-se Faluae ao perceber que Vernac ansiava por uma de suas famosas respostas cortantes. Drago assentiu de leve e pousou o arco esverdeado que carregava no colo, olhando distraidamente para o ambiente que o cercava. Era uma grande mesa de madeira redonda com doze cadeiras dispersas em torno de sua circunferência. Ele estava sentado diretamente ao lado de faluae, com Vernac sentado no extremo oposto. Perto da porta estava uma mulher distraída que não parecia interessada na conversa. – Mas enfim... Só me juntei à vocês porque Vernac me garantiu ter novidades a respeito do homem que insiste em atrapalhar nossos planos. Espero que sejam realmente boas notícias.
- As melhores, Faluae. Não podemos mais ficar adiando nossos trabalhos. Já faz dois meses que nosso senhor Ahamed nos deixou essa missão de importância inenarrável para os objetivos da Unie, certo?
- Deixe de floreios Vernac. – Reclamou uma voz feminina. Todos voltaram-se para a jovem mulher ligeiramente baixa, de traços fortes e olhos tempestuosos. Seus cabelos dourados estavam amarrados em um rabo de cavalo longo. Usava roupas um tanto quanto masculinas. – Todos temos ciência de que Ahamed está quase enfartando enquanto aguarda por novidades que não chegam nunca. Até agora não conseguimos dar um passo em direção à reconciliação dos anões. Continuam separados nas tribos de Kazordoon e Beregar. E não se engane: não é porque todos eles estão amontoados em Yalahar que teremos mais facilidade. Estão furiosos uns com os outros.
- Agradeço por sua opinião Laila. Só acho que poderia ter sido um tanto quanto mais... Eufêmica. – Retorquiu o cavaleiro de preto. Pigarreou e voltou aos seus argumentos. – Acho que nossa companheira aqui já deixou clara nossa situação. Ahamed nos escolheu por razões óbvias para essa missão: a mim pelo fato de que sou um dos melhores generais que ele tem, a Faluae por sua excepcional ação como diplomata, a Drago por seus trabalhos passados como espião e à Laila por ser um membro de confiança da revolução. Tínhamos tudo para ter sucesso em pouco tempo. Mas até agora, apesar de nossos esforços, ainda não conseguimos que os líderes das duas tribos de anões assinassem um acordo e reunificassem seu império. E todos nós sabemos que se eles não se unificarem, não irão nos apoiar nessa guerra. E a última coisa que precisamos é perder aliados preciosos como os anões.
Faluae assentiu distraidamente enquanto Drago balançava as pernas em fervor, expressando seu típico nervosismo.
- Pois bem... Estamos fracassando miseravelmente. Precisamos fazer alguma coisa imediatamente, pois estamos perdendo muito tempo. E tempo é algo que não pode ser desperdiçado. – Vernac fez uma pausa para assegurar que suas palavras gerariam o efeito apropriado. – E não podemos fazer absolutamente nada enquanto aquele maldito que conhecemos por Assassino de Branco estiver solto por aí. Tenho a impressão de que enquanto ele respirar, seguirá matando. Mas felizmente, meus homens conseguiram grandes resultados nos últimos dias. Espionamos toda a superfície da cidade de Yalahar, incluindo os quarteirões, e fizemos duas descobertas que com certeza irão facilitar e muito nosso trabalho. Em primeiro lugar, nosso alvo é um ser humano. Atingimos um de seus braços com uma flecha, e este sangrou.
Drago sorriu de leve e Faluae permaneceu inalterado, como se esperasse mais. Mas de fato será mais fácil para matá-lo, pensou ele.
- A segunda descoberta foi a melhor. Seguimos a trilha de sangue deixada por ele e chegamos ao seu provável lar. O Quarteirão de Trocas.
Todos os presentes – incluindo Laila, que aparentava estar totalmente alheia ao discurso cansativo de Vernac - arregalaram os olhos perante a notícia inesperada. O Quarteirão de Trocas era um pedaço de Yalahar dominado pelos criminosos, composto de algumas casas e um verdadeiro labirinto de pontes e barcos de contrabando. Não era a mais surpreendente das notícias, mas significava um grande avanço. O Assassino de Branco era simplesmente o maior inimigo da Unie naquele momento. Um provável agente do Pentágono, vigiava e atacava qualquer humano que encontrasse – o que era muito estranho considerando a recente descoberta de Vernac. Sua rapidez e perícia invejável tornavam-no uma verdadeira peste impossível de se capturar. Inúmeras armadilhas já haviam sido feitas, mas nenhuma tivera êxito. Muitos homens haviam morrido para tentar detê-lo. E aparentemente chegara a hora do jogo virar de lado. Mas mesmo com a descoberta da aparente moradia do bandido, procurá-lo lá seria como capturar uma folha em um vendaval.
- Estou certo de que com ele fora do nosso caminho, finalmente poderemos completar o que nos foi atribuído. Já estou preparando meus homens para cercar todas as saídas possíveis do Quarteirão de Trocas. Amanhã de manhã iniciaremos uma incursão. E até o fim do dia o teremos, vivo ou morto. Preferencialmente morto.
- Muito bem Vernac. – Disse Faluae, ficando em pé e batendo o pó da capa marrom que usava sobre todo o corpo. – Mas não creio que o Assassino de Branco seja nossa maior preocupação no momento. Eu recentemente recebi informações preciosas de certo contato que possuo dentro das Tropas das Sombras. Informações que podem nos ajudar a conseguir a paz dos anões.
- O que?! Você tem um maldito espião nas Tropas? Mas... Como isso é possível?! – Gritou Drago engasgando-se entre uma sentença e outra. Vernac olhou-o com reprovação e Laila murmurou alguma coisa inaudível, como se estivesse o amaldiçoando.
- Por favor, peço que relevem esse fato, pelo menos por enquanto. Apenas posso assegurar que é um contato confiável. Devemos ir direto ao ponto: sabemos todos que, aproximadamente um ano atrás, ocorreram os lamentáveis assassinatos de nossos mais ilustres líderes. Entre eles estava Daniel Steelsoul, o grande governante de Edron. As análises feitas em seu corpo deixaram claras quais foram as causas de sua morte: envenenamento. Pois bem... Cerca de um mês após a morte de Steelsoul, o Imperador Kruzak de Kazordoon foi encontrado morto em seu trono. E adivinhem só. Ele foi envenenado.
- Onde quer chegar? – Indagou Laila de modo áspero. Vernac pareceu surpreso ao ouvi-la falar.
Faluae sorriu.
- Existe um registro no Barco à Vapor que liga Kazordoon à ilhota de Cormaya, localizada diretamente ao sul de Edron. Eu consultei esse registro nas últimas semanas e descobri que a última vez que aquele barco chegou à cidade dos anões foi há doze meses, exatos dois dias antes da morte de Kruzak.
- Está insinuando que o responsável pela morte de Steelsoul... – Começou Vernac, sendo abruptamente interrompido por Faluae com um gesto simples de sua mão esquerda.
- Também matou Kruzak. Isso é um fato. E como vocês sabem muito bem, devido a crises muito antigas, os anões passaram a viver em duas cidades diferentes: Kazordoon, no continente, e Beregar, nas profundas cavernas próximas à Yalahar. Viveram anos de uma guerra civil com objetivos adversos. E a morte de Kruzak foi a gota d’água. Os anões do norte acusam uma facção de anões de Kazordoon de serem os responsáveis, e assim fazem os anões do sul também. E isso é o fator responsável por sua ruptura, que justamente nos trouxe até aqui hoje. E até onde sabemos, provar que não foi nenhum dos dois grupos o responsável pela morte de seu imperador será um grande passo rumo ao retorno dos laços de amizade entre os anões.
- E daí? – Dessa vez quem falou foi Drago, bocejando.
- E daí que eu sei quem matou Daniel Steelsoul. É um dos vampiros mais conhecidos da atualidade, e um fiel servo de Konar, o amaldiçoado. Seu nome é Sir Valorcrest.
- Valorcrest?! – Gritou Vernac, ficando em pé e batendo na mesa com força. Já ouvira falar dele antes. Era conhecido por ser um vampiro poderoso de muito difícil de se capturar. Sua localização era uma incógnita. Valorcrest era tão brutal no que fazia que até mesmo os demais vampiros temiam pronunciar o seu nome.
- Exatamente. E tem mais: eu tenho quase certeza de onde ele está refugiado. – Os três encararam-no longamente, convidando-o à responder. Faluae respondeu com uma simples palavra que causou uma explosão nas mentes dos demais: - Aqui.
- Isso... Isso é... Inacreditável. Um dos seres mais procurados de todos os tempos... Bem embaixo do nosso nariz. – Vernac falou com um tom de leve decepção. Mas logo se recompôs e voltou-se para Faluae, encarando-o como se esperasse que o elfo desmentisse tudo de imediato. Mas como nada ocorreu, o líder das tropas de Yalahar pigarreou e falou com seu típico tom solene e convidativo. – Então faremos o seguinte: Eu e Drago, junto com as tropas já posicionadas, iremos atrás do Assassino de Branco amanhã mesmo. Irei também pedir que Oryx peque suas tropas e acompanhe você e Laila no que precisarem. Quero que você encontrem Valorcrest e façam o possível e o impossível para provar que é ele o responsável pela morte de Kruzak. Aproveitem e tentem extrair mais informações dele. Faluae... Valorcrest é nossa última esperança. Se não for ele quem unificará o império, ninguém mais o fará.
Faluae assentiu com um aceno de cabeça enquanto Vernac voltava a se sentar e pairava um perturbador e incomum silêncio nos ares de Yalahar. Os ventos haviam cessado.
Drago e Laila com pronúncia óbvia.
"Vernac" = "Vêrnác"
"Valorcrest" = "Valorcrést"
Não tenho nada a dizer, apenas que é um capítulo transitório bobo para adptá-los aos acontecimentos atuais. No último capítulo conhecemos um pouco da situação passada do Pentágono, e nesse um pouco da situação atual do contexto. Capítulo fundamental também para apresentar tres personagens recorrentes nessa longa trama. Eu sei muito bem que esses últimos capítulos vieram atropelando tudo, saindo do ritmo da história, mas se eu não fizesse isso provavelmente eles ainda nem teriam chegado à Venore depois de sair de Ab. Ou era atropelar por três, quatro capítulos ou prolongar por cinco ou até mais. Espero que entendam :/
Anyway, esse é o capítulo com menos frases em itálico xD
@Todo mundo
Obrigado por passarem e comentarem, fico surpreso que tenha vindo bastante gente nesse último capítulo :O Fico feliz com seus comentários e espero que voltem mais vezes xD
@Drasty
Sim, eu tinha consciência de quase tudo o que você disse. Mas isso foi uma daquelas coisas que eu não tinha como mudar, do contrário ia ficar pior ainda. Obrigado pelo elogio, e que bom que gostou do Érbio ^^ Não planejei ele originalmente, mas acabei desenvonvelndo-o de um jeito que gostei muito. Quanto aos lordes, bem, lutar contra os cinco inevitavelmente acontecerá mais cedo ou mais tarde, e isso achei que tinha ficado claro desde o princípio. Mas isso não quer dizer que matar a cada um seja o objetivo fundamental da Unie. As lutas serão... Consequências.
@Avestruz
Don't worry, fiquei sem computador por uns dias e foi uma boa surpresa ver seu comentário quando voltei :d Eu concordo e discordo com sua abordagem sobre bem e mal. Discordo porque são dois pólos básicos e presentes em tudo, mesmo que de formas indiretas ou mascaradas. E concordo por que realmente é um clichê muito chato e que fica muito evidente na minha história. Espero poder lapidá-la de um modo proveitoso mesmo assim.
Manteiga.
Na minha opinião, o capítulo dez peca em vários quesitos.
Apesar de não ser tão difícil imaginar, uma descrição como "expressão meio séria e meio divertida" está longe de ser instigante. Além disso, algumas frases ficaram cansativas, entupidas de adjetivos. (Exemplo: "Uma luminosidade trepidante era emanada de uma janela oval no térreo de uma suntuosa torre de mármore em um lugar afastado do centro da cidade".)
A primeira citação sobre Laila é bastante redundante ("uma mulher distraída que não parecia interessada na conversa"). E eu fiquei sem entender a personagem, que ouvia tudo, mas estava em outro universo... por sinal, nada parecia se encaixar. A reunião resultou em uma passagem artificial e pouco fluida, principalmente quando Vernac explicou as funções de cada um deles e Faluae deu uma aula de história sobre Kazordoon.
O problema não é ser transitório, mas, como você mesmo disse, bobo. É possível preparar o terreno e introduzir personagens em capítulos interessantes e bem escritos. O texto perde a graça quando tudo soa como justificativa forçada para explicar acontecimentos futuros.
Ele sorriu e displicentemente entrou pela janela, acomodando-se em uma cadeira de madeira ao lado do homem que acabar de falar.
acabara
Apesar do porte aterrorizador de da voz estrondosa, Vernac era um homem leal e de bom coração.
<apaga>
- Não há espaço para insegurança nesta guerra meu caro amigo.
<vírgula>
Ele estava sentado diretamente ao lado de faluae, com Vernac sentado no extremo oposto.
Faluae
- Agradeço por sua opinião Laila.
<vírgula>
- O que?!
quê
Era conhecido por ser um vampiro poderoso de muito difícil de se capturar.
e
Quero que você encontrem Valorcrest e façam o possível e o impossível para provar que é ele o responsável pela morte de Kruzak.
vocês
Impossível não reparar que você costuma cometer os mesmos erros, como "acabara" incompleto, "sue", "que" sem acento circunflexo (quando está no final da frase), e por aí vai. É caso para uma revisão minuciosa.
Até.
Desculpa a demora, finalmente vou comentar.
Esse capítulo me lembrou as partes do "Senhor Dos Anéis" onde a história é explicada, só que quando isso acontece o interlocutor não sabe de nada. No caso desse capítulo, todos já a conheciam, ficou algo extremamente estranho. Era necessário, mas você deveria ter feito de outra forma...
Os personagens foram arremessados na gente, pouco conhecemo-os e tivemos que logo entender seus argumentos e idéias. Faluae continua a ser apenas mais um e os outros também me pareceram estereotipados. Você ainda precisa trabalhar muito em cima disso.
A história finalmente toma rumo, estou esperando por mais... :)
Manteiga
10-12-2009, 11:27
Um mês e um dia depois... Lembram-se de Zoroast?
Capítulo Onze
A Missão de Zoroast
Dois meses, pensou Zoroast enquanto admirava o inferno de areias no qual havia de metido. Tudo que se via pelo horizonte era o árido e interminável Devourer, dourado e enganador como de costume. A única coisa perceptível em seu seio era um emaranhado cinzento alguns quilômetros ao sudeste dali. Darashia. A cidade controlada pela Unie quase desaparecia em meio à tempestade de areia que se erguia nas redondezas. O grande mar reluzente misturava-se ao céu alaranjado criando o que parecia ser um plano de uma cor só. Estar em inferno, pensou ele, desconcertado, e não ter amigos aqui. Mas isso não era exatamente uma verdade. Alguns minotauros membros da Unie o estavam tratando de certo modo como um amigo distante. Mas Zoroast sentia falta de alguém.
Angela. Gostaria de ter tratado-a melhor na última vez em que se viram. Lembrava-se com tristeza do momento em que saíra de sua fúria ao constatar que não ouvia a falante bruxa do pântano na multidão. Chamara a atenção de Faluae e quando ambos repararam, ela já havia desaparecido. Vasculharam a noite toda as proximidades de Ab’Dendriel e tudo que encontraram foram penas negras manchadas de sangue. Faluae olhara tristemente para o nada e deixara a verdade absoluta pairar entre os dois. Ele a levou, dissera ele. E no começo, parecia mentira. Mas agora estava óbvio que era verdade. Dois meses sem notícias. Zoroast queria muito poder falar com ela de novo. Queria se redimir.
Mas era impossível. Ela estava presa em algum lugar distante, se é que ainda estava viva. E ele estava acorrentado ao trabalho que Ahamed, o líder da Unie, lhe designara: obter a ajuda dos minotauros. Era de conhecimento público que todos estavam refugiados no Devourer, e que, apesar de sua clara inimizade com Yöer, não estavam interessados em aliança com os humanos. Ahamed enviara todos os minotauros aliados na tentativa de fazer o rei Markwin mudar de idéia. E até agora os avanços eram ínfimos. Zoroast encarava o horizonte e imaginava se um dia aquela guerra teria um fim, se todos aqueles esforços seriam compensados algum dia. Talvez. Ele não queria admitir, mas tudo era mais difícil sem os comentários satíricos de Angela. Querer destruir Raven, pensou ele.
Suspirou demoradamente enquanto fitava seus cascos suspensos no ar. Estava sentado na beirada de um pedaço negro de chão que avançava pelo ar. Oito metros separavam-no do solo quente. As memórias do dia em que chegara à Venore afloravam de forma descontrolada em sua mente. Recordava-se com clareza da confusão que fora, como fora mal recebido por alguns guardas e como tivera impasses desagradáveis até convencer Ahamed a aceitá-lo na Unie. Pensara até mesmo em desistir. Mas lembrara-se de imediato que precisava vingar sua tribo e Angela, e isso deu-lhe forças para continuar adiante. Logo no dia seguinte, Ahamed apresentou três indivíduos aparentemente importantes dentro da revolução para ele: Laila, uma espiã hábil e talentosa assassina; Drago, o chefe dos paladinos e grande informante; e Vernac, um dos grandes generais, um homem confiável e braço direito de Ahamed. O último provocara sensações adversas em Zoroast: parecia ser um bom homem, mas transpirava um mistério incômodo. Mas nem pudera trocar qualquer idéia – não que quisesse, claro – com ele. Logo foram separados. Os três, Faluae e alguns soldados foram mandados para a recém-conquistada Yalahar, enquanto ele e os demais minotauros, chefiados por Asrak, seguiram até Darashia. De lá fizeram uma longa caminhada até a Pirâmide Negra, onde estavam refugiados os minotauros. E até então eles estavam ali.
Ele olhou para o horizonte, desejando estar de volta às planícies onde nascera. Tão longe. Darashia ficava no grande continente de Darama, localizado ao sul-sudeste do Continente Principal. Darama era cortado pela vasta cadeia montanhosa de Kha’Zeel, que o dividia em deserto e em uma densa floresta tropical denominada Tiquanda. Toda a área verde estava sob o domínio de alguém que Zoroast não sabia dizer quem era. Porém, ele sabia muito bem que quem dominava o deserto de Darama era o necromante chamado Razan. Naquele momento ele devia estar planejando como tomar Darashia. Zoroast imaginava se os minotauros o apoiariam. Precisar convencer Markwin. Mas o imperador de sua raça era inflexível em suas decisões. Ninguém conseguiria fazê-lo mudar de idéia a menos que o próprio quisesse. E talvez ele só fosse querer quando a guerra já estivesse perdida.
Sua audição apurada captou o som de cascos próximos, ecoando no chão de mármore negro que refletia à luz do sol. Havia um grande buraco naquela parte da pirâmide, por isso Zoroast gostava de se sentar ali, onde acreditava ser mais reservado, para poder pensar melhor. Mas aparentemente não era só ele que gostava de ir até aquele lugar desolado. Virou a cabeça para trás e sentiu um alívio inesperado quando viu que era seu chefe, Asrak, que se aproximava. Estranho, pensou ele. Durante muito tempo quisera conviver com outros minotauros, mas desde que dividia um espaço com seus semelhantes, Zoroast cada vez mais sentia-se excluído. Não sabia explicar por quê. Asrak sentou-se ao seu lado, colocando os cascos do lado de fora da pirâmide. Estava com uma alegria perturbadora na face bovina.
- Pensando na vida, meu bom amigo? – Indagou ele na língua-mãe dos minotauros. Zoroast examinou-o bem: era mais alto do que ele, com pelagem mais escura e firme, possuindo olhinhos apurados e orelhas esticadas. Seus chifres eram amarelados e um deles estava rachado na base. Trajava uma armadura azul de batalha, aparentemente muito resistente, que lhe cobria todo o peito e os ombros. Trazia um machado preso às costas. Seus cascos estavam gastos e ele parecia transpirar uma autoridade cômoda. Zoroast o admirava.
- Sim. – Admitiu ele. Não precisava falar nada para saber que Asrak sabia exatamente sobre que parte da sua vida ele estava refletindo. Era como se ele tivesse vivido momentos iguais aos seus.
- Compreendo. Todos precisamos fugir um pouco da realidade às vezes, não é mesmo? Principalmente se você não estiver devidamente incluindo em seu meio. – Asrak olhou de soslaio para o ainda distraído Zoroast e sorriu de leve, revelando presas amareladas e incomuns. – Ainda bem que não está lá embaixo. – O minotauro indicou o subsolo da pirâmide com o chifre. Era lá que viviam as maiores autoridades, incluindo Markwin. – Está um caos completo. Uns dos nossos estão tentando convencer os líderes das forças armadas à se revoltarem ao regime imperial, e Markwin ficou sabendo. Está uma gritaria absurda. Quase enlouqueci.
Zoroast deu uma bufada expressando suas risadas contidas.
- Posso imaginar. – Ele virou a face para o companheiro e sentiu-se confortado de repente. – Esse incidente pode prejudicar nossa missão? Ahamed vai nos matar se não conseguirmos o apoio deles.
- Nah, pode ficar tranqüilo. Markwin já está acostumado com rebeldias. Ele é duro na queda, mas se cair, vai se quebrar. Só precisamos usar os argumentos certos. E não podemos deixar de lado a parte em que citamos os benefícios que Mintwallin teria.
Zoroast riu alto. Asrak riu junto e eles compartilharam um momento de descontração há muito esperado. Ele pareceu notar e logo calou-se. Quando o silêncio reinou, declarou:
- É estranho.
- O que é estranho? – Indagou Asrak sem tirar os olhos dele.
- Eu sempre me imaginei vivendo entre outros minotauros. Não que não tenha vivido – acrescentou rapidamente – mas é que... Minha tribo parecia se incluir tão bem comigo... Não havia brigas entre nós. Éramos livres e vivíamos muito bem com todos.
Asrak concordou lentamente.
- Você nunca viveu sob as garras de Markwin. – O general virou a cabeça para trás como se esperasse que um grupinho de espiões saltasse das sombras e o matasse. – Ele é louco. Vive atacando verbalmente todas as outras raças, oprime a todos e incentiva conflitos internos. Parece ter uma sede incontrolável de guerras. Deve estar amando o que está acontecendo no mundo agora. – Ele fez uma pausa demorada. – Todos os minotauros que crescem em Mintwallin parecem ser infectados pela mesma doença que ele tem. Por isso os nativos de lá são muito mais violentos, burros e fechados às diferenças. Não são como nós que crescemos em campos abertos, convivendo com trasgos, orcs e até mesmo humanos. Não é de se surpreender que esteja sendo tão difícil.
Alguma coisa caiu alguns metros atrás dele, chamando a atenção de ambos. Passos ecoaram e alguma coisa de moveu nas sombras rapidamente. Asrak resmungou.
- Melhor conversarmos na língua dos humanos. – Declarou ele, habilmente mudando de idioma. Zoroast assentiu meio contrariado, mas não pôde deixar de admitir mentalmente que o companheiro era muito fluente naquele idioma. Asrak continuou. – Eles nos vêem como criaturas mais fracas e submissas. Estão cegos ao fato de que precisamos nos unir.
- É.
- Por isso estamos aqui Zoroast, e por isso temos que nos manter calmos. Temos de convencer os anciãos. Eles são os únicos que conseguem controlar até certo ponto as ações de Markwin. Se os doze estiverem apoiando o ideal da Unie, já podemos enviar um pombo-correio a Ahamed passando as boas-novas. Mas devemos tomar muito cuidado com o braço direito do imperador, aquele que chamam de Murius. Ele defende com força a tese de que minotauros devem viver isolados. E poderá ser uma pedra das grandes no nosso sapato.
Zoroast concordou mais uma vez e voltou a olhar para o além, na direção de Darashia. Pode observar que uma longa e negra coluna de fumaça rodopiava pelo céu nascendo justamente na cidade.
- Tropas das Sombras atacar Darashia. – Disse ele, sentindo-se levemente envergonhado pelo pouco conhecimento daquele idioma. Asrak pareceu relevar esse detalhe.
- Sim. Infelizmente não há nada que possamos fazer agora. Se pormos os pés pra fora da Pirâmide, Markwin nos come vivos. E depois do que aconteceu lá embaixo, tenho certeza que ele está realmente com vontade de fazer isso.
- Raven estar lá? – Indagou Zoroast inocentemente. Asrak levantou-se e o encarou de modo complacente.
- Talvez, meu amigo... Talvez.
E foi embora deixando Zoroast a pensar em Angela.
Os próximos três capítulos serão antigos, escritos mais ou menos junto com esse aqui e os demais. Depois disso passei por essa maré de falta de inspiração e até ontem não tava produzindo nada. Mas agora já recomecei a partir do capítulo quinze.
Manteiga.
Gostei do capítulo, especialmente do final dele. Não acho que o Zoroast vai ficar ali parado enquanto sente a falta de Angela... Ação no próximo capítulo? Quem sabe... A história está ficando boa, parabéns Manteiga.
Gabriellk~
10-12-2009, 12:39
Pensei que você não fosse mais escrever essa história, por isso nem me animei a ler.
Mas agora que voltou, vou ler os capítulo feitos até agora e depois posto uma opinião. Só li o prólogo e parte do primeiro, mas parece ser uma grande história. =)
Mais um capítulo transitório necessário, esse foi mais interessante do que o anterior. A conversa me pareceu bem natural. Outro fato interessante é a humanização que você vem fazendo capítulo a capítulo do Zoroast, ajuda os leitores a se interessarem pela relação dele com a Angela (personagem ainda muito mal elaborada).
Tenho dois avisos para você. Cuidado com os extremos, ninguém é totalmente bom e nem totalmente mal, balanceie. E, tome cuidado com a forma de mostrar os pensamentos das personagens se usar esse recurso toda hora corre o risco de tornar a narrativa superficial.
Aguardando os próximos.
Thomazml
10-12-2009, 12:58
Ufa. Acabei a maratona....
Como li seis capítulos seguidos, não posso especificar muito. Só que: a história ficou arrastada no capítulo nove e dez. No capítulo dez, também, surgem não sei quantos personagens, com características pouco explicadas e um pouco superficiais.
Com o décimo primeiro capítulo, porém, acho que você retomou "o lado bom da força". Foi um capítulo descritivo, mas mesmo assim me prendeu até o final. Asrak foi melhor apresentado do que os outros personagens do capítulo anterior.
Vou acompanhar =)
PS: eu notei um "Nah"... ficou estranho o.o
Duas ideias bastante contraditórias passam pela minha cabeça a cada capítulo que leio; 1) opa, isso irá ficar realmente interessante no próximo; 2) lenhou-se, o Manteiga se meteu em uma sinuca de bico.
A história esteve bastante empolgante entre o prólogo e o quarto capítulo, derrapou feio no quinto e seguiu prometendo melhoras do sexto ao oitavo. E já foram três capítulos transitórios desde que começou o Livro Dois; não é exatamente ruim e eu nem estou criticando, mas é que existe muita expectativa em algo do tipo, cada frase soa como uma promessa de um grande enredo que está prestes a nascer.
Eu ainda tenho dúvidas se utilizar tantos focos para contar essa história (que, de certa forma, aparenta ser construída por ideias muito simples) é uma boa ideia.
Sobre esse último capítulo: achei legal, serviu como um explicativo funcional, leve e simpático. Só resta saber para onde tudo isso irá nos levar ou até quando dará certo.
Também achei aquele "nah" meio "q". :o
Manteiga
09-01-2010, 14:44
Uma longa demora, de novo. Explicações ao fim do capítulo.
Capítulo Doze
Apollo
Carlin era frequentemente chamada de “A Cidade das Mulheres”. Quase todos os viajantes – e não eram poucos – que passavam por ali citavam a expressão pelo menos uma vez antes de partir. O curioso é que quase ninguém sabia exatamente o porquê daquilo. Quando indagados, os aventureiros desconversavam ou diziam que era porque quase todos os trabalhadores locais eram do sexo feminino. Na realidade, Carlin recebia aquele duvidoso título devido à antiga guerra que separou-a de vez de Thais. Quase todos os homens morreram naquele terrível episódio, e sobrou para as mulheres reconstruírem a cidade, que prosperaria tanto quanto a grande capital. A tradição de empregar apenas mulheres foi mantida em honra à memória das pioneiras da cidade, mas mesmo assim havia alguns homens trabalhando por ali.
Grande centro econômico e um refúgio muito popular, Carlin vivia apinhada de gente todos os horários do dia. Era praticamente impossível passar pelas ruas de pedra da cidade e não encontrar um bolinho de amigos falando sobre dragões ou negociando penas de galinha. A cidade que nunca se cala, quem diria, seria a primeira a fechar a boca perante o que acontecera, um ano antes. Alguns amigos que estavam conversando no meio da rua avistaram um forasteiro estranho, totalmente encapuzado, como se tivesse vindo do deserto. Ele nada disse aos amigos, sequer se identificou. Em ocasiões normais eles teriam relevado aquilo. Mas decidiram reportar às autoridades no momento em que viram, marcado na capa vermelha que o indivíduo usava, um pentagrama amarelado.
A Brigada Feminina de Carlin, responsável por manter a ordem na cidade, entrou em ação imediatamente. Revistaram todos os cantos da cidade buscando o misterioso homem. Ele nunca fora encontrado. Rumores disseram que ele teria passado pelo castelo, o que fez todas as guardas da cidade correrem até lá e erguerem uma vigília que duraria toda a noite. Quando amanheceu, as honrosas cavaleiras carlinenses viram sua cidade revirada, corpos inocentes atirados ao chão e fogo espalhando-se por todos os lados. Mas sua rainha estava salva. E ela, sábia como era, daria um jeito de resolver o que os supostos baderneiros fizeram. Foi só no dia seguinte que chegou à cidade a notícia de que o rei Tibianus III fora achado morto. E nos demais dias da semana, mais e mais notícias similares percorreram as ruas da Cidade das Mulheres. A brigada não precisou pensar muito para perceber o ocorrido. O maldito forasteiro fora enviado até lá para eliminar a rainha Eloise, mas falhara miseravelmente. A partir do dia em que aquela tenebrosa descoberta havia sido feita, Carlin nunca mais seria a mesma.
Um ano e alguns meses depois, a cidade jazia deserta. Raramente se viam pessoas andando, mais raramente ainda se via pessoas conversando e em ocasiões de absurda raridade era possível ver sorrisos nas faces das mulheres. Mas quem podia culpá-las? Carlin sofrera mais do que qualquer outra cidade quando o Pentágono de Yöer florescera, estendendo seus braços nodosos por cada canto daquela terra desolada. Estava vivo na memória de todos os habitantes da cidade o momento em que um elemento baixo, extremamente branco e de expressão assombrosa invadira o castelo, mandara prender a rainha e sentara-se no trono, proclamando Carlin como a capital do Condado do Norte. E o homem que andava apressadamente pela parte baixa da cidade tinha nojo de se lembrar do modo sarcástico com que ele falava. Catura.
Apollo era alto, magro, com ombros largos e um corpo invejável. Possuía cabelos louros desgrenhados no alto da cabeça, que lhe davam uma expressão divertida. Andava com um porte impactante, arrancando o ar das pessoas ao seu redor. Em troca, Apollo lhes dava energia. Todos que o conheciam tinham de admitir que ele transmitia uma segurança impressionante. Além disso, Apollo era conhecido por sua alegria inabalável e esperança inesgotável. Não que ele gostasse de ser lembrado de tal forma, apenas orgulhava-se de seu trabalho, e era através dele que queria figurar os livros de história. Ele era o general das tropas da Unie que estavam em Carlin naquele momento. Em outras palavras, era a maior autoridade local depois da própria rainha.
Ele não era um homem de poucas palavras. Falava o tempo todo, sobre tudo que pensava, e um de seus passatempos favoritos era ficar andando em círculos no pátio da sua casa recitando em voz alta suas incertezas e seus planos para o futuro. Geralmente quem passava pela rua nesses momentos o encarava com uma espécie de caridade pela sua aparente insanidade mental, mas Apollo simplesmente se divertia com isso. Ou eu rio, ou eu caio no choro, pensava ele todos os dias. A situação atual do planeta não permitia tanto otimismo, mas ele sabia que ficaria louco se não risse um pouco.
Enquanto caminhava decidido pelas ruas da cidade, demorando-se ora ou outra para apreciar a já conhecida arquitetura local, Apollo notava ainda a depressão transmitida pelas ruas vazias. Era como arrancar o caroço de uma maçã. Carlin perdera toda a sua energia no momento em que Catura ascendera ao trono. Na época, Apollo era um soldado de Thais. Ele detestava lembrar de como fora frustrante descobrir que o rei havia sumido e que fora encontrado morto um dia depois. Ele, como soldado e como cidadão thaiense, estava destruído. Prometera jamais permitir que os responsáveis tomassem uma cidade. E com esse ideal foi um dos primeiros a se alistar ao movimento revolucionário que surgia na capital, a Unie. Em pouco tempo o movimento cresceu, mudara-se para Venore e se estabelecera como a maior esperança contra o Pentágono de Yöer. Atualmente, quase todas as raças do mundo eram aliadas da revolução.
Apollo cumprira sua promessa quando Ahamed, que logo tornara-se seu melhor amigo, promovera-o ao cargo que atualmente ocupava. Ele e seus homens invadiram Carlin e combateram bravamente os mortos-vivos que haviam dominado a cidade. Expulsaram Catura num momento de tensão e foram louvados como os salvadores. Mas cerca de dois meses depois, Catura voltaria com mais aliados e iniciaria uma longa guerra apenas finalizada recentemente, com uma apertada vitória da Unie. Mas o Lorde-Que-Tudo-Sabe ainda não havia desistido. Estava escondido em algum lugar, provavelmente Folda, esperando a hora certa de atacar novamente. E o comunicado que recebera momentos atrás fazia Apollo acreditar veementemente que chegara a hora de uma nova batalha.
Um dos seus homens, Perseu, procurara-o na taverna subterrânea da cidade, aonde ele desfrutava de um bom vinho e de um momento de paz. Dissera-lhe que haviam descoberto alguma coisa sobre o prisioneiro que haviam feito recentemente. Perseu correra apressado de volta ao local onde ele estava sendo mantido, e Apollo ia vagarosamente atrás. Pensava de seria algo sério. Será que finalmente descobriram seu nome ou a quem trabalha? A curiosidade invadia-o só de lembrar como o elemento era excêntrico. Fora achado quase morto perto do portão norte cerca de uma semana antes, com diversos ferimentos pelo corpo e implorando por comida. Fora recolhido, cuidado e alimentado, mas após estourar os miolos de um dos soldados, fora preso e estava sendo interrogado sem sucesso desde então. Apollo detestava admitir, mas a figura lhe transmitia um interesse mórbido. Devo estar ficando louco.
Chegou ao grande prédio da Brigada. Era uma edificação simples, de tijolos, localizada diretamente ao lado do portão leste da cidade. Com um teto baixo de madeira apontando imponente para o alto, o prédio podia ser visto alguns quilômetros longe da muralhas, o que facilitava muito para os guardas recém-chegados. E também para ataques inesperados. Apollo não gostava da idéia de ter seus prisioneiros ali, afinal o prédio podia muito bem ser reconhecido e estourado à distância. Mas para não ser acusado de preconceito, resolvera permitir que a brigada mantivesse-os ali. Logo que chegou, dirigiu-se a um homem alto e de aparência forte, que usava uma armadura cinzenta e que tilintava alto quando ele se movia. O homem sorriu quando o reconheceu.
- Ficou observando a beleza da cidade de novo, general? – Indagara Perseu, com uma vozinha pouco apropriada para seu porte ameaçador. Apollo concordou com um leve aceno de cabeça, passando os olhos pelo braço esquerdo do guarda até chegar a sua mão, que segurava um livro de capa negra de aparência duvidosa.
- Gosto de pensar que está tudo inteiro apesar da guerra. Fizemos um trabalho bom em preservar as edificações e em levar os piores combates para fora das muralhas. – Dissera com sua voz sonora e segura, que parecia fazer o prédio gigantesco atrás dele diminuir de tamanho e tremer levemente. – Por que me chamou? O vinho estava bom.
Perseu soltou uma risadinha involuntária. Logo se recompôs, escorando a longa lança de dois metros que trazia na outra mão à parede,
- Bom, interrogamos mais um pouco aquilo – Apollo não gostava que se referissem ao prisioneiro com aquele termo, mas concordava que era de fato, uma entidade muito esquisita. – e... Bem, como era de se esperar, não nos disse nada que não soubéssemos. Mas não deu sequer uma pista a respeito do nome, idade, afiliação, cidade natal. Mas hoje... bem, aquilo falou de um modo que parecia que conhecia a Unie. Espantou-se quando lhe dissemos que Ahamed era nosso líder, mas espantou-se como se já o conhecesse. E falou alguma coisa sobre um corvo... Não fez sentido para mim.
Mas Apollo tinha a péssima impressão de saber exatamente aonde tudo aquilo ia dar. Corvo... Será que está se referindo ao... Engoliu em seco e fitou Perseu com seus olhos castanhos faiscantes.
- Quero ir até a cela. Eu mesmo farei o interrogatório. Se o que me disse é verdade... Meu interesse cresceu muito. Mas não quero causar movimentação... A cela está aberta?
Perseu assentiu, relutante.
- O último guarda que esteve lá deve estar saindo agorinha. Se correr talvez chegue antes que ele tranque a porta.
Apollo concordou e virou-se, murmurando um adeus quase inaudível. Avançou para dentro do prédio, cuja porta estava aberta. Quando um de seus pés tocou o mármore que revestia o piso interior, sentiu que Perseu o havia segurado. Virou-se e viu-o estendendo o livro negro que segurava.
- Senhor... Encontramos isso na mochila que apareceu junto com aquilo. – Seu tom de voz era baixo e ele parecia demasiadamente assustado com a idéia de revelar aquilo para alguém. Apollo pegou o livrinho e apenas leu o título, que fora escrito em vermelho. Quando o fez, sentiu um longo e tenebroso arrepio dançar pela sua espinha. Murmurou um xingamento e correu para dentro do prédio sem falar mais nada. Virou-se quando alcançou uma mesinha de madeira e correu para as celas que estavam no térreo. Passou por duas delas, normais, com grades enferrujadas, até chegar ao lugar que procurava. Uma salinha de ferro espesso com poucos metros quadrados. Não possuía grades, apenas uma porta azulada e do mesmo material que as paredes. Um guarda ia girando a chave na maçaneta quando Apollo chegou. Ele correu e impediu-o, o dispensando em seguida. Então, respirou fundo e destrancou a porta, entrando rapidamente e com uma expressão incomummente séria na face.
- Quem, em nome de Banor, você pensa que é? – Disse isso indicando a capa do livro para o vulto que estava deitado em uma cama improvisada do outro lado da sala. Categoricamente ele ficou em pé, estalando os dedos. A porta atrás de Apollo bateu. Ele respirou fundo mais uma vez, tentando manter a calma que raramente perdia. Não havia luz na sala, mas mesmo assim ele podia ver claramente os sapatos de casca de coco e as vestes alaranjadas se mexerem quando a mulher de cabelos desgrenhados baixou os olhos para o livro. Soltou uma praga baixinho e então virou-se para Apollo. Tinha olhos cinzentos inquisitivos que pareciam o despir profundamente. Ela sorriu lentamente e estendeu a palma de uma das mãos na direção da porta.
- Desista. A sala é isolada magicamente, bruxa. Não pode explodir a porta. – Ele disse, certo de que a colocara em uma situação complicada. Mas a bruxa se limitou a gargalhar.
- E quem disse que é a porta o meu alvo? – Ela se adiantou, agarrou Apollo e o puxou para junto de si, apontando a palma da mão para a cabeça dele. Pegou a sua espada presa ao cinto e jogou-a longe. Apollo sentiu uma onda de terror inexplicável tomá-lo quando a mão dela começou a esquentar. – Vamos dar uma volta. Você e eu.
Então vamos lá... A Espinha foi planejada previamente de um jeito simples: Cinco histórias, cinco lordes. Fácil entender certo? Mas passei por longas reflexões neste último mês, e a história sofrerá uma grande reviravolta iniciada pelo capítulo quinze. Com isso, teremos três, e não cinco histórias.
Vocês queriam ação, não queriam? Foi uma capítulo transitório de novo, mas podemos dizer que a ação está sim voltando. Os próximos capítulos trazem a guinada que a história dará daqui pra frente.
Manteiga.
johnClown
10-01-2010, 02:29
Passei meus olhos pelos capitulos e achei muitos interesantes.
Amanha postarei com um comentario decente, mas seu lado escritor é mto bom, claro que a cd capitulo fica melhor ainda.
Continue assim, o acompanharei deste dia em diante tenha ctza :D
Eu nunca procurei ação nessa história, mas um enredo centrado, alguma ideia bem trabalhada no meio de tantos personagens, cenários e intrigas. O texto como um todo é super bem escrito, mas pouco atraente, primitivo, as partes ainda não se bateram de maneira harmoniosa.
Esse último capítulo poderia se passar por um ótimo prólogo para qualquer história de fantasia medieval, mas acabou sendo um dos mais maçantes até agora. É chato estar em outro canto do mundo a todo momento quando nenhuma das situações são animadoras. Afinal, logo que a história começa a engrenar de um lado, você puxa para outro e voltamos a estaca zero. Perdoe-me pela comparação bizarra, mas as vezes penso que estou lendo uma mistura de The Silmarillion com Harry Potter.
Falando sério e perdoando a possível pieguice, você prova a todo instante que sabe fazer o leitor imaginar, mas anda pecando em nos fazer sentir, realmente curtir a história. O que falta é um pingo de densidade; aquele enredo apaixonante com momentos inspirados que arrancam suspiros do leitor. Sinceramente, torço para que essa "guinada" seja mais do que espadas, bolas de fogo e orcs sedentos por sangue. Lembre-se que a parte dramática da história também está se perdendo por conta do efeito pingue-pongue.
As histórias da seção andam meio esquecidas, hein? Creio que não estamos no clima para enredos longos...
Meu Deus.
Eu não tenho uma só crítica para essa história.
É simplesmente sem igual!
É tão boa que não tenho outra palavra para descrevê-la senão magnífica. Acho que não ponho os olhos em histórias tão boas faz tempo.
Meus parabéns, e continue assim!
Err, e só uma coisinha de nada... Vê a minha história, Makyan? :wub:
Manteiga
10-05-2010, 13:03
Olá caríssimos (novos?) companheiros do Literatura. Aos que vierem a ver este post entes de ler o contexto do tópico, vou esclarecer: Este tópico refere-se a uma história criada por mim referente ao jogo Tibia, e por opção pedi que fosse movida do Histórias para cá. É um tanto estranho, mas conforme o novo sistema do forum achei que este se enquadrar melhor aqui do que na área de roleplay. Quem não gosta do jogo e de nada ligado a este, simplesmente não entre. Ficarei feliz em retomar as postagens para um grupo que se sinta interessado.
Capítulo Treze
Um Capricho dos Deuses
Aquela era sem dúvida alguma a situação mais improvável que Angela vivera nos últimos dois meses. Estava parada no meio do cubículo de pedra aonde fora enfiada – chamavam de Cela de Contenção Máxima – com um homem completamente estranho em pé apenas uns dois metros à sua frente. Segurava o livro negro com uma força descomunal, como se acreditasse que ele surtiria algum efeito. Ela, por sua vez, estava com a palma da mão esquerda apontada diretamente para ele, sentindo a energia pulsar pelos seus dedos. Segundo fora lhe dito – e confirmado por ela mesma posteriormente, diga-se de passagem – a sala era encantada com uma espécie de barreira contra-feitiços, o que impossibilitava que ela explodisse as paredes, por exemplo. Mas esqueceram-se de um detalhe muito interessante. Ainda posso estourar os miolos de quem entrar. Era uma medida muito efetiva numa situação como aquela. Tudo que tinha a fazer era chantagear o sujeito até que conseguisse sair dali. Mas algo lhe dizia que não seria uma tarefa tão simples assim. O homem dos cabelos cor de ouro a encarava com uma fúria animal. Ele parecia ter uma vontade astronômica de impedir seus planos.
- Eu não temo a morte, bruxa. Pode fazer o que quiser comigo. Jamais conseguirá sair daqui. – Disse ele, fuzilando-a com seus malditos olhos. Estava levemente curvado e Angela tinha a péssima impressão de que ele tinha a pretensão de levar a mão livre até a bainha e sacar a espada. – Ainda que passe pelo meu corpo sem vida, há outros guardas neste ambiente.
- Se eu matar um, posso matar todos. – Disse ela com simplicidade. Ela detestaria tomar uma atitude como aquela, mas se não tivesse escolhe, não hesitaria. Ela precisava sair daquele lugar, e rápido. Se demorasse mais um dia sequer, sabia que todo o trabalho que tivera nos últimos dois meses seria em vão. Já foi gasto tempo demais com trivialidades. Ela suspirou e encarou o homem diretamente à sua frente. Tinha duas opções para tentar passar. A primeira, relativamente mais simples, era jogar uma bola de fogo nele, sair calmamente pela porta, explodir a parede mais próxima e sumir antes que os guardas a achassem. A outra opção consistia em tentar persuadir o homem a acreditar nela e ajudá-la a sair. Improvável que dê certo, mas é o que prefiro fazer. Ela começou a falar sem tirar os olhos dele. – Escute. Eu sei que será muitíssimo difícil de acreditar nas palavras que irei proferir neste momento, mas você deve ouvir-me.
Ele seque piscou. Angela interpretou aquilo como uma concessão, mas ainda assim gostaria muito de saber o que se passava na mente dele. Prosseguiu.
- Quando eu cheguei aqui, algum tempo atrás, estava sedenta por ajuda. Havia passado por alguns momentos desagradáveis e precisava urgentemente me recompor, pois eu ainda tinha uma longa viagem a fazer. Pois bem. Fui muito bem tratada por seus homens, até que um deles resolveu me interrogar. Digamos que ele foi um pouco... Hostil. Minha única opção foi reagir à altura, e então...
- Você assassinou-o sem dó nem piedade. – Completou Apollo, com sua voz forte ecoando pela sala. Havia um rancor claro em sua fala que fez Angela arquear uma das sobrancelhas.
- Não foi bem assim. Não se pode assassinar o que não está vivo. – Ela disse com uma entonação de obviedade. O homem soltou uma gargalhada forçada altíssima, que ela tinha a impressão de ter durado eternidades. Ele encarou-a com mais força ainda, e ela sentiu-se despida pelos seus olhos. Quanta energia em um olhar. Quando ele falou, as palavras saíram agressivas, como se ele pretendesse desarmá-la pela fala.
- Você acha que vou cair em uma explicação tão sem fundamento? Que coisa mais ridícula é essa? Wattson estava vivo sim, eu o vi antes de morrer! Eu falei com ele, eu perguntei sobre sua mulher, ou melhor, sobre sua viúva! – Ele estava gritando. – E ele me disse que tudo estava bem. Disse que ia lhe fazer umas perguntas de rotina e ir pra casa. E eu o vi entrando na maldita sala para fazer a porcaria da última coisa que faria na vida! – Ele fez uma pausa alonga na qual tomou o máximo de ar que pode. – Eu tentei ser compreensivo o máximo que pude até hoje. Eu tentei fazer eles te manterem com o mínimo de luxo possível. Eu tentei acreditar que foi uma reação involuntária sua, eu juro que tentei. Eu juro pelos deuses que eu não quis me precipitar. Mas quando eu vi este maldito livro, quando li o que estava escrito aqui.... Eu simplesmente não pude mais agüentar. E eu vim até aqui para acabar com esta história, para saber toda a verdade. E o que você me fala? Uma maldita de uma história de bêbado!
Ela respirou fundo, parecendo pouco surpresa com as palavras fortes de Apollo. Eu não esperava que fosse fácil, de qualquer maneira. Mas teve de admitir que era muito estranho. Pelo que ouvira os guardas comentarem pelos corredores, a morte de Wattson não tivera a repercussão que merecia. Esperou que o silêncio reinasse absoluto e voltou a falar. Nenhum dos dois movia o olhar.
- Ele não estava vivo. – Apollo fez menção de gritar alguma coisa, mas Angela não deu tempo para respostas. – Você viu sangue na sala depois que acharam o corpo? Você viu uma mísera gotícula de um maldito sangue em qualquer parte daquele ambiente, do corpo dele ou das minhas vestes? Eu mesma lhe respondo. Você não viu. E sabe por que não? Porque não nada. Ele não sangrou. E ele não sangrou porque não tinha sangue para perder.
Ele encarou-a abismado. Era um fato que não fora achado qualquer resíduo sanguíneo na cena do crime, e isso o surpreendera muito quando o encontraram. Ele possuía alguns ferimentos em algumas partes do corpo, alguns superficiais, outros profundos, e nenhum deles tivera a mínima quantia de sangue. Na época fora dito que como os ferimentos eram mágicos eles não sangrariam, mas Apollo sabia que não podia ser a única explicação racional. Desfez sua posição de quase-ataque e encarou-a longamente, invadindo seus olhos. Não pôde ver nada além de névoa neles. Mas... Como ela pode dizer que ele não estava vivo? Angela pareceu compreender a confusão do outro, pois logo retomou sua ladainha:
- Eu passei os últimos dois meses investigando uma colônia do Pentágono localizada perto de Northport. Descobri muitas coisas interessantíssimas enquanto estive lá. Mas a mais chocante de todas elas foi a última coisa que fiquei sabendo. Os necromantes servos de Yöer parecem ter desenvolvido a mórbida capacidade de... De manipular os mortos. – Ela fez uma pausa na qual uma expressão atônita formou-se na face de Apollo. – Usaram algum tipo de magia negra para fazê-los os servirem. Não é a mesma coisa que com as caveiras ou o resto das tropas. É uma magia estranha capaz de guardar a memória do morto. É como uma ressurreição. Tive muito trabalho para descobrir que eles estão matando agentes da Unie na encolha e os possuindo com esta magia para os infiltrar de novo como se nada tivesse acontecido. O que pretendem com isso? Estava prestes a descobrir quando tive que fugir para cá. E me deparei com a prova das minhas incursões. Wattson era um impostor.
Apollo largou o livro, que caiu com um baque no chão, erguendo uma pequena quantia de poeira. Jamais acreditaria naquilo se não tivesse visto tudo o que viu. O corpo de Wattson estirado no chão, sem qualquer sinal de sangue. Os cortes nos braços, os profundos ferimentos no peito resultados de magia. E nada. Ele devia ter suspeitado. Caveiras não sangram. Perguntou-se a quanto tempo aquilo acontecia. Perguntou-se se Wattson já era um servo das trevas quando sue filho mais novo nascera alguns dias antes de sua morte. Pegou-se surpreso acreditando nas palavras da bruxa. Era irracional. Era impossível. Era inaceitável. Era verdade. Algo dentro dele dizia que era. Era como se alguma força maior o fizesse acreditar. Era como se aquela mulher de laranja tivesse algum poder de persuasão maior que a própria razão. Naquele momento, parecia impossível discordar daquela informação. Pelo menos para ele. Mas então veio a dúvida. E se ela for um deles? E se ela estiver apenas fazendo um joguinho?
- Não posso acreditar em você! – Bradou, levando as mãos ao cabo da espada e sacando-a com vigor. Um tilintar metálico foi ouvido quando a arma surgiu entre ambos. – Está me enganado apenas para sair daqui e fazer sabe-se lá o que!
- Cale a boca! Se eu quisesse sair tanto assim eu já teria matado você e saído. O que eu teria a perder se eu fosse uma necromante de Yöer? Aliás, se eu fosse uma serva de Catura, pode ter certeza que eu teria destruído esse prédio assim que cheguei a ele. Vamos, homem! Você sabe que não há lógica nisso tudo!
- E o livro? Como você tinha o maldito livro? – Disse Apollo indicando o tomo caído ao chão. Ela suspirou longamente.
- Fruto da curiosidade de uma bruxa. Vai me condenar agora é? – Ela parou e recolheu sua mão. O fluxo de energia cessou. – Vamos parar com essa palhaçada. Eu preciso entregar esta informação a alguém muito importante que está em Thais, mas eu não posso fazer isso se estiver presa aqui dentro. Saia da frente e me deixe ir.
Apollo não moveu-se um centímetro sequer.
- Não há garantias. Você pode ter recebido a missão de coletar informações. Agora que gastou tempo suficiente aqui pode muito bem acabar com seu teatrinho. Eu não posso acreditar em você! Ninguém pode provar que você está do nosso lado!
- Ah! Quer saber? Cansei de brincar! – Ela encarou-o tenebrosamente e concentrou sua energia nas artérias, de modo que fosse espalhada para todo o corpo. Pronunciou as palavras mágicas quase que imediatamente. – Utana Vid!
Apollo assistiu aterrorizado o corpo da mulher desaparecer por inteiro. Piscou umas três vezes para ter certeza do que vira. Ela... Sumiu! Esquecera-se por completo de que ela ainda podia executar feitiçarias contra si mesma ali dentro. Estava pronto para baixar a guarda quando ouviu um som muito semelhante ao de um pé sendo arrastado. O barulho repetiu-se mais algumas vezes. Seu coração acelerou quando ele finalmente compreendeu o que havia acontecido de fato. Ela ficou invisível. E parecia que ela havia adquirido o poder de ler mentes também, pois, logo depois de receber aquela revelação, Apollo foi atingido na cabeça por alguma coisa dura que o fez urrar e soltar a espada, que caiu pesadamente no chão. Sentiu a dor latejante invadi-lo bem quando a bruxa reapareceu às suas costas, colocando um sapato de casca de coco de volta no pé. Ela deu uma piscadela e murmurou um pedido de desculpas, abrindo a porta e deixando a claridade penetrar na sala. Jogou-se para fora do cômodo bem no momento que passos rápidos brotavam pelo corredor de pedra. Apollo ergueu os olhos para o ambiente externo e viu Perseu chegar correndo, gritando alguma coisa ininteligível. Ele mal percebeu que um filete de sangue escorria entre seus cabelos louros, pois, o que se deu em seguida foi completamente inesperado e difícil de digerir. Angela, talvez por reflexo, havia gritado alguma palavra mágica e apontado a mão na direção do outro guarda. Uma grande bola de fogo foi arremessada, atingindo em cheio o braço direito nu do oficial. Houve a explosão, o grito de dor de Perseu, o berro de surpresa de Angela e a hedionda cena que se seguiu. O membro superior do amigo de Apollo. Rodopiando, inerte, pelo corredor, até chocar-se com a parede mais próxima.
O homem caiu no chão, levando a mão esquerda ao que restara do outro braço. Urrava de dor e as lágrimas brotavam de seus olhos. Mas o que de fato destruiu Apollo naquele momento não foi ver a dor do amigo. Foi constatar que não caía sequer uma gota de sangue do ferimento de Perseu.
Nada a dizer a respeito.
Manteiga.
Acho difícil novos leitores se interessarem por grandes histórias tibianas em andamento, mas nada impede que os antigos compareçam, então provavelmente ficaremos na mesma quanto a esse quesito.
Alguns meses se passaram e admito ter esquecido os detalhes. Eu achei os diálogos críveis, bem cadenciados, e apesar do contexto ser mágico-aventuresco demais para me agradar, até que prendeu a atenção. Sendo sincero, mesmo quando o capítulo é legal, raramente sinto vontade de retornar para o próximo. Ainda não tenho certeza se é um problema pessoal ou se o erro consiste em prolongar demais as histórias, mas ei, seu tópico, sua criatividade, sua decisão.
Falous.
Acho difícil novos leitores se interessarem por grandes histórias tibianas em andamento, mas nada impede que os antigos compareçam, então provavelmente ficaremos na mesma quanto a esse quesito.
Alguns meses se passaram e admito ter esquecido os detalhes. Eu achei os diálogos críveis, bem cadenciados, e apesar do contexto ser mágico-aventuresco demais para me agradar, até que prendeu a atenção. Sendo sincero, mesmo quando o capítulo é legal, raramente sinto vontade de retornar para o próximo. Ainda não tenho certeza se é um problema pessoal ou se o erro consiste em prolongar demais as histórias, mas ei, seu tópico, sua criatividade, sua decisão.
Falous.
eu acabei de ver o topico e ler o primeiro capitulo
vou continuar amanha assim q tiver tempo
me interessei muito sim, e pretendo ler e acompanhar até o fim
e acho q o problema de n ter vontade de ler o proximo capitulo é seu sim
pois eu mesmo quando li um ja fiquei com muita vontade de ler o próximo
Mega Hero Knight
25-05-2010, 20:12
Impossível.
Posso estar parecendo puxa-saco, wannabe, ou qualquer outra coisa gay, mas...
...INCRÍVEL, ÉPICO.Como disse disse num outro tópico, quero fazer uma narração e detalhes como o seu em minha obra(bom, desistir, por enquanto, da saga original, e principal que era a de Vanor, agora estou tentando fazer uma boa narração na genêsis, cujo é complexa, e longa)
Mas voltando ao assunto, antes do fim do livro.O quê foi na "vitória" de Angela, antes de tu proferir a Wyda, eu pensei que ela era o receptáculo ou retorno de Tibiasula, ainda tenho esperanças...Mas se for verdade isso, tem três coisas a dizer:
1- eu sou foda.
2- dei um spoiler foda, o quê estragaria sua historia.
3- você é foda.
Mas mesmo assim, sua historia é foda.
Flw's
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